— Mélia, prepare-se, vamos buscar ele.
— Hmpf, tava demorando.
Protea estava preso numa cela dentro do celeiro. Suas m?os e bra?os acorrentados tremiam de frio. Sua garganta o incomodava, ela doía. O garoto suava; sua pele estava quente como um caldeir?o. Seu nariz escorria, e seus olhos ardiam tanto que o faziam lacrimejar. Jogado no ch?o frio, ele apenas lamentava.
O Sr. Kingston aparecia na porta. Ele tinha comida e água em m?os. Caminha até a cela de Protea; seus passos ecoavam como uma bomba-relógio. Ao chegar perto, o homem fica em posi??o de cócoras e, antes de colocar a comida para o menino, diz:
— Veja, Protea, em que estado lastimável você se encontra. Sua situa??o física e mental est?o destruídas, suas roupas rasgadas e seu rosto chupado. Eu te pergunto: por que seus amigos n?o vieram te ajudar? Pensei que vocês eram uma família.
Protea n?o conseguia falar, mas seu rosto abatido ainda demonstrava determina??o suficiente para responder ao homem sem precisar verbalizar nada.
— é que eu acho, no mínimo, engra?ado. Eu, que claramente sou seu inimigo, estou te dando comida e água. Seus amigos n?o te deram nem metade disso. Eu preferiria morrer a ter que depender de pessoas t?o inúteis quanto eles. Saiba… o único motivo de você estar vivo é porque íris gosta de você. Se n?o fosse por isso, você já estaria morto.
— Diz o grande senhor que, após regurgitar seus pensamentos com uma express?o fria, deixa os suprimentos na cela de Protea e vai embora.
O garoto lentamente pega o p?o, coloca em sua m?o suja e cheia de bactérias e come. Seus dentes doem. O p?o desce rasgando a garganta e cola nos seus lábios ressecados que, após ele tirar o p?o da boca, sangram, pois havia arrancado parte da carne deles.
Sentado no ch?o frio, sozinho, de novo, nosso herói…
Chora.
Capítulo 8 — Metamorfose
— Pai, o senhor sempre me ensinou a ser uma pessoa boa, mas eu n?o entendo uma coisa: por que as pessoas podem nos tratar mal e nós só temos que aceitar? — Diz Protea, tomando banho num rio junto com seu pai. Seu cabelo estava molhado; ao falar, abria um sorriso de orelha a orelha.
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— Meu filho… Acho que você está entendendo as coisas um pouco errado. — Fala o pai de Protea. Seu cabelo também estava molhado; ao falar, ele coloca a m?o na cabe?a do filho e sacode o cabelo dele.
A água era cristalina. As árvores eram t?o verdes que doía os olhos. Só se escutava o som da água em movimento e os dois conversando. Protea se vira para o pai; seu cabelo pingava, fazendo barulho ao tocar na água do rio. Esse sutil barulho era como um metr?nomo. Os dois se olham. Os lábios de ambos demonstravam um genuíno sorriso. O homem abra?a o garoto e fala:
— Eu te amo, meu f-
— Filho, você está bem? — Dizia o Sr. Kingston.
Protea olhava para o homem e fala:
— Tá tudo bem, sim, pai. Só tava pensando numas besteiras.
— Ent?o coma logo, íris está te esperando para vocês irem para a escola. — Dizia o homem, que cortava um ovo frito com calma e naturalidade.
— Tá bom, pai. — Protea respondia com um sorriso que vinha de orelha a orelha.
Eles comiam numa cozinha refinada. Várias facas estavam enfileiradas, pratos milimetricamente colocados. Protea comia com uma etiqueta limpa e perfeita. A mesa era enorme; em cima, um buffet de comida, muito luxo e gula: frango, p?es, ovos, queijos etc. Muita comida. Protea pegava o p?o, cortava, colocava o queijo e comia. Pegava um suco de maracujá, colocava no copo com gelo e levava aos lábios, saciando-se.
— Filho, me passa o a?úcar. — Lance falava com a boca cheia.
— Pra já, p- pai! Que falta de educa??o! — Protea falava bufando, com as bochechas vermelhas.
— Hahahahaha, às vezes a gente comete deslizes. — O homem respondia rindo para cima.
— Tea! Vamos logo! — íris falava, encostada na parede da porta da cozinha, com a mochila nas costas e o uniforme da escola.
— Calma aí, t? indo. — Protea responde, despedindo-se de Lance.
Arquiteturas construídas em sangue
Feridas fechadas com gaze
A única verdade distante
Estender a cicatriz com agulha é o que fazes
Desconstru??o realizada sem pudor
Cortes feitos com ardor
Dói, eu sei, mas tenha calma
Sua família agora está em tua alma
Eles passavam pela cozinha. Protea olhava para a pia vazia. Sua cabe?a doía ao tentar se lembrar de algo que o fez mal, mas ele olha para trás e segue íris. Descendem a escadaria principal. Tudo branco. Candelabros de um castelo na Romênia.
Na entrada, eles abrem o longo port?o preto e entram na grande limousine da família Kingston.
— Teazinho… Vamos sair hoje? — Dizia íris com o rosto corado.
— Vamos sim, maninha. Depois da aula de matemática, umas 9:40, pode ser? — Protea respondia com seus lábios apontados para cima, e sua pele refletia a luz da janela do carro.
— é que eu t? querendo sair, sabe? Comprar um lanche pra gente. — Ela falava olhando nos olhos dele, a janela da alma.
— Tá de boa, a gente vai. — Protea responde com um sorriso, olhando para os olhos dela, mas… a janela da alma dele parecia n?o estar mais lá.
Pequeno grande inseto
Indesejado, jogado, humilhado
Todas as suas características s?o pútridas
Igual às suas humilha??es públicas
Odeiam, repudiam, destruíam
Instável, estável, notável
Enfrentando coisas que nem eles desafiariam
Essa sua for?a de barata é louvável
Eles chegam na escola, íris e Protea juntos. As pessoas se assustam. Como isso poderia estar acontecendo? Protea, há um tempo atrás, só era um mendigo qualquer, e agora está andando com a filha do casal mais poderoso da cidade. Eles sentam um do lado do outro, assistem à aula, fazem a atividade, até que dá 9:40. Eles saem da sala e olham para o corredor. Havia duas pessoas os olhando de longe. Suas janelas da alma pareciam estar ardendo em chamas.
A paleta de cores do mundo daqueles quatro muda. Tudo era colorido, uma mistura de roxo, amarelo, azul, vermelho, verde… Parecia que algo estava para acontecer. Mas Protea… estava cinza… branco. E isso, com certeza, é estranho.
— O que vocês fizeram com nosso irm?o?

