A resposta n?o encerrou nada. Ela abriu.
O azul da camara tremeu, como água tocada por uma gota que n?o deveria existir. A crian?a-sombra n?o se desfez, nem se afastou; ela apenas ficou mais nítida, como se o mundo tivesse ajustado o foco para aceitá-la. O ar perdeu um grau de frieza. Ribeiro percebeu que respirava diferente, mais fundo, mais lento, e isso o assustou mais do que o rito.
O toque terminou, mas a sensa??o n?o. Havia algo novo entre o peito e o est?mago: n?o um peso, mas um eixo.
— Você…
Ribeiro come?ou, e parou. N?o era falta de palavras; era excesso.
— Você tem um nome?
A crian?a inclinou a cabe?a. O gesto n?o foi imediato. Primeiro veio o silêncio, depois um franzir quase invisível entre as sobrancelhas.
— “Nome…?”
Ela repetiu, testando o som.
— “Você nunca me chamou.”
Aquilo bateu como constata??o tardia. Ribeiro abriu a boca para responder, mas percebeu que qualquer desculpa soaria pequena demais para atravessar a sala.
— Eu posso… te dar um?
A sombra n?o respondeu de imediato. Os olhos se desviaram para o ch?o translúcido, onde reflexos se moviam como memória líquida.
— “Se você quiser.”
— E se eu errar?
Um quase-sorriso surgiu, torto, curto.
— “Você sempre erra.”
Ribeiro assentiu, aceitando a verdade sem defesa. O nome veio n?o como ideia, mas como press?o atrás da testa, algo que já estava ali antes da pergunta.
— Noxyt.
O som caiu na camara e n?o se perdeu. Pelo contrário: ele se espalhou, reverberou nas colunas de luz, voltou diferente, mais grave.
A crian?a fechou os olhos por um segundo inteiro.
Quando abriu, havia algo novo ali. N?o alegria. Reconhecimento.
— “Ent?o… eu sou Noxyt.”
A camara reagiu.
N?o com explos?o, nem com luz dramática, mas com um deslocamento sutil: o centro da sala escureceu por um instante, e algo brilhou sob os ossos de Ribeiro, abaixo da clavícula esquerda. Um calor contido, circular, como brasa coberta por cinza.
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Ele levou a m?o ao peito instintivamente.
— O que é isso…?
A sensa??o n?o doía. Pulsava.
O azul da sala come?ou a se desfazer em bordas, como se o rito estivesse chegando ao limite do que podia sustentar. A água da cachoeira voltou a ser ouvida, distante, insistente.
A voz de Aqua atravessou a camara antes que a figura dela surgisse:
— “Já chega.”
A cortina de água se abriu, e ela entrou como quem pisa em terreno que reconhece. Seus olhos foram direto ao peito de Ribeiro.
— "Mostra."
Ele hesitou. Procurou com os dedos, como se n?o confiasse na própria sensa??o. A marca n?o estava sempre visível; ela se escondia no ritmo do corpo. Só apareceu quando ele respirou fundo.
Três curvas se desenharam sob os ossos, formando uma estrela incompleta, girando lentamente em torno de um núcleo quente. N?o era grande, ainda, mas era precisa demais para ser acaso.
Aqua estreitou os olhos.
— “Tomoes.”
Ribeiro ergueu o olhar.
— O quê?
— “N?o exatamente...”
Ela se-corrigiu.
— “Mas a lógica é a mesma. Registro de trauma convertido em estrutura. Dor que n?o vazou, solidificou.”
Ela se aproximou um passo.
— “Isso cresce.”
— Como?
Aqua n?o respondeu de imediato. Olhou para ele como quem mede n?o for?a, mas dire??o.
— “Depende daquilo que você acredita quando tudo que o resta falha.”
Silêncio.
— E o que "eu" acredito?
Ribeiro esperou a resposta dela. N?o veio.
Foi ent?o que a voz surgiu.
N?o do lado de fora. Nem na sala.
Dentro.
“Você ainda n?o sabe.”
Ribeiro ficou imóvel.
— Quem falou?
Aqua n?o reagiu. Isso foi o que confirmou.
“Sou eu”
disse a voz, agora mais clara.
“O que você tocou. O que você chamou.”
Ele engoliu em seco.
— Noxyt?
Um riso baixo, interno.
“Dem?nio.”
“Carne.”
“Satanás, se preferir nomes velhos.”
“A falsidade do ver.”
“Ou nada.”
“Ou um.”
“Ou... Porta quebrada...”
A press?o no peito aumentou, n?o como dor, mas como presen?a afirmada.
“Eu sou você,”
Disse Noxyt.
“E você é o que me deixa existir.”
Aqua finalmente falou, firme:
— “Agora você entende por que eu disse que a explica??o cede.”
A cachoeira rugiu mais alto.
E Ribeiro percebeu, com uma clareza desconfortável, que aquilo n?o era o fim do rito, era o início da convivência.
A luz azul da camara come?ou a perder densidade, como água que esquece o próprio peso. Ribeiro percebeu a mudan?a n?o pelos olhos, mas pelo corpo: a névoa n?o voltou a envolvê-lo como antes. Ela estava ali, sabia disso, porém agora ocupava o mesmo espa?o que o pensamento, n?o o ar. Ao baixar o olhar, viu no centro do peito um tra?o escuro, ainda pequeno, quase tímido, pulsando fora de ritmo com o cora??o.
N?o doía. Incomodava como algo recém-aprendido.
Quando se levantou, o ch?o respondeu com atraso, como se o mundo precisasse de um instante para aceitá-lo de novo. A cortina d’água se abriu sozinha, silenciosa. Do outro lado, Aqua aguardava. N?o perguntou nada. Apenas observou, e, por um segundo, seus olhos demoraram onde antes n?o havia nada para ver.
— “Bom,”
Disse ela, virando-se para o vale.
— “Agora você pode continuar.”
A água voltou a cair com o mesmo som de sempre.
Mas Ribeiro n?o atravessou igual.

