Ribeiro só percebeu que a trilha subia quando o corpo come?ou a reclamar.
N?o foi cansa?o. Foi descompasso.
O vale permanecia o mesmo, árvores imóveis demais, pedras polidas pela água, o ar carregado de umidade antiga, mas cada passo parecia chegar um instante antes dele. Como se o mundo estivesse correto e fosse ele quem precisasse se alinhar.
O tra?o no peito pulsou.
Dessa vez, ele n?o levou a m?o.
— Isso vai continuar acontecendo?
Perguntou, mantendo o ritmo.
O silêncio veio primeiro. N?o vazio, atento.
“N?o.”
A voz surgiu como algo que sempre esteve ali, apenas n?o ouvido.
“Só quando você fingir que está sozinho.”
Ribeiro respirou pelo nariz.
— Ent?o você fala quando quer.
“Eu falo quando você para de me empurrar para fora.”
O caminho estreitou. Galhos baixos exigiram que ele abaixasse a cabe?a. Tudo parecia normal demais para justificar o que havia mudado, e isso o incomodou mais do que qualquer distor??o visível.
— Aqua disse que isso cresce.
“Ela observou corretamente.”
— Como?
A pausa durou mais.
“Quando você n?o recua.”
Stolen story; please report.
Ribeiro parou.
à frente, o rio se abria, largo, calmo demais para esconder as pedras sob a superfície. Ele conhecia aquele trecho. Já havia atravessado antes. Sempre desviando do centro.
— Recua de quê?
O calor no peito girou, lento, como algo buscando posi??o.
“De sentir.”
Ele fechou os olhos por um instante. O rito veio inteiro: o azul instável, a crian?a-sombra, o nome ecoando como algo que já existia antes de ser dito. Abriu os olhos antes que aquilo se tornasse suportável.
— Isso n?o parece uma escolha justa.
“Escolhas n?o existem para serem justas.”
O rio murmurava. A corrente central arrastava com for?a contida.
— Você é perigo?
A resposta veio sem hesita??o.
“Eu sou continuidade. Um dia, quase fui.”
Ribeiro soltou um riso curto.
— ótimo. Agora tenho uma voz interna enigmática.
“Você sempre teve. Só n?o escutava.”
Ele avan?ou até a margem. A água subiu fria pela bota, depois pela canela. O corpo reagiu como esperado, arrepio, ajuste de equilíbrio, mas algo mais profundo avaliava n?o a corrente, e sim a inten??o por trás do passo.
— Se eu atravessar pelo centro…
Come?ou.
“Você pode cair.”
— E se contornar?
“Você chega intacto.”
Ribeiro ficou parado, água batendo contra a perna.
— Ent?o por que escolher o centro?
O pulso no peito desacelerou.
“Porque você saberá quem atravessou.”
Silêncio.
Ribeiro inspirou fundo. N?o buscou coragem. N?o buscou controle. Apenas aceitou a decis?o sem tentar torná-la leve.
E entrou.
A corrente puxou com mais for?a do que ele lembrava. A água subiu até a coxa. O ch?o cedeu. Por um instante, o equilíbrio falhou, e algo respondeu antes do pensamento.
N?o for?a.
Alinhamento.
O eixo no peito aqueceu, preciso. Ribeiro n?o resistiu ao rio; cedeu onde precisava, firmou onde podia. A travessia n?o ficou fácil.
Ficou honesta.
Quando alcan?ou a outra margem, o mundo n?o reagiu.
Nenhuma luz. Nenhum som novo.
Mas também n?o houve rejei??o.
Ele apoiou as m?os nos joelhos, respirando fundo. O tra?o no peito estava mais definido agora. N?o maior. Mais decidido.
— Isso foi você?
Perguntou.
“Foi você que n?o usou o compasso.”
N?o havia orgulho na resposta.
Só constata??o.
Ribeiro se endireitou e seguiu adiante. Pela primeira vez desde o rito, o caminho n?o exigia pressa, nem fuga.
A convivência n?o era uma invas?o.
Era um acordo em andamento.
E o silêncio confortável de antes n?o era mais uma op??o.

