O mundo decidiu, ent?o, suas próximas jogadas.
A água da cachoeira cortava o vale como um véu pesado, espesso o bastante para que, ao atravessá-lo, o mundo parecesse ser engolido por um único som: a queda contínua, sem come?o nem fim.
Aqua parou na borda. O rosto estava calmo. As m?os ajeitaram o manto com a naturalidade de quem repete um gesto antigo demais para precisar de inten??o. Por um segundo ela olhou para Ribeiro com aquela express?o que ele já aprendera a reconhecer, algo entre m?e e juíza. N?o havia pressa. N?o havia amea?a. Havia apenas a paciência que pesa.
— “Come?ou. Agora termina.”
Ela fez um gesto simples, apontando para a cortina aquosa como quem indica um caminho que n?o admite volta. O véu ondulou, abreviando o convite; a água, como se entendesse, alinhou-se em duas trilhas e voltou a fechar. Aqua n?o atravessou de imediato: seus olhos ficaram sobre Ribeiro por um segundo mais, e ent?o ela passou, com a calma de quem fecha uma porta sem barulho. Quando a cortina se recomp?s, o vale virou quadro, e ele ficou sozinho com o som e o próprio pensamento.
A passagem era estreita. Ao cruzá-la, algo, n?o visível, apenas sentido, apertou o peito, como luva que prova punho. O ar dentro da camara era espesso; n?o era só água: havia mana suspenso, tempo comprimido. Colunas de luz líquida corriam pelas paredes; bancos baixos encostavam à margem, inúteis para o rito; no centro, duas almofadas de joelho e uma mesa curta formavam o lugar do encontro, tudo azul translúcido, como se alguém tivesse esculpido calma em gelo.
Aqua fizera o movimento; a água confirmou. Ribeiro se aproximou e sentou. Um triangulo de silêncio se fechou ao redor dele; a névoa que sempre o acompanhava hesitou no limiar, afinou-se em fio e n?o o seguiu. Ele baixou o olhar para as próprias m?os. Pela primeira vez via algo diferente: n?o ossos expostos, mas um contorno pálido e translúcido — a pele como vidro fino, revelando a arquitetura interna do corpo como num espelho d’água. Um arrepio lhe subiu pela nuca; a respira??o faltou por um compasso.
— Névoa…? Cadê você?
Murmurou.
O som da resposta vinha da margem, onde Aqua ainda podia ser vista por um instante; ela inclinou a cabe?a, quase divertida, e falou como quem entrega um enigma:
— “Aqui, a névoa n?o pede licen?a para existir. Você é a névoa. Mas agora… você foi chamado para ficar nu diante do que te forma.”
Ela n?o acrescentou mais. Explicar ali seria desfazer o rito. Com um último olhar contido, Aqua afastou-se até a saída; quando passou pela cortina, a água rearmou-se e a luz azul preencheu a camara.
Ribeiro recolheu os joelhos. Palavras superpostas e memórias vieram sem pedir permiss?o: o vaso da m?e, o riso do pai, noites que n?o voltaram. Ent?o o ambiente moveu-se como se alguém apertasse um bot?o no ch?o do mundo: o azul sangrou em vermelho. O rasgo foi seco, o vermelho irrompeu como a?o aquecido, caótico, com um fundo de metal que lembrava dentes e engrenagens; ecos do Leviathan prensados na memória. Ribeiro soltou um som agudo, o calor bateu como aviso; a língua trouxe gosto de ferro. Segundos que foram eternidade; o azul voltou, limpo, cortante.
No silêncio que ficou, a presen?a que antes apenas incomodava tornou-se forma: a sombra dele estava ali, n?o a fuma?a que o acompanhava, nem o inseto que o provocava, mas a crian?a-sombra que vivera atrás da porta. Inteira, sentada no genuflexório oposto, olhos fundos demais, boca que n?o pedia sorrisos. Parecia a memória que engolira o riso e deixara um buraco.
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Ribeiro engoliu.
— Eeee... Oi...
A palavra saiu menor do que ele pretendia, como se tivesse atravessado água antes de chegar à boca.
A crian?a ergueu o rosto devagar. Os olhos demoraram a focar, como quem n?o está acostumado a ser visto de frente.
— “Oi, Ribeiro.”
A voz n?o ecoava alto; ela se espalhava, batendo nas paredes da sala antes de voltar, como se testasse se podia permanecer ali.
Ribeiro assentiu, sem saber o que fazer com as m?os.
— Você…
Ele parou. Recome?ou.
— Você tá bem?
A sombra franziu o cenho, confusa com a pergunta. Olhou para os próprios dedos, abrindo e fechando a m?o, como se ainda aprendesse o gesto.
— “Eu… fico.”
Silêncio.
— “Quando você para de sentir, eu continuo.”
A frase n?o veio como acusa??o. Veio como quem descreve o clima.
Ribeiro sentiu algo ceder no peito.
— Eu... Eu... Eu n?o sabia...
A crian?a inclinou a cabe?a.
— “Sabia.”
Depois corrigiu, quase envergonhada:
— “Mas n?o olhava.”
— “N?o tinha coragem para olhar”
Um riso curto escapou de Ribeiro, n?o de humor, mas de reconhecimento. A sombra o acompanhou, um som pequeno, rápido, como se rir fosse algo que precisava ser devolvido antes que desaparecesse.
— “Quando você luta,”
Disse ela
— “Aqui fica cheio.”
Levou a m?o ao próprio peito. O gesto foi imperfeito, um pouco atrasado.
— “Quando você vence… também.”
— E quando eu perco?
A sombra n?o respondeu de imediato. O olhar caiu. A sala pareceu segurar o ar.
— “Aí fica pesado... Muito pesado...”
Pausa.
— “Mas! Eu aguento..! Eu sempre aguentei...”
A frase doeu mais do que qualquer acusa??o direta.
Ribeiro baixou a cabe?a. O pedido saiu antes de ser pensado:
— Me desculpa.
A crian?a balan?ou a cabe?a, negando e afirmando ao mesmo tempo.
— “N?o era pra você carregar tudo.”
Depois, mais baixo:
— “mas... e-eu também n?o deveria carregar tudo sozinha...”
O silêncio que se seguiu n?o foi vazio. Ele se acomodou entre eles, como coisa antiga voltando ao lugar.
A sombra ergueu a m?o. Os dedos tremeram uma única vez, quase imperceptível.
— “Se você encostar…”
Ela fechou os olhos, como se buscasse coragem numa lembran?a que n?o queria nomear.
— “Eu... acordo... deste pesadelo...”
— E se eu n?o encostar?
A crian?a abriu os olhos.
— “Eu continuo aqui.”
Pausa.
— “Mas você n?o.”
A resposta n?o era amea?a. Era constata??o.
Ribeiro sentiu o corpo reagir antes do pensamento. Um recuo mínimo. Um medo que n?o era de dor, mas de proximidade. De n?o poder mais fingir distancia.
— Vai doer?
A sombra pensou.
— “às vezes.”
Depois completou, honesta demais:
— “Mas já dói.”
Ele respirou fundo. Lembrou-se da correnteza, da voz de Aqua, distante e firme: sanidade é instrumento.
— Ent?o fica comigo.
O toque veio hesitante. Primeiro frio, depois quente demais para ser apenas sensa??o. No instante em que os dedos se encontraram, Ribeiro sentiu tudo perder borda, n?o o corpo, mas as defesas.
N?o houve explos?o. Houve passagem.
Sentiu o peso que deixara para trás. Sentiu também o que fora guardado com cuidado: alegrias pequenas, esquecidas, preservadas como sementes. Nada veio organizado. Tudo veio verdadeiro.
A sombra respirou fundo, um gesto novo.
— “Agora... Agora... agora vo-você se-se-sente... quando eu canso...”
Ribeiro assentiu, ofegante.
— Eu ficarei.
Ela sorriu. N?o um sorriso grande. Um que cabia no dorso da m?o.
— “Ent?o... eu também..!”

