Mas o Vazio… canta para quem ousa acordar.
Silêncio.
N?o o silêncio comum, aquele que vem quando algo termina.
Era um silêncio ativo. Atento. Como se estivesse esperando errar.
Shade abriu os olhos com esfor?o.
A névoa ao redor n?o flutuava, se organizava. Cada movimento parecia atrasado por um instante mínimo, como se o espa?o precisasse decidir se ela ainda merecia continuar ali.
O som veio depois.
Um pulso grave, distante, repetido com a cadência de algo vivo demais para ser chamado de ambiente. N?o ecoava. Persistia.
Ela tentou mover o bra?o.
Nada.
Foi ent?o que percebeu: estava sendo carregada.
O suporte que a envolvia n?o era quente nem frio. Era correto. Macio como algo que sabe exatamente quanto peso pode aguentar. Cada segundo ali fazia o corpo dela formigar, como se partes fossem sendo gentilmente desautorizadas a existir.
Respirar doía.
O ar era errado. Denso demais. Cortante demais. Como se cada inspira??o precisasse de permiss?o.
— “Ainda viva?”
A Voz surgiu dentro da cabe?a dela, ir?nica como sempre, mas agora… distante. Menos interessada.
Shade tentou responder. Apenas um som rouco escapou.
A coisa que a carregava n?o falava, mas vibrava. Um som grave, rítmico, quase ritualístico. A cada passo, o mundo mudava de tom, do negro absoluto para dourado incandescente, depois vermelho profundo, como se a realidade estivesse sendo folheada.
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à frente, a névoa se abriu em duas.
De um lado, escurid?o pura.
Do outro, brasas vivas, pulsando.
O Vazio.
E o Outro Lado.
Por um instante, Shade conseguiu focar o que a segurava.
Uma silhueta humanoide feita de sombra condensada. Onde deveria haver um rosto, um vórtice lento, com pequenas faíscas dan?ando — n?o como olhos, mas como registros.
— Quem… é… você?
A resposta n?o veio de fora.
— “Um dos que vigiam o que resta.”
O calor come?ou a aumentar. N?o queimava a pele, queimava a ideia de continuidade.
Shade sentiu o corpo ceder.
E ent?o, algo errado aconteceu.
No meio da vastid?o impossível, do conceito esmagador, do fim de deuses…
Ela lembrou de algo banal.
Um copo lascado.
Na pia de casa.
O mesmo, sempre.
Ela lembrava de pensar que devia jogar fora, e nunca jogava.
A lembran?a veio com um peso absurdo.
N?o deveria estar ali.
O Vazio hesitou.
Por um microssegundo imperceptível, o pulso falhou.
A coisa que a carregava ajustou o aperto.
— “Isso n?o pertence aqui.”
Disse a Voz. N?o irritada. Preocupada.
Shade engasgou.
— Eu… n?o… pensei…
— “Pensou sim.”
A resposta veio seca.
— “é por isso que ainda está inteira.”
A fronteira entre mundos se dissolveu.
O Guardi?o ergueu o bra?o, envolvendo-a com um manto de escurid?o viva. O calor cessou. O som morreu. Restou apenas o pulso distante, agora irregular.
O Vazio… tinha errado uma batida.
A última coisa que Shade viu antes de perder a consciência foi o horizonte incandescente.
Torres de vermelhas como labaredas.
Rios de luz cortando montanhas negras.
Um mundo talvez em ruínas, n?o por guerra, mas por excesso de propósito.
E a voz do Guardi?o, baixa. Quase triste:
— “Bem-vinda ao mundo que queimou seu Deus.”
Ao longe, Shade n?o tinha como saber que aquele era apenas um entre treze planetas.
Mas o Vazio sabia.
E agora, lembrava dela.

