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6. Sobras ígneas

  Alguns sons n?o foram feitos para serem ouvidos.

  Mas o Vazio… canta para quem ousa acordar.

  Silêncio.

  N?o o silêncio comum, aquele que vem quando algo termina.

  Era um silêncio ativo. Atento. Como se estivesse esperando errar.

  Shade abriu os olhos com esfor?o.

  A névoa ao redor n?o flutuava, se organizava. Cada movimento parecia atrasado por um instante mínimo, como se o espa?o precisasse decidir se ela ainda merecia continuar ali.

  O som veio depois.

  Um pulso grave, distante, repetido com a cadência de algo vivo demais para ser chamado de ambiente. N?o ecoava. Persistia.

  Ela tentou mover o bra?o.

  Nada.

  Foi ent?o que percebeu: estava sendo carregada.

  O suporte que a envolvia n?o era quente nem frio. Era correto. Macio como algo que sabe exatamente quanto peso pode aguentar. Cada segundo ali fazia o corpo dela formigar, como se partes fossem sendo gentilmente desautorizadas a existir.

  Respirar doía.

  O ar era errado. Denso demais. Cortante demais. Como se cada inspira??o precisasse de permiss?o.

  — “Ainda viva?”

  A Voz surgiu dentro da cabe?a dela, ir?nica como sempre, mas agora… distante. Menos interessada.

  Shade tentou responder. Apenas um som rouco escapou.

  A coisa que a carregava n?o falava, mas vibrava. Um som grave, rítmico, quase ritualístico. A cada passo, o mundo mudava de tom, do negro absoluto para dourado incandescente, depois vermelho profundo, como se a realidade estivesse sendo folheada.

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  à frente, a névoa se abriu em duas.

  De um lado, escurid?o pura.

  Do outro, brasas vivas, pulsando.

  O Vazio.

  E o Outro Lado.

  Por um instante, Shade conseguiu focar o que a segurava.

  Uma silhueta humanoide feita de sombra condensada. Onde deveria haver um rosto, um vórtice lento, com pequenas faíscas dan?ando — n?o como olhos, mas como registros.

  — Quem… é… você?

  A resposta n?o veio de fora.

  


  — “Um dos que vigiam o que resta.”

  O calor come?ou a aumentar. N?o queimava a pele, queimava a ideia de continuidade.

  Shade sentiu o corpo ceder.

  E ent?o, algo errado aconteceu.

  No meio da vastid?o impossível, do conceito esmagador, do fim de deuses…

  Ela lembrou de algo banal.

  Um copo lascado.

  Na pia de casa.

  O mesmo, sempre.

  Ela lembrava de pensar que devia jogar fora, e nunca jogava.

  A lembran?a veio com um peso absurdo.

  N?o deveria estar ali.

  O Vazio hesitou.

  Por um microssegundo imperceptível, o pulso falhou.

  A coisa que a carregava ajustou o aperto.

  


  — “Isso n?o pertence aqui.”

  Disse a Voz. N?o irritada. Preocupada.

  Shade engasgou.

  — Eu… n?o… pensei…

  — “Pensou sim.”

  A resposta veio seca.

  — “é por isso que ainda está inteira.”

  A fronteira entre mundos se dissolveu.

  O Guardi?o ergueu o bra?o, envolvendo-a com um manto de escurid?o viva. O calor cessou. O som morreu. Restou apenas o pulso distante, agora irregular.

  O Vazio… tinha errado uma batida.

  A última coisa que Shade viu antes de perder a consciência foi o horizonte incandescente.

  Torres de vermelhas como labaredas.

  Rios de luz cortando montanhas negras.

  Um mundo talvez em ruínas, n?o por guerra, mas por excesso de propósito.

  E a voz do Guardi?o, baixa. Quase triste:

  


  — “Bem-vinda ao mundo que queimou seu Deus.”

  Ao longe, Shade n?o tinha como saber que aquele era apenas um entre treze planetas.

  Mas o Vazio sabia.

  E agora, lembrava dela.

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