Shade n?o sentia o corpo cair, apenas existir leve demais, como se o próprio peso tivesse esquecido seu nome.
N?o havia ch?o.
Nem queda.
Nem dire??o.
Apenas a press?o invisível de estar inteira demais dentro de si.
O Vazio n?o era frio.
N?o era escuro.
Era… incorreto.
Ausente de tudo que fazia sentido.
E, ainda assim, algo observava.
A fuma?a negra se movia ao redor, lenta, espessa, como um oceano de lembran?as apodrecidas. Cada véu que tocava sua pele arrancava fragmentos que n?o pediram permiss?o para existir:
um grito abafado,
uma risada que n?o era dela,
o som seco de uma porta se fechando por dentro.
— “Assustador?”
A Voz surgiu diferente desta vez, suave, quase divertida.
— “N?o. Só honesto.”
Shade girou o corpo no nada, o cora??o acelerado.
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— Onde eu t??
— “Onde você para de mentir.”
O espa?o ondulou.
à frente dela, uma figura se formou, sentada em uma cadeira simples, moldada da própria fuma?a.
Shade prendeu o ar.
Era ela.
Mesmo rosto.
Mesmo contorno.
Mesmo sorriso torto.
Mas os olhos…
Eram fundos demais. Vazios demais.
— “Demorou,”
disse a outra Shade, cruzando as pernas.
— “Achei que ia continuar correndo.”
Shade deu um passo atrás, o nada cedeu sob seus pés.
— Você… n?o é real.
A Sombra inclinou a cabe?a, curiosa.
— “Engra?ado. Foi exatamente isso que você disse de mim.”
A fuma?a se moveu, formando espelhos quebrados ao redor. Em cada reflexo, vers?es dela mesma:
com raiva,
com culpa,
com sangue nas m?os.
— “Olha só,”
murmurou a Sombra.
— “Quantas vers?es você enterrou pra continuar andando.”
A Voz antiga voltou, distante, quase preocupada:
— “Cuidado.”
— “Com ela?”
A Sombra riu, um som seco.
— “N?o fui eu quem fugiu até o mundo esquecer.”
Shade cerrou os punhos.
— Eu sobrevivi.
— “Sobreviveu se escondendo.”
— “Chamou medo de cautela.”
— “Chamou fuga de escolha.”
— “Você se rejeita.”
— “E quando faz isso… me arrasta junto.”
— “Decidir dói. Por isso você chama de cautela.”
— "Por isso seu pai lhe abandonou."
O silêncio pesou.
A Sombra se levantou.
— “Quer a verdade?”
Shade abriu a boca. Nenhuma palavra saiu.
A outra Shade se aproximou, t?o próxima que o reflexo se confundia.
— “Você n?o caiu no Vazio.”
A fuma?a ao redor come?ou a girar.
— “Você sempre esteve aqui.”
O peso voltou. A observa??o multiplicou-se, como milhares de olhos invisíveis abrindo-se no nada.
A luz dourada piscou, distante, fragmentada.
A consciência de Shade come?ou a se desfazer.
E, antes de tudo apagar, a última pergunta ecoou:
“Quando o reflexo fala… quem é que está sonhando?”
Fim do Capítulo 5.

