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5. Espelho do abismo

  Silêncio.

  Shade n?o sentia o corpo cair, apenas existir leve demais, como se o próprio peso tivesse esquecido seu nome.

  N?o havia ch?o.

  Nem queda.

  Nem dire??o.

  Apenas a press?o invisível de estar inteira demais dentro de si.

  O Vazio n?o era frio.

  N?o era escuro.

  Era… incorreto.

  Ausente de tudo que fazia sentido.

  E, ainda assim, algo observava.

  A fuma?a negra se movia ao redor, lenta, espessa, como um oceano de lembran?as apodrecidas. Cada véu que tocava sua pele arrancava fragmentos que n?o pediram permiss?o para existir:

  um grito abafado,

  uma risada que n?o era dela,

  o som seco de uma porta se fechando por dentro.

  


  — “Assustador?”

  A Voz surgiu diferente desta vez, suave, quase divertida.

  


  — “N?o. Só honesto.”

  Shade girou o corpo no nada, o cora??o acelerado.

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  — Onde eu t??

  


  — “Onde você para de mentir.”

  O espa?o ondulou.

  à frente dela, uma figura se formou, sentada em uma cadeira simples, moldada da própria fuma?a.

  Shade prendeu o ar.

  Era ela.

  Mesmo rosto.

  Mesmo contorno.

  Mesmo sorriso torto.

  Mas os olhos…

  Eram fundos demais. Vazios demais.

  


  — “Demorou,”

  disse a outra Shade, cruzando as pernas.

  


  — “Achei que ia continuar correndo.”

  Shade deu um passo atrás, o nada cedeu sob seus pés.

  — Você… n?o é real.

  A Sombra inclinou a cabe?a, curiosa.

  


  — “Engra?ado. Foi exatamente isso que você disse de mim.”

  A fuma?a se moveu, formando espelhos quebrados ao redor. Em cada reflexo, vers?es dela mesma:

  com raiva,

  com culpa,

  com sangue nas m?os.

  


  — “Olha só,”

  murmurou a Sombra.

  


  — “Quantas vers?es você enterrou pra continuar andando.”

  A Voz antiga voltou, distante, quase preocupada:

  — “Cuidado.”

  


  — “Com ela?”

  A Sombra riu, um som seco.

  


  — “N?o fui eu quem fugiu até o mundo esquecer.”

  Shade cerrou os punhos.

  — Eu sobrevivi.

  


  — “Sobreviveu se escondendo.”

  — “Chamou medo de cautela.”

  — “Chamou fuga de escolha.”

  — “Você se rejeita.”

  — “E quando faz isso… me arrasta junto.”

  — “Decidir dói. Por isso você chama de cautela.”

  — "Por isso seu pai lhe abandonou."

  O silêncio pesou.

  A Sombra se levantou.

  


  — “Quer a verdade?”

  Shade abriu a boca. Nenhuma palavra saiu.

  A outra Shade se aproximou, t?o próxima que o reflexo se confundia.

  


  — “Você n?o caiu no Vazio.”

  A fuma?a ao redor come?ou a girar.

  


  — “Você sempre esteve aqui.”

  O peso voltou. A observa??o multiplicou-se, como milhares de olhos invisíveis abrindo-se no nada.

  A luz dourada piscou, distante, fragmentada.

  A consciência de Shade come?ou a se desfazer.

  E, antes de tudo apagar, a última pergunta ecoou:

  “Quando o reflexo fala… quem é que está sonhando?”

  Fim do Capítulo 5.

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