home

search

7. Cinzas que respiram

  O calor n?o vinha do ch?o.

  Ele nascia do ar, denso, comprimido, como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respira??o há séculos.

  Shade abriu os olhos com um gemido baixo. A garganta ardia, áspera por dentro, como se cada palavra tivesse sido arrancada à for?a antes mesmo de nascer.

  Acima dela, n?o havia céu.

  Havia uma cúpula.

  Uma calota translúcida e incandescente, atravessada por veios dourados que corriam como nervuras vivas. N?o era luz refletida, era o próprio ar em combust?o lenta, tornando cada inspira??o um ato de resistência.

  Ela tentou se mover.

  O corpo respondeu com atraso.

  Pesava.

  A areia sob si era negra e espelhada, vidro moído pelo tempo, refletindo fragmentos distorcidos daquilo que ainda ousava brilhar. O manto do Guardi?o, ou o que restava dele, cobria parte de seu bra?o. Ao toque, estava frio. Antinaturalmente frio.

  E ent?o come?ou a se desfazer.

  N?o rasgou. N?o queimou. Apenas se dissolveu, como fuma?a incapaz de sobreviver à presen?a do sol.

  Shade inspirou com dificuldade.

  O ar queimava.

  E mesmo assim… silêncio.

  Nenhum vento. Nenhum som. Nenhuma criatura.

  Apenas o estalo distante de algo queimando sem fogo.

  Ela se sentou, o corpo trêmulo, sentindo cada articula??o reclamar da própria existência.

  No horizonte, colunas tortas se erguiam como ossos expostos. Torres derretidas de pedra e metal apontavam para o céu em ruínas, congeladas no instante exato da queda.

  This book's true home is on another platform. Check it out there for the real experience.

  E entre elas… um rio.

  N?o de água.

  De luz líquida.

  Dourada, pulsante, fervendo lentamente, como se o mundo tivesse decidido sangrar algo que n?o deveria existir.

  — Onde…

  A palavra morreu antes de ganhar forma.

  Ela engoliu em seco, sentindo os lábios racharem.

  — …onde eu t??

  O eco respondeu.

  N?o veio de um ponto fixo. N?o tinha dire??o.

  Soou como um pensamento que o próprio lugar se recusava a esquecer.

  N?o era dita. Era percebida.

  


  “Num lugar que ainda sonha em existir.”

  Shade virou a cabe?a. N?o havia ninguém.

  Ainda assim, a presen?a era inegável.

  


  “Aqui, até o silêncio tem peso.”

  Ela fechou os olhos.

  O ch?o vibrava.

  N?o como um tremor, mas como um ritmo.

  Tum.

  Tum.

  Tum.

  Lento. Profundo. Irregular.

  Como um cora??o enterrado sob eras de pedra e culpa.

  Um arrepio percorreu sua espinha.

  Talvez o Guardi?o ainda a observasse.

  Ou talvez… algo muito mais antigo.

  Ela se levantou.

  Cada passo queimava, mas o calor n?o a feriu. N?o tentava destruí-la.

  Aceitava-a.

  Como se reconhecesse nela um resquício do que aquilo tudo um dia foi.

  Quando o vento finalmente soprou, trouxe consigo cinzas, finas, quentes, carregadas de memórias carbonizadas. Cinzas de eras que insistiram em viver mesmo depois do fim.

  Foi ent?o que Shade entendeu:

  Aquilo n?o era o túmulo de um mundo.

  Era um corpo que se recusava a morrer.

  Mesmo que viver significasse arder para sempre.

  A voz voltou, agora múltipla, sobreposta, carregada de autoridade quebrada:

  


  “NINGUéM ENTRA."

  “NINGUéM SAI.”

  “DOIS SERES VIOLARAM VOSSO PLANETA, ABANDONADO POR NOSSO DEUS.”

  “CASSEM.”

  “MATEM OS INTRUSOS.”

  O cora??o de Shade acelerou, batendo no mesmo ritmo do mundo sob seus pés.

  O ar se adensou. As veias douradas na cúpula pulsaram, refletindo sombras que n?o deveriam existir.

  Ela teve certeza de uma coisa:

  O inferno n?o precisava rugir.

  Bastava deixar homens, cinzas e lava fazerem o trabalho.

  Fim do Capítulo Sete

Recommended Popular Novels