Ele nascia do ar, denso, comprimido, como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respira??o há séculos.
Shade abriu os olhos com um gemido baixo. A garganta ardia, áspera por dentro, como se cada palavra tivesse sido arrancada à for?a antes mesmo de nascer.
Acima dela, n?o havia céu.
Havia uma cúpula.
Uma calota translúcida e incandescente, atravessada por veios dourados que corriam como nervuras vivas. N?o era luz refletida, era o próprio ar em combust?o lenta, tornando cada inspira??o um ato de resistência.
Ela tentou se mover.
O corpo respondeu com atraso.
Pesava.
A areia sob si era negra e espelhada, vidro moído pelo tempo, refletindo fragmentos distorcidos daquilo que ainda ousava brilhar. O manto do Guardi?o, ou o que restava dele, cobria parte de seu bra?o. Ao toque, estava frio. Antinaturalmente frio.
E ent?o come?ou a se desfazer.
N?o rasgou. N?o queimou. Apenas se dissolveu, como fuma?a incapaz de sobreviver à presen?a do sol.
Shade inspirou com dificuldade.
O ar queimava.
E mesmo assim… silêncio.
Nenhum vento. Nenhum som. Nenhuma criatura.
Apenas o estalo distante de algo queimando sem fogo.
Ela se sentou, o corpo trêmulo, sentindo cada articula??o reclamar da própria existência.
No horizonte, colunas tortas se erguiam como ossos expostos. Torres derretidas de pedra e metal apontavam para o céu em ruínas, congeladas no instante exato da queda.
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E entre elas… um rio.
N?o de água.
De luz líquida.
Dourada, pulsante, fervendo lentamente, como se o mundo tivesse decidido sangrar algo que n?o deveria existir.
— Onde…
A palavra morreu antes de ganhar forma.
Ela engoliu em seco, sentindo os lábios racharem.
— …onde eu t??
O eco respondeu.
N?o veio de um ponto fixo. N?o tinha dire??o.
Soou como um pensamento que o próprio lugar se recusava a esquecer.
N?o era dita. Era percebida.
“Num lugar que ainda sonha em existir.”
Shade virou a cabe?a. N?o havia ninguém.
Ainda assim, a presen?a era inegável.
“Aqui, até o silêncio tem peso.”
Ela fechou os olhos.
O ch?o vibrava.
N?o como um tremor, mas como um ritmo.
Tum.
Tum.
Tum.
Lento. Profundo. Irregular.
Como um cora??o enterrado sob eras de pedra e culpa.
Um arrepio percorreu sua espinha.
Talvez o Guardi?o ainda a observasse.
Ou talvez… algo muito mais antigo.
Ela se levantou.
Cada passo queimava, mas o calor n?o a feriu. N?o tentava destruí-la.
Aceitava-a.
Como se reconhecesse nela um resquício do que aquilo tudo um dia foi.
Quando o vento finalmente soprou, trouxe consigo cinzas, finas, quentes, carregadas de memórias carbonizadas. Cinzas de eras que insistiram em viver mesmo depois do fim.
Foi ent?o que Shade entendeu:
Aquilo n?o era o túmulo de um mundo.
Era um corpo que se recusava a morrer.
Mesmo que viver significasse arder para sempre.
A voz voltou, agora múltipla, sobreposta, carregada de autoridade quebrada:
“NINGUéM ENTRA."
“NINGUéM SAI.”
“DOIS SERES VIOLARAM VOSSO PLANETA, ABANDONADO POR NOSSO DEUS.”
“CASSEM.”
“MATEM OS INTRUSOS.”
O cora??o de Shade acelerou, batendo no mesmo ritmo do mundo sob seus pés.
O ar se adensou. As veias douradas na cúpula pulsaram, refletindo sombras que n?o deveriam existir.
Ela teve certeza de uma coisa:
O inferno n?o precisava rugir.
Bastava deixar homens, cinzas e lava fazerem o trabalho.
Fim do Capítulo Sete

