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Kamala

  Carros passam pelas ruas de Mainly Heavens, vários p?steres e anúncios da marca Kingston, outdoors com discursos de políticos e famosos. O céu, cinza, as nuvens cobrem todo o sol, deixando a chuva come?ar a cair. Um garoto sentado numa quina de um beco imundo, tomando um copo de refrigerante. Suas roupas, desgastadas e sujas. Ele termina a bebida, coloca o copo ao seu lado. O lugar era apertado, as paredes pintadas de amarelo anteriormente, agora est?o em bege — o tempo é realmente incontestável, até com coisas t?o ínfimas como um beco velho e pútrido. Há sacos de camisinha no ch?o, o sapato surrado e furado do garoto estava ensopado de água. Ele ouve passos vindo antes da apertada dupla de paredes cruas.

  Era um rapaz de terno preto, sapatos sociais limpos e polidos como uma obra de arte, a barba feita com precis?o milimétrica e o cabelo alinhado e bem cuidado como o de uma crian?a recém-nascida.

  


  Numa estrada deserta e escura

  Vento fresco nos meus cabelos

  Cheiro quente de colitas

  Subindo pelo ar

  Lá na frente, à distancia

  Avistei uma luz cintilante

  Minha cabe?a ficou pesada e minha vis?o turva

  Tive que parar para passar a noite

  — Ent?o finalmente você veio.

  — Você me obrigou a isso.

  O garoto vira a cabe?a para cima, olhos fechados, um sorriso suave e sereno. Seu cabelo branco e molhado com a chuva parecia como as nuvens cinzentas do céu. Ele fala:

  — Eu sou grato.

  Capítulo 12: Kamala

  Após Protea falar com Mio, ele pega a carta no bolso e a devolve, dizendo:

  — Acho que você esqueceu isso em casa.

  Mio olha o papel, abre e vê o poema. A pupila de seus olhos vai de cima para baixo, lendo cada palavra que estava ali. Virando a folha, ele vê um desenho: ele, Mélia e a crian?a. Ele abaixa a folha e vê Protea. O rapaz dobra o papel e o coloca no bolso.

  — Obrigado, irm?ozinho — ele fala com um sorriso genuíno, como se o céu estivesse dispersando nuvens carregadas de tempestades.

  — Eu tenho que ir falar com Mélia.

  — Hum, que tal você olhar para trás?

  Protea vira a nuca e vê uma garota com piercings no nariz e na boca, cabelo com mechas pintadas de roxo, unhas pintadas de preto e braceletes de espinhos.

  Ela estava com a boca trêmula,

  os olhos brilhando.

  Corre até o garoto e o abra?a com for?a, sem conseguir mais segurar suas emo??es, como uma flor prestes a se abrir na primavera. A garota apenas deixa as lágrimas caírem de uma vez.

  — Por que demorou tanto?!

  — Desculpa por ter te preocupado, irm?zona…

  Ela solta o garoto e fala:

  — Que droga, garoto! Você é um insensível! N?o se faz uma dama chorar assim!

  — Uiuiui, parece que alguém tá emocionadinha — diz Mio com a m?o na boca e uma cara de travesso.

  — Seu merda, eu vou te espancar, Miooo!

  Protea n?o se segura e come?a a rir intensamente, só para os outros dois também gargalharem de alegria. Tudo estava colorido, havia de tudo: de preto e vermelho, de azul a magenta. Mas no fundo do corredor, havia uma intensa presen?a de cinza, de preto e, principalmente, de carmesim.

  O arco-íris termina sem cor, sobre uma janela da alma cuja é denominada o ant?nimo de incolor…

  — Você é grato? N?o me fa?a rir. Sua vida foi planejada para ser uma tragédia, e foi. Falsas verdades n?o far?o seu destino ser diferente.

  O garoto abre os olhos, ainda com o sorriso sereno, o corpo jogado na quina da parede como se sua alma tivesse sido retirada. Fala com serenidade:

  — Aqui nessa cidade ninguém vive a vida como quer, e você sabe disso. Humpf… quero dizer, é você quem decide isso, n?o é?

  — E que diferen?a isso faz? Suas desventuras em série continuariam acontecendo incessantemente, e o jeito que você pensa n?o vai mudar esse fato.

  — Nós nunca tínhamos vindo aqui antes, n?o é? — diz Protea, sentado de cócoras, acariciando uma Flor-do-A?úcar.

  — Pode crer, pelo menos um pingo de natureza nessa cidade — diz Miosótis com os bra?os cruzados logo atrás de Protea.

  — é sério que vocês t?o admirados com flores? Se gostam tanto, por que n?o tiram e levam pra casa pra admirar de lá mesmo? Aí nem precisa sair — diz Mélia, sentada de borboleta no ch?o, com o bra?o apoiado na parede e a m?o cobrindo a parte de baixo da cabe?a.

  — N?o fala isso, Mélia! Flores s?o importantes. A partir da fotossíntese, elas absorvem gás carb?nico e liberam oxigênio, que é muito importante para a nossa saúde respiratória — diz Protea, acariciando o caule da planta, mais precisamente na parte do entrenó.

  — Melhor ainda, mais um motivo pra levarmos pra casa. Aquele ninho de morfo tá precisando de ar fresco.

  — Uau, finalmente você falou algo que faz sentido, Mélia. Tá de parabéns — diz Mio com os olhos fechados e o nariz empinado.

  — Miooooooo.

  — Tá bom, tá bom. Até que faz sentido mesmo. Vou lhes dar uma aula de como se tira uma planta.

  — Primeiro você precisa identificar onde fica o nó. Geralmente fica nessa partezinha daqui de baixo. Daí você retira a planta. JAMAIS tirem as coitadas pela raiz, porque você está M A T A N D O a planta.

  Mio e Mélia olham o garoto com olhos surpresos.

  — Desde quando você sabe disso, moleque?

  — Ah, é que meu pai e eu gostávamos de vir para esse jardim, e a gente sempre pegava flores para arejar o beco.

  — Ele era um homem muito interessante.

  — Ah sim, com certeza… — diz Protea com o rosto se abaixando a cada segundo. Já n?o era mais possível ver seus olhos.

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  — Ei! O que foi?

  — O que foi, mano?

  Os irm?os se juntam para ver o que havia acontecido com o garoto.

  — Protea…

  — N?o precisa ficar assim, cabecinha de ovelha — fala Mélia, abra?ando-o e acariciando seu cabelo.

  Eles sentam os três em posi??o de borboleta e perguntam:

  — Por que você tá chorando?

  Com as lágrimas caindo,

  a culpa sentindo,

  em suas m?os a Flor-do-A?úcar.

  Respira profundamente.

  Um aperto angustiante no peito

  e uma dor fisiológica na garganta,

  como se uma guilhotina estivesse o punindo.

  Ele olha nos olhos dos dois e fala:

  — Por que… fui eu quem o matei.

  — é verdade… Mas por que você faz isso mesmo, hein? — diz o garoto, ainda com a mesma express?o serena de antes.

  — Porque eu posso. Quem tem poder é quem manda, quem tem dinheiro é quem realiza o que quer — diz o homem, com uma entona??o séria.

  — Você tem alguém?

  — Mas que papo furado, eu n?o preciso de ninguém. Eu sou autossuficiente.

  — N?o precisa, mas quer. Você quer alguém que desperte uma emo??o em você.

  — Garoto, você tá achando que é quem? Você n?o está em posi??o de ser psicólogo de ninguém.

  — Tá fugindo do assunto… Ent?o você realmen—

  — Tsc, quem você acha que eu sou!? — O homem fala tremendo os lábios.

  — Um ser humano.

  Os jovens estavam voltando para casa, cada um com flores dentro de um vaso velho e quebrado. Eles iam conversando normalmente, chegavam em casa, liam algumas coisas, estudavam juntos, às vezes brigavam, se entendiam e iam dormir — com a exce??o do nosso herói.

  Do lado de fora ele estava lá, apenas sentado pensando na vida.

  — Vai ficar aí até quando, íris?

  — Já t? t?o previsível assim?

  — Pode crer. Senta aí.

  — Sério isso? Ent?o tá.

  Ela se senta ao lado de Protea. Seus cabelos cor de carmesim pareciam embara?ados, seus olhos cor de vinho aparentavam olheiras profundas, e seu rosto impecável mostrava algo mais… humano.

  — O que foi, íris?

  — Eu n?o posso mais querer planejar algo?

  — Querer você até pode, só que eu n?o vou mais cair em suas armadilhas, n?o.

  — Sei…

  — Ei.

  — Você n?o poderia simplesmente morrer? Eu sou a princesa dessa cidade. Se eu mandar meu pai te matar, ele te mata, sabia? Ent?o você seria se ajoelhar a mim e me obedecer, como todo mundo…

  — íris…

  — Por que você fica querendo ser diferente de todo mundo!? Abaixa esse seu ego, seu garoto mimado do caralho!

  — íris…

  — Vai na minha casa, rouba meus irm?os, come da nossa comida, deita na nossa cama, bebe da nossa água, e ainda quer fazer o que quer!? Você n?o tem direito de escolher nada, Protea!

  — íRIS!

  — Fala a verdade pra mim… Por que você n?o me matou ainda? Por que você me tratava t?o bem quando a gente tava naquela mans?o? Se me odeia tanto, por que n?o acabou logo com tudo?

  — Fung… fung…

  — Você n?o entenderia! — Ela tenta segurar o que vem de dentro.

  — Me responde!

  — Porque eu… eu n?o consigo…

  — N?o consegue?

  — Eu n?o menti quando falei…

  — Que eu gosto de você.

  — Ora seu… — O homem de terno morde os lábios. — Como você pode falar uma coisa dessas…

  — Aquilo te machucou, n?o foi…

  — Do que você tá falando?…

  — Eu t? falando da…

  — íris! O que você tá fazendo aqui! Aqui é nossa casa, sua—

  — Calma, gente.

  — Isso aí já é demais, Protea — fala Mélia com as penas estiradas.

  — é verdade… Já esqueceu da desgra?a que essa garota trouxe pra você? — fala Mio em cima da janela, com o rosto sério.

  — Eles est?o certos… Eu já errei muito — fala íris com o rosto cabisbaixo e um sorriso falso estampado.

  — Você vai ficar.

  — H??

  — …

  — Sério?

  — Se eu mere?o uma segunda chance aqui, ela também merece.

  — Vamos nos unir e tentar ser uma família completa.

  — Protea… — íris olha para Protea com os olhos brilhando. Nunca havia visto tanta beleza numa só pessoa.

  — Essa aqui é a sua casa agora.

  — Humpf, ent?o tá.

  — Olha como já tá você… tomando decis?es por todo mundo. Parece que eu e Mélia estamos perdendo a posi??o mesmo.

  — íris… Me desculpa por ter te deixado lá naquele dia.

  — Mio… Você sabe que a culpa foi minha.

  — Ei, parem com isso…

  — íris, eles esperaram muito tempo para falar isso pra você.

  — íris, me desculpa por n?o ter sido forte o suficiente pra te livrar daqueles monstros…

  — Me desculpa por n?o conseguir te levar no meu colo. Como irm? mais velha, eu deveria ter te levado…

  — Mio, Mélia…

  Protea toca no ombro de íris e acena com a cabe?a.

  — Tá tudo bem, gente. A irm?zinha de vocês ainda quer muito amor fraternal!

  — SEU MERDA! — O homem fala com os dentes rangendo e olhos piscando.

  O garoto se levanta, olha dentro dos olhos do homem e fala:

  — Nenhum dinheiro ou poder vai fechar esse vazio que você tem… Pai.

  — Ora seu…

  O homem estende um revólver 9mm e o aponta para o garoto.

  — No fim, pai, eu entendi por que você me deu esse nome.

  Irm?o, como foi na prova?

  Essa sua tempestade tá é broxa!

  ? ruivinha!

  Vocês n?o ficam quietos!?

  Eu bati o duque primeiro!

  Esse poema se chama O Ch?o da Tempestade.

  Você tá fedendo!

  Eu te amo, irm?ozinho.

  Eu te amo, Tea!

  Até que eu gosto de você…

  Eu te amo, meu filho.

  — Por que você n?o está angustiado com essa vida!? — O homem fala com a voz trêmula.

  — Acho que você ainda n?o entendeu…

  — A vida é apenas a vida.

  — E nada mais.

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