Era um rapaz de terno preto, sapatos sociais limpos e polidos como uma obra de arte, a barba feita com precis?o milimétrica e o cabelo alinhado e bem cuidado como o de uma crian?a recém-nascida.
Numa estrada deserta e escura
Vento fresco nos meus cabelos
Cheiro quente de colitas
Subindo pelo ar
Lá na frente, à distancia
Avistei uma luz cintilante
Minha cabe?a ficou pesada e minha vis?o turva
Tive que parar para passar a noite
— Ent?o finalmente você veio.
— Você me obrigou a isso.
O garoto vira a cabe?a para cima, olhos fechados, um sorriso suave e sereno. Seu cabelo branco e molhado com a chuva parecia como as nuvens cinzentas do céu. Ele fala:
— Eu sou grato.
Capítulo 12: Kamala
Após Protea falar com Mio, ele pega a carta no bolso e a devolve, dizendo:
— Acho que você esqueceu isso em casa.
Mio olha o papel, abre e vê o poema. A pupila de seus olhos vai de cima para baixo, lendo cada palavra que estava ali. Virando a folha, ele vê um desenho: ele, Mélia e a crian?a. Ele abaixa a folha e vê Protea. O rapaz dobra o papel e o coloca no bolso.
— Obrigado, irm?ozinho — ele fala com um sorriso genuíno, como se o céu estivesse dispersando nuvens carregadas de tempestades.
— Eu tenho que ir falar com Mélia.
— Hum, que tal você olhar para trás?
Protea vira a nuca e vê uma garota com piercings no nariz e na boca, cabelo com mechas pintadas de roxo, unhas pintadas de preto e braceletes de espinhos.
Ela estava com a boca trêmula,
os olhos brilhando.
Corre até o garoto e o abra?a com for?a, sem conseguir mais segurar suas emo??es, como uma flor prestes a se abrir na primavera. A garota apenas deixa as lágrimas caírem de uma vez.
— Por que demorou tanto?!
— Desculpa por ter te preocupado, irm?zona…
Ela solta o garoto e fala:
— Que droga, garoto! Você é um insensível! N?o se faz uma dama chorar assim!
— Uiuiui, parece que alguém tá emocionadinha — diz Mio com a m?o na boca e uma cara de travesso.
— Seu merda, eu vou te espancar, Miooo!
Protea n?o se segura e come?a a rir intensamente, só para os outros dois também gargalharem de alegria. Tudo estava colorido, havia de tudo: de preto e vermelho, de azul a magenta. Mas no fundo do corredor, havia uma intensa presen?a de cinza, de preto e, principalmente, de carmesim.
O arco-íris termina sem cor, sobre uma janela da alma cuja é denominada o ant?nimo de incolor…
— Você é grato? N?o me fa?a rir. Sua vida foi planejada para ser uma tragédia, e foi. Falsas verdades n?o far?o seu destino ser diferente.
O garoto abre os olhos, ainda com o sorriso sereno, o corpo jogado na quina da parede como se sua alma tivesse sido retirada. Fala com serenidade:
— Aqui nessa cidade ninguém vive a vida como quer, e você sabe disso. Humpf… quero dizer, é você quem decide isso, n?o é?
— E que diferen?a isso faz? Suas desventuras em série continuariam acontecendo incessantemente, e o jeito que você pensa n?o vai mudar esse fato.
— Nós nunca tínhamos vindo aqui antes, n?o é? — diz Protea, sentado de cócoras, acariciando uma Flor-do-A?úcar.
— Pode crer, pelo menos um pingo de natureza nessa cidade — diz Miosótis com os bra?os cruzados logo atrás de Protea.
— é sério que vocês t?o admirados com flores? Se gostam tanto, por que n?o tiram e levam pra casa pra admirar de lá mesmo? Aí nem precisa sair — diz Mélia, sentada de borboleta no ch?o, com o bra?o apoiado na parede e a m?o cobrindo a parte de baixo da cabe?a.
— N?o fala isso, Mélia! Flores s?o importantes. A partir da fotossíntese, elas absorvem gás carb?nico e liberam oxigênio, que é muito importante para a nossa saúde respiratória — diz Protea, acariciando o caule da planta, mais precisamente na parte do entrenó.
— Melhor ainda, mais um motivo pra levarmos pra casa. Aquele ninho de morfo tá precisando de ar fresco.
— Uau, finalmente você falou algo que faz sentido, Mélia. Tá de parabéns — diz Mio com os olhos fechados e o nariz empinado.
— Miooooooo.
— Tá bom, tá bom. Até que faz sentido mesmo. Vou lhes dar uma aula de como se tira uma planta.
— Primeiro você precisa identificar onde fica o nó. Geralmente fica nessa partezinha daqui de baixo. Daí você retira a planta. JAMAIS tirem as coitadas pela raiz, porque você está M A T A N D O a planta.
Mio e Mélia olham o garoto com olhos surpresos.
— Desde quando você sabe disso, moleque?
— Ah, é que meu pai e eu gostávamos de vir para esse jardim, e a gente sempre pegava flores para arejar o beco.
— Ele era um homem muito interessante.
— Ah sim, com certeza… — diz Protea com o rosto se abaixando a cada segundo. Já n?o era mais possível ver seus olhos.
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— Ei! O que foi?
— O que foi, mano?
Os irm?os se juntam para ver o que havia acontecido com o garoto.
— Protea…
— N?o precisa ficar assim, cabecinha de ovelha — fala Mélia, abra?ando-o e acariciando seu cabelo.
Eles sentam os três em posi??o de borboleta e perguntam:
— Por que você tá chorando?
Com as lágrimas caindo,
a culpa sentindo,
em suas m?os a Flor-do-A?úcar.
Respira profundamente.
Um aperto angustiante no peito
e uma dor fisiológica na garganta,
como se uma guilhotina estivesse o punindo.
Ele olha nos olhos dos dois e fala:
— Por que… fui eu quem o matei.
— é verdade… Mas por que você faz isso mesmo, hein? — diz o garoto, ainda com a mesma express?o serena de antes.
— Porque eu posso. Quem tem poder é quem manda, quem tem dinheiro é quem realiza o que quer — diz o homem, com uma entona??o séria.
— Você tem alguém?
— Mas que papo furado, eu n?o preciso de ninguém. Eu sou autossuficiente.
— N?o precisa, mas quer. Você quer alguém que desperte uma emo??o em você.
— Garoto, você tá achando que é quem? Você n?o está em posi??o de ser psicólogo de ninguém.
— Tá fugindo do assunto… Ent?o você realmen—
— Tsc, quem você acha que eu sou!? — O homem fala tremendo os lábios.
— Um ser humano.
Os jovens estavam voltando para casa, cada um com flores dentro de um vaso velho e quebrado. Eles iam conversando normalmente, chegavam em casa, liam algumas coisas, estudavam juntos, às vezes brigavam, se entendiam e iam dormir — com a exce??o do nosso herói.
Do lado de fora ele estava lá, apenas sentado pensando na vida.
— Vai ficar aí até quando, íris?
— Já t? t?o previsível assim?
— Pode crer. Senta aí.
— Sério isso? Ent?o tá.
Ela se senta ao lado de Protea. Seus cabelos cor de carmesim pareciam embara?ados, seus olhos cor de vinho aparentavam olheiras profundas, e seu rosto impecável mostrava algo mais… humano.
— O que foi, íris?
— Eu n?o posso mais querer planejar algo?
— Querer você até pode, só que eu n?o vou mais cair em suas armadilhas, n?o.
— Sei…
— Ei.
— Você n?o poderia simplesmente morrer? Eu sou a princesa dessa cidade. Se eu mandar meu pai te matar, ele te mata, sabia? Ent?o você seria se ajoelhar a mim e me obedecer, como todo mundo…
— íris…
— Por que você fica querendo ser diferente de todo mundo!? Abaixa esse seu ego, seu garoto mimado do caralho!
— íris…
— Vai na minha casa, rouba meus irm?os, come da nossa comida, deita na nossa cama, bebe da nossa água, e ainda quer fazer o que quer!? Você n?o tem direito de escolher nada, Protea!
— íRIS!
— Fala a verdade pra mim… Por que você n?o me matou ainda? Por que você me tratava t?o bem quando a gente tava naquela mans?o? Se me odeia tanto, por que n?o acabou logo com tudo?
— Fung… fung…
— Você n?o entenderia! — Ela tenta segurar o que vem de dentro.
— Me responde!
— Porque eu… eu n?o consigo…
— N?o consegue?
— Eu n?o menti quando falei…
— Que eu gosto de você.
— Ora seu… — O homem de terno morde os lábios. — Como você pode falar uma coisa dessas…
— Aquilo te machucou, n?o foi…
— Do que você tá falando?…
— Eu t? falando da…
— íris! O que você tá fazendo aqui! Aqui é nossa casa, sua—
— Calma, gente.
— Isso aí já é demais, Protea — fala Mélia com as penas estiradas.
— é verdade… Já esqueceu da desgra?a que essa garota trouxe pra você? — fala Mio em cima da janela, com o rosto sério.
— Eles est?o certos… Eu já errei muito — fala íris com o rosto cabisbaixo e um sorriso falso estampado.
— Você vai ficar.
— H??
— …
— Sério?
— Se eu mere?o uma segunda chance aqui, ela também merece.
— Vamos nos unir e tentar ser uma família completa.
— Protea… — íris olha para Protea com os olhos brilhando. Nunca havia visto tanta beleza numa só pessoa.
— Essa aqui é a sua casa agora.
— Humpf, ent?o tá.
— Olha como já tá você… tomando decis?es por todo mundo. Parece que eu e Mélia estamos perdendo a posi??o mesmo.
— íris… Me desculpa por ter te deixado lá naquele dia.
— Mio… Você sabe que a culpa foi minha.
— Ei, parem com isso…
— íris, eles esperaram muito tempo para falar isso pra você.
— íris, me desculpa por n?o ter sido forte o suficiente pra te livrar daqueles monstros…
— Me desculpa por n?o conseguir te levar no meu colo. Como irm? mais velha, eu deveria ter te levado…
— Mio, Mélia…
Protea toca no ombro de íris e acena com a cabe?a.
— Tá tudo bem, gente. A irm?zinha de vocês ainda quer muito amor fraternal!
— SEU MERDA! — O homem fala com os dentes rangendo e olhos piscando.
O garoto se levanta, olha dentro dos olhos do homem e fala:
— Nenhum dinheiro ou poder vai fechar esse vazio que você tem… Pai.
— Ora seu…
O homem estende um revólver 9mm e o aponta para o garoto.
— No fim, pai, eu entendi por que você me deu esse nome.
Irm?o, como foi na prova?
Essa sua tempestade tá é broxa!
? ruivinha!
Vocês n?o ficam quietos!?
Eu bati o duque primeiro!
Esse poema se chama O Ch?o da Tempestade.
Você tá fedendo!
Eu te amo, irm?ozinho.
Eu te amo, Tea!
Até que eu gosto de você…
Eu te amo, meu filho.
— Por que você n?o está angustiado com essa vida!? — O homem fala com a voz trêmula.
— Acho que você ainda n?o entendeu…
— A vida é apenas a vida.
— E nada mais.

