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O cartel e a montanha

  05/09/2020 - México

  Quatro. Dias. Quatro dias de calor, de andar em círculos e de perguntas que batiam na mesma

  parede. Saí do hospital improvisado com curativos ainda grudados no peito e a camisa rasgada,

  cheirando a pólvora e sangue seco. Minha mala antiga estava irreconhecível; a roupa que vesti

  pela primeira vez desde a surra parecia um troféu de derrota.

  O informante estava morto. A casa amarela tinha virado cena de aviso, e o homem com o saco

  na cabe?a n?o era o único que tinha participado. descobri um nome: Fernando Espinoza.

  Rebecca me mandou a ficha dele entre duas mensagens curtas, El Matador, assassino de

  aluguel. Mas nada concreto sobre uma bên??o. Nada que ligasse ele ao Ernesto também. Só

  uma reputa??o de punir quem pergunta demais.

  Ficar parado n?o era uma op??o. Roupa nova n?o conserta a vida de ninguém, mas ajuda a n?o

  parecer um cadáver ambulante. Comprei o que pude: uma camisa simples, cal?a escura, botas

  com sola firme e um casaco leve, coisas que ajudam quando precisa correr ou se misturar.

  No espelho do hotel, olhei o próprio rosto e n?o consegui decidir se vi o Alex de sempre ou um

  método novo de se torturar, eu mudei demais desde a morte do Harry.

  Liguei pra Rebecca antes de ir. A conex?o foi curta, direta do jeito dela.

  " Como você tá? " ela perguntou primeiro.

  " Vivo. Machucado. " respondi. " O que tem sobre o Espinoza?"

  " O que eu achei é pouco. " disse ela, sem rodeios. " Históricos de execu??o, contratos, homens

  que simplesmente desaparecem. Aparecem boatos de rituais, mas nada verificável. N?o tem

  evidência de bên??o. Pelo menos, nada que tenha sido identificado."

  " Ent?o se ele n?o tem um ben??o, como que estes cortes me acertaram? " murmurei. "Vou ir

  investigar a base do cartel"

  " Se for lá, marque rota, horários e n?o confie em rastro limpo."

  " Tá parecendo minha m?e. " sorri pelo telefone, numa tentativa patética de parecer mais

  confiante. " Eu digo onde vou e quando volto, e fala que mandei um oi para a Liz e pro Holland."

  Desliguei e enchi a mochila com o básico: comunicador, kit de primeiros socorros, muni??o extra

  e o baralho.

  Decidi ir até a base dos Los Olvidados. N?o era só curiosidade; era a única pista com formato

  real: localiza??o, guardas que falavam demais, rotas de suprimento interrompidas. Se o El

  Matador tinha assassinado o informante, poderia haver liga??es administrativas na base de

  contratos, listas de pagamento, telefones. E se algo ali se ligar a política, eu teria que descobrir

  rápido antes que mais crian?as sumissem.

  A caminho, passei pelo mercado; o cheiro de lim?o, pimenta e carne assada me deu um alento

  momentaneo. Pessoas viviam suas vidas minúsculas enquanto eu carregava um caso que

  deveria ser grande demais para caber no peito. Pensei na m?e que segurara minha perna na

  delegacia, no rosto do informante na poltrona. N?o era só sobre eu querer resolver; era sobre

  n?o deixar isso virar uma ocorrência comum.

  O calor parecia apertar meu corpo como uma luva suada quando cheguei à favela. Andar a pé me

  deu uma vantagem, pude ver as rotas, notar o sobe e desce dos olhares, perceber o padr?o das

  rondas e percebi também que o cowboy continuava me seguindo, sempre na mesma distancia,

  sempre na sombra. Um nó frio apertou a garganta.

  O prédio em constru??o tinha três andares; arma??o de ferro, concreto cru e paredes com tiros

  de reboco que pareciam feridas. Quando empurrei a entrada, pisei numa po?a que n?o era lama:

  sangue, escuro e grudento, espalhado como tinta derramada. O cheiro dominou tudo: ferro, carne

  queimada, mortes recentes. Um inseto bateu contra a minha face e morreu sobre a palma da

  m?o. O mundo ficou mais afiado.

  O silêncio era total. Nem um c?o latia. Nem sequer o barulho distante de passos. Só o tilintar do

  metal e o meu próprio f?lego, alto demais. Andei devagar, cada passo calculado, ativei o selo da

  refra??o .

  Os corpos estavam espalhados pelo térreo, amontoados como se tivessem sofrido algum tipo

  de rajada cortante: orifícios nas costelas, buracos que pareciam furados com precis?o e os

  mesmos furos apareciam nas paredes, como se algo tivesse atravessado paredes e carne com

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  o mesmo desenho. N?o eram balas. N?o era uma faca comum. Havia uma geometria nas

  perfura??es: curvas que lembravam selos, linhas que se cruzavam em angulos impossíveis. O ar

  ainda vibrava com um calor residual, como se algo tivesse passado ali há pouco e deixado seu

  rastro de energia.

  Peguei uma das peles expostas com luvas, me recusei a tocá-las sem prote??o e notei a borda

  do corte: n?o era rasgo; A carne parecia cauterizada de dentro pra fora. Pensei no selo

  tradicional e no selo invertido, o padr?o era perto do segundo: linhas que puxavam pra dentro,

  como se tivessem sugado algo para o centro. N?o era certeza científica, só a intui??o treinada

  por anos de ver coisas erradas.

  Subi a escada com cuidado. No segundo andar, a cena ficou pior, como se alguém tivesse

  decidido fazer um espetáculo. Três jovens espalhados pelo corredor, sombras humanas em

  posi??es que doíam aos olhos; a violência ali era metódica, experimental.

  O primeiro estava desfigurado de uma forma que fazia o est?mago revirar. Alguém havia aberto

  a face como se fosse máscara, costurado, puxado, como se buscasse algo por baixo da pele.

  Havia pontos de sutura grosseiros e um odor químico, como se tivessem usado ácidos e depois

  tentado remendar com veneno. Os olhos n?o se moviam; a boca abria e fechava sem som.

  O segundo jazia num canto sem bra?os, sem pernas. As amarras e os cortes indicavam que

  foram removidos com técnica e paciência, n?o por raiva aleatória. O corpo secara de sangue há

  tempo; insetos já colonizavam as cavidades. Era um quadro de crueldade meticulosa: fizeram

  algo para extrair, coletar, estudar.

  O terceiro estava preso a uma cadeira de metal no centro da sala. Um pano cego tapava os

  olhos e cordas amarrotadas prendiam os pulsos ao bra?o da cadeira. O peito subia e descia

  num esfor?o fraco. Quando ouvi o som, foi como se alguém tivesse sussurrado dentro da minha

  cabe?a: ele levantou a cabe?a e, com uma voz t?o fina que quase n?o saía, falou em português

  com um sotaque carregado:

  " Me ajuda..."

  A palavra atravessou o ar como punhal. Parei, devagar, abrindo as m?os pra n?o parecer

  amea?a. A troca de idioma me pegou de surpresa; esperava espanhol, n?o a cadência rouca de

  um brasileiro no meio de Monterrey.

  " Fala comigo. " disse em espanhol, mancando as palavras. " entende inglês?"

  Ele pigarreou, a venda tremendo. Depois, em um dos piores inglês que já ouvi, respondeu:

  "sim"

  "qual é seu nome"

  " Mateus... Mateus Hof. Por favor, me tira daqui."

  O nome bateu em mim Hof. Brasileiro. Algo no sotaque dele rimou com histórias que eu conhecia

  de tráfico transcontinental: estrangeiros usados como pe?es para experimentos.

  " Quem fez isso com você? "

  Ele tentou mover a cabe?a, os olhos vendados revirando sob o pano. Com dificuldade articulou

  em inglês.

  " eu tinha vindo ao México para um passeio escolar e fui sequestado junto com minha turma, era um cara com roupas de cowboy, e ele disparava algo tipo um lazer azul pelos dedos"

  Meu est?mago fechou. A descri??o coincidia com o padr?o que eu vira nas paredes, cortes

  geométricos, perfura??es como se algo tivesse passado por ali com precis?o ritualistica . N?o

  era só tortura: havia assinatura mística.

  Coloquei a mochila no ch?o e abri o kit de primeiros socorros. Enquanto improvisava curativos,

  notei a vibra??o no ar cheiro de oz?nio, um arrepio que parecia a lembran?a de uma lamina

  energética. Passei o dedo protegido pela borda de um corte de um corpo próximo; a ressonancia

  ainda tremia. Anotei mentalmente: resíduo energético e um selo invertido, Mateus agarrou meu

  pulso com for?a surpreendente; os dedos finos tremeram. Os olhos, por baixo da venda, estavam

  vidrados, mas havia algo ali: esperan?a crua. " Me deixa... " .

  " N?o vou te deixar. Vou tirar você daqui. " respondi " Me diz: tem mais gente viva? Onde eles

  levam quem ainda respira?"

  Ele respirou com dificuldade e, apontando com a boca, moveu a cabe?a na dire??o da escada

  que levava ao terceiro andar. Era claro o esfor?o; cada sílaba parecia arrancada. "Lá em cima...

  mais pessoas. Eles levam pra lá."

  " Fica aqui " falei, tirando a venda de modo que n?o o estrangulasse. " Eu já volto . N?o se mexe."

  Quando subi para o terceiro andar vi o cowboy sentado em uma cadeira e vários corpos em volta.

  Chapéu baixo, m?o no que parecia um coldre improvisado.

  "Olá Alex"

  

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