home

search

Ás de copas

  21/05/2012 — Orfanato Fischer

  O pátio do orfanato era um caos de risos e pés batendo no ch?o crian?as correndo, perseguindo riscos de sol entre as nuvens de Birmingham. Por dentro, numa sala que cheirava a bolacha quente e detergente velho, eu e o Harry matávamos tempo com um baralho. Black jack. Como sempre, ele me xingava e eu ria.

  " Alex, você é trapaceiro demais " resmungou Harry, puxando as cartas. " Nunca mais jogo com você."

  " Eu n?o trapaceio, só tenho sorte " retruquei, sorrindo. " Para de fazer birra."

  " Sei… você só sabe roubar. " Ele arregalou os olhos, fazendo drama.

  Foi quando a senhora Downes, a governanta, entrou apressada. Ela parecia ter cinquenta rostos de preocupa??o e um avental sempre sujo de cozinha.

  " Oh, eu estava procurando por vocês " disse, em tom abafado. " Venham comigo, por favor."

  Fomos até uma sala que eu nunca tinha visto antes. Lá dentro havia um homem sentado atrás de uma mesa: cabelo castanho claro penteado, olhos esverdeados cortando a sala como laminas. Estava vestido como alguém que comprava jornais caros terno bem cortado, ar de quem tinha controle.

  " Sente-se "ele convidou, com um sorriso calculado. " Meu nome é Friedrich Fischer."

  " Alex Baker. " falei, estendendo a m?o meio sem jeito.

  " Harry Doyle. " Harry respondeu com aquele ar tranquilo que ele sempre tinha.

  A senhora Downes se afastou, e o homem nos observou como se estudasse pe?as num tabuleiro.

  " A senhora me disse que vocês possuem… bên??os. é verdade? " perguntou Fischer, a voz macia demais pra ser só curiosidade.

  Minha garganta fechou. A palavra tinha peso. Eu quase n?o consegui responder.

  " Sim. " minha voz saiu fina.

  Fischer sorriu de novo um sorriso que n?o chegava aos olhos. " Que bom. Quantos anos vocês tem?"

  " Catorze. " Harry respondeu num tom calmo, como se aquilo n?o fosse grande coisa.

  " E já dominam suas habilidades ou elas só despertaram? " ele perguntou, curioso.

  Eu ia abrir a boca pra dizer que nada em mim tinha despertado quando Harry se apressou:

  " Eu tenho uma. " disse, sem hesitar.

  Fischer assentiu, satisfeito. " ótimo. E você, Alex?"

  " Ainda n?o " admiti. A sensa??o de ter algo faltando me apertou no peito.

  Fischer acendeu um charuto com calma e soprou a fuma?a como se aceitasse uma resposta previsível. " N?o se preocupe. Tenho certeza de que logo você terá a sua. " ent?o se inclinou pra frente, com o brilho de quem prop?e um bilhete na mesa. " Quero fazer uma proposta a vocês."

  Harry e eu trocamos um olhar rápido. A proposta veio como vento quente: trabalhar para a OMCB. Palavras grandes, promessas maiores.

  " Eu aceito " eu disse, com a impaciência de quem queria só sair logo daquele lugar de merda.

  " Se o Alex vai, eu também vou " falou Harry, naquele tom que transformava decis?o em certeza.

  Fischer sorriu. " Excelente. Mas antes de qualquer coisa, Harry, me mostre sua bên??o."

  Harry levantou-se sem cerim?nia. " Eu chamo de Domínio Instintivo. " explicou.

  Uma aura come?ou a ondular ao redor dele, amarela como o primeiro amarelo do sol entrando pela janela. N?o era brilho estético; era presen?a algo que fazia o ar vibrar.

  " O que ela faz? " perguntei, curioso e, ao mesmo tempo, mordido por um desconforto que eu já conhecia muito bem.

  " Alex, me ataque. " Harry falou, com aquele sorriso leve, confiante.

  Sem pensar muito e querendo provar algo pra mim mesmo levei o punho com for?a. No instante em que meu punho alcan?ou a aura, senti o corpo dele mover-se como se um fio invisível puxasse cada músculo na dire??o certa. O impacto me acertou o rosto, mas foi diferente: n?o foi só for?a; foi precis?o. Minha m?o entendeu que tinha errado antes mesmo de o soco chegar.

  This content has been unlawfully taken from Royal Road; report any instances of this story if found elsewhere.

  " Como… você é t?o rápido? " gaguejei, o gosto de sangue misturado com adrenalina na boca.

  Harry riu baixinho, meio envergonhado, meio satisfeito. " A aura aumenta minha for?a, velocidade e reflexos. Quando algo toca a aura, meu corpo reage automaticamente para devolver o golpe da melhor forma possível. é como se eu tivesse um mapa de combate dentro da pele.

  Fischer bateu palmas, impressionado. " ótima habilidade, Harry. Muito útil em campo."

  " Ent?o v?o arrumar suas coisas. Eu vou levá-los. " disse ele, desapontando a sala com simplicidade.

  Harry saiu correndo, ainda com a aura tremeluzindo. Ele nem a desligou; felicidade pura. Eu fiquei parado. Um vazio me abriu no peito n?o exatamente medo, mas inveja. N?o tinha nada parecido comigo para mostrar. Enquanto Harry empacotava uma mochila com a naturalidade de quem nasceu sabendo que um dia partiria, eu senti o contraste: ele com um dom que se mostrava e eu com um silêncio que me encolhia.

  A senhora Downes olhou pra mim com pena. Fischer fez um aceno que soou mais negócio que gesto humano. A oferta estava feita; a saída, pronta; e eu, por dentro, senti o nó de quem parte sem nada para oferecer além da própria vontade.

  " Vai ficar tudo bem " Harry sussurrou antes de partir, percebendo o peso no meu rosto. " Você vai descobrir sua habilidade. Eu te prometo."

  02/09/2020

  Promessas eram tudo o que eu tinha ou tinha sido. Voltei a mim com a adrenalina latejando no ouvido: o grandalh?o do saco na cabe?a vinha em minha dire??o com o fac?o como se fosse uma extens?o da própria raiva. N?o pensei. Agi.

  Disparei sozinho contra ele. Um corte varreu meu flanco direito o fio raspou a aura que me envolvia e, no mesmo instante, meu corpo reagiu. Instinto n?o é só reflexo: é memória do corpo. O primeiro soco foi no fígado, seco; o segundo subiu no queixo com toda a for?a que eu conseguia aplicar sem pensar. O som oco do choque ecoou na sala.

  Respirei curto. Vi o homem cambalear, a máscara de saco oscilando. Sorri, aquele sorriso nervoso que sobra quando a violência vira conversa.

  " E ent?o? Você me esperou quanto tempo? " gritei, avan?ando, distribuindo mais seis golpes metódicos entre costelas e fígado, cada um com inten??o de fechar o circuito de ataque. " Se eu nunca viesse aqui, você ia esperar pra sempre? Esse teu plano é meia-boca, n?o acha?"

  Ele tentou agarrar meu bra?o; senti os dedos grossos como troncos, mas desviei fácil, usando o momentum dele contra si. Contra-ataquei com um chute que acertou o rosto, quebrando a linha de vis?o dele por um instante. Era brutal e improvisada, mas eu vinha compondo a sequência.

  A aura do ás de Copas ainda reverberava em mim, facilitando movimentos, corrigindo erros. A cada contato, eu sentia aquele empurr?o fino que me colocava no ponto certo da luta. Nada parecia penetrar de verdade. Era como bater numa parede.

  Por uma fra??o de segundo relaxei arrogancia pequena e rápida, fedida.

  " Quanto eu voltar para Londres vou agradecer ele pela habilidade ela é incrível." falei enquanto recuava pra respirar.

  Foi aí que as laminas cortaram . Como se alguém tivesse decidido que a festa acabara. Fatiaram meu pulso, perna e abdome em cortes rasos, ardendo como ferro aquecido. O gosto metálico do sangue encheu minha boca. Merda.

  " Como ele... transp?s o Domínio Instintivo? " ouvi uma voz rouca ao meu lado, aquele riso baixo que n?o chega a ser humano. " O investigadorzinho achou que eu também n?o tenho bên??o?"

  Meus olhos come?aram a sangrar pelos cantos vis?o em mosaico, luzes piscando sinal claro do esgotamento. O tempo da minha aura estava acabando. Cada segundo a menos era uma chance a menos de que meu corpo se mantivesse no automático. O relógio na cabe?a era cru.

  'Tempo limitado. N?o entre em panico.' Pensei, repetindo a ficha técnica que me salvaria mais vezes do que eu gostaria de admitir.

  " Desculpa a arrogancia " consegui dizer entre dentes. " Prometo acabar com isso no próximo soco."

  O que veio a seguir foi talvez a única coisa que sabia fazer bem: commit total. Toda a aura convergiu pro meu punho como maré concentrada; senti o calor e o peso do golpe enquanto ela empurrava meus músculos. "Isso acaba agora", pensei com uma calma que era mentira.

  Corri na dire??o dele. Minha velocidade, ainda que já manchada de cortes, era superior; meu corpo calculou a ótica do impacto. O plano: acertar primeiro, quebrar a vontade dele, criar espa?o. Mas o fac?o foi uma extens?o do tempo um mero bandir e mais cortes atravessaram meu bra?o e costelas, rasgando pele, derramando promessa de dor. N?o o suficiente para me parar.

  Acertei o soco na boca do est?mago, o impacto deveria ter sido devastador. Senti o corpo dele dobrar; por um segundo soube que tinha vencido. A energia do golpe podia ter derrubado um prédio, e eu senti o eco dela passando através dos ossos alheios. Mas a aura morreu faltaram centímetros de concentra??o; o tempo se esgotou quando mais precisava dela. O dano ficou aquém do que o mundo merecia.

  Ele recuperou o f?lego e, com uma for?a criminosa, agarrou meus cabelos. Minha cabe?a bateu contra a mesa de centro repetidas vezes como um martelo de madeira. Tudo rodopiou: a lamina, os vidros quebrando, o cheiro do próprio sangue misturado ao do informante. Meu cranio zunia. Cada impacto apagava peda?os do meu raciocínio.

  Quando finalmente consegui me soltar cuspi carne e dor saí correndo como um animal que perdeu a toca. Perna latejando, pulso sangrando, a vis?o nublada, mas ainda pensando. Corria n?o pelo heroísmo; corria porque parar significava morrer ali mesmo, com o rosto ensanguentado e sem respostas.

  Ao me afastar algumas ruas, respirei como se pudesse puxar oxigênio de volta pro corpo. A sorte, constatei, ainda conversava com aquele lugar: parecia que aquele bruto tinha tido mais tempo do que eu merecia. Amanh? eu continuaria a investiga??o, eu prometi a mim mesmo, arfando entre passos curtos.

  " Preciso de um hotel. " murmurei, m?o no est?mago para conter os cortes que queimavam. Pensava em Rebecca, em Liz, em como explicar isso sem soar como louco.

  Foi quando notei o homem. Parado na sombra de uma porta, chapéu de cowboy virado pra frente, botas de couro velho. Observava cada passo meu com uma calma que doía. N?o era só olhar era medi??o, espera. O cowboy n?o parecia local; parecia pe?a colocada ali. Sorria sem mostrar dentes, e algo na maneira como segurava a espora sugeria que n?o era mero curioso.

  Atrás dele, a rua continuava vendedores, portas, crian?as. Mas o cowboy permaneceu, figura fixa como aviso. Olhei por cima do ombro e senti o frio que sobe pela nuca quando a coisa fica maior que você.

  Respirei fundo, apanhando o tecido da camisa para estancar o sangue. A cidade zumbia, indiferente, e aquele observador era a prova de que a toca tinha muitos olhos.

  " Amanh? eu volto " sussurrei mais pra mim do que para ele. " Amanh?, eu acabo com isso."

  E segui, cada passo calculado, cada ferida fazendo mapa, cada respira??o lembrando que eu n?o podia confiar em sorte só em técnica, vontade e, quando desse, em cartas.

Recommended Popular Novels