Cada passo ardia, cada impacto dos pés contra o ch?o reverberava por toda sua perna, acentuando a dor latente de seus hematomas, tornando cada vez mais difícil manter-se de pé. A corrente, presa ao pé direito de todos os escravos da fila, ligando-os e efetivamente impedindo a fuga individual, dificultava ainda mais o andar. As costas de Micah já se tornaram um mapa de todo tipo de cortes e incha?os, e ele já aprendera à disfar?ar seus mancos e manter o passo sincronizado dos que estavam presos à ele, caso contrário, o couro encontraria suas costas novamente.
Ele já tinha ficado alguns dias sem comer antes, por pura negligência e falta de amor-próprio, mas o constante caminhar, que demandava calorias, e suas feridas por todo o corpo, que imploravam por nutrientes para sararem, lhe causavam tanta fome que parecia que seu est?mago estava digerindo a si mesmo. Apesar disso, ele sabia que suplicar por comida só lhe daria mais feridas e mais fome.
“Isso n?o pode estar acontecendo, vou acordar a qualquer momento…”
Ele n?o podia se desfazer da nega??o, pois era tudo que o mantinha s?o, aquilo tudo era ilógico, irracional — impossível. No entanto, um vislumbre minúsculo de esperan?a acendeu-se em sua mente, e ele se agarrou a ele com todas as suas for?as.
“Espera… Se isso tudo for um sonho, eu sou o mestre dele!”
Oh, Micah.
Nos presenteie com mais uma das suas pérolas de sabedoria tiradas diretamente de um tutorial meia-boca do YouTube às três da manh?, entre um vídeo de teoria da conspira??o e um compilado de “piores casos de fanservice dos animes”. Sim, claro, é um sonho. Obviamente. E, como todo bom sonhador lúcido, ele achava que bastava perceber que estava sonhando para virar o Escolhido em um filme de fic??o científica.
Ele olhou para sua m?o — devagar, como se fosse um mago sábio prestes a conjurar uma explos?o de pura destrui??o — e a esticou à frente, como quem tenta mudar o canal da televis?o com a for?a do pensamento.
Respirou fundo. Imaginou calor, depois fogo, depois uma bola de plasma flamejante pronta para virar churrasco o primeiro capataz que cruzasse seu caminho.
E ent?o, como um bom otaku doente de esperan?a, gritou:
— FIRE BALL!
...
E o universo, cruel e perfeitamente indiferente, respondeu com nada.
Nem uma faísca. Nem um suspiro místico. Só Micah ali, de bra?o estendido, parecendo uma mistura malfeita entre um coach fracassado e um cosplay pobre de RPG de celular.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
Alguns escravos o encaravam com genuíno horror. Outros com pena. Já os capatazes? Eles olhavam como quem vê um cachorro latindo para um poste.
Uma risadinha escapou de algum lugar na fila. Um segundo depois — CRACK! — um chicote carinhosamente o lembrou da realidade. Daquela em que ele n?o era mestre de nada. Nem do próprio intestino.
Sua esperan?a, ah, aquela frágil ilus?o de controle... evaporou como um peido no vento. Sem impacto, sem dignidade. Só vergonha, dor, e uma palma estendida no ar, tremendo de ridículo.
Por que n?o, Micah.
Isso n?o é um sonho.
E se fosse, n?o seria você o protagonista dele.
A silhueta da cidade tornava-se maior a cada momento. O grupo seguiu pela estrada de pedras, flanqueada por vastas planta??es que se estendiam até onde a vista alcan?ava. O rio cortava a paisagem como uma cicatriz prateada, separando dois mundos distintos.
No lado mais alto da margem, as terras eram extensas e bem cuidadas, cercadas por muros baixos de pedra. Moinhos de vento pontuavam o horizonte, e canais de irriga??o cuidadosamente planejados levavam água às planta??es. Ali estavam as fazendas dos nobres, onde escravos trabalhavam sob supervis?o de capatazes montados a cavalo. Eles portavam chicotes e trajes negros, suas figuras rígidas lembrando corvos prontos para atacar.
Já na outra margem, as terras eram menores, de difícil cultivo. As planta??es pareciam mais dispersas, as cercas improvisadas com madeira velha e cordas gastas. O solo ali n?o era t?o bem irrigado, e o trabalho era feito por camponeses de roupas simples e desbotadas, alguns acompanhados por crian?as descal?as que carregavam cestos de gr?os. Ao contrário das fazendas muradas dos nobres, aqui as hortas camponesas ficavam expostas ao vento, ladr?es e ao olhar severo dos coletores de impostos.
Micah observava tudo com aten??o, seu olhar sendo atraído para um grupo de escravos nas planta??es nobres. A maioria deles tinha cabelos escuros ou ruivos, mas pouquíssimos eram loiros ou prateados — uma raridade entre os cativos. Ele franziu o cenho ao notar que, independentemente da fazenda, os supervisores e os camponeses sempre usavam túnicas pretas, mesmo sob o sol castigante. Um uniforme, talvez? Mas se era obrigatório, por que n?o viu mais ninguém com uma túnica prateada, como o homem loiro que encontrou anteriormente?
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Enquanto ele matutava, o grupo diminuiu o passo e parou, eles se encontravam em uma fila para a entrada norte da cidade. A cidade era rodeada por uma grande muralha de pedras que, de acordo com os cálculos de Micah, era aproximadamente do tamanho de um prédio de oito andares. Havia várias torres de vigia, com guardas rondando por cima do muro constantemente. O mesmo grande rio que irrigava as inúmeras planta??es, chamado de Veédras, cortava a cidade em dois, sendo o centro dela dominado por um grande lago circular, onde se encontrava a Ilha Central.
O cora??o da ilha era ocupado por uma cidadela de pedras claras e uma catedral de tamanho similar, construída de um mármore branco t?o bem polido, que era como um espelho do próprio céu. Na parte sul da ilha, havia várias mans?es num bairro aristocrático, enquanto no Norte havia vários silos e celeiros para a fra??o das colheitas pertencentes ao Rei, e que logo seriam enviadas à capital Axiêna e às outras cidades do reino. Grandes muralhas, similares às externas, circundavam a ilha, suas estruturas eram quase idênticas, exceto pelo fato desta usufruir de um número dobrado de balistas, guardas e vigilancia.
Duas grandes pontes conectavam a Ilha Central ao resto da cidade, o anel mais próximo da ilha era ocupado por bairros burgueses e o Mercado Ducal, enquanto o anel mais próximo da muralha externa era repleto de favelas e bairros pobres.
A arquitetura refletia o clima subtropical do local, com a maioria das constru??es sendo feitas de adobe refor?ado, madeira e pedra calcária, além das telhas serem confeccionadas com ceramica vermelha.
O grupo atravessou o port?o sem dificuldades, submetendo-se apenas a uma inspe??o superficial dos guardas. O calor sufocante da cidade se fazia sentir no ar pesado, e a principal via, a Estrada dos Gr?os — uma larga rua de paralelepípedos que ligava o Port?o Norte ao Mercado Ducal — estava coberta por uma fina camada de poeira, levantada pelo fluxo incessante de carro?as e pedestres. No entanto, o que mais chamou a aten??o de Micah foi a segrega??o evidente das cal?adas. Placas de ferro, pregadas nos muros de ambos os lados da rua, deixavam as regras claras: à direita, lia-se “Cal?ada exclusiva para loiros”; à esquerda, “Cal?ada para castanhos, pretos e outros”. E, apesar da estranheza da imposi??o, os pedestres seguiam a lei sem questionamentos.
Durante a travessia pela Estrada dos Gr?os, um alcoólatra baixinho cambaleou para fora de um beco imundo da cal?ada esquerda, provido de roupas esfarrapas manchadas de v?mito, e uma barba suja e malfeita. Ele deu um longo gole de sua cerveja, antes de levantar o olhar para a rua e se deparar com a fila de escravos transeuntes.
Ao ver as cabe?as ruivas, seu cenho se franziu de imediato. Num surto de fúria, arremessou a garrafa vazia contra uma escrava de vestido rasgado. O vidro estilha?ou-se ao atingi-la, e ela caiu no ch?o, imóvel.
— T-toma! Sua… ruiv’... vagabun’da! Hic! Chaga… da T-terra! — Xingou o bêbado, por muito pouco n?o caindo de cara no meio fio.
Um homem anterior a ela na fila, preso a correntes, arregalou os olhos ao vê-la desabar.
— Amanda! N?o! — gritou ele, trope?ando ao se lan?ar para a frente. Seu corpo tombou ao peso das correntes, mas conseguiu se ajoelhar ao lado da mulher, segurando-a nos bra?os. Sua respira??o falhou ao ver o sangue escorrer pelo couro cabeludo dela, pingando pelos fios ruivos.
Ele rasgou sua própria túnica e enrolou na cabe?a da mulher, estancando o sangue. Olhou ao redor, desesperado, até ver o agressor. O bêbado gargalhava alto, apontando para a cena como se fosse um espetáculo de rua.
— Bahaha! T-T?o bendo isso?! é izo que ezes… lazarent’s merezem! Azassinos! — Zombou ele, cutucando e perturbando os pedestres à fim de se juntarem à sua barbárie.
O desespero e confus?o do marido rapidamente se tornaram ódio puro, ele deixou a esposa e lan?ou-se contra o homem, dando um golpe diretamente no rosto dele, quebrando seu nariz e derrubando-o no ch?o.
— SEU DESGRA?ADO! Oque foi que você fez?! — Berrou o esposo, seus olhos ardendo de raiva.
O bêbado xingou entre dentes, segurando o nariz quebrado. Cambaleou ao tentar se levantar, cuspindo um pouco de sangue no ch?o.
— MERDA! Cê quer briga’ é?! V-Vem pra cima, filho d’uma puta!
Com um movimento brusco, tentou revidar, acertando um soco desajeitado na bochecha do escravo.
Quando o escravo estava preparando outro golpe, foi a?oitado nas costas, lhe tirando um gemido de dor e o derrubando de joelhos no ch?o. O chicote encontrou suas costas várias e várias vezes, os estalos ecoaram pela rua e pelos becos, os gritos deram arrepios na nuca de qualquer um que ouvisse, juntando curiosos em volta da cena como moscas sobre esterco. O escravagista velho o puniu de forma que todas os outros escravos na fila o vissem, usando-o como exemplo.
O homem caiu inconsciente pela dor, completamente encharcado de suor, enquanto o sangue fresco escorria pela sua pele e se encontrava com o ch?o seco.
O bêbado deu mais uma gargalhada, o álcool em seu sistema potencializando o prazer do triunfo. Vários cochichos puderam ser ouvidos entre a multid?o.
— Tsk, onde já se viu? Logo um escravo causando uma balbúrdia dessas? — Ele balan?ou a cabe?a em desaprova??o, bufando enquanto ponderava algo.
Encarou os ferimentos do escravo por um momento, antes de ordenar seus quatro subordinados que o acompanhavam na viagem.
— Levem esses dois à carro?a, lidarei com eles depois.
Eles obedeceram, e os dois amantes inconscientes foram postos na carro?a da frente, juntos das outras mercadorias.
De repente, um grito cortou a multid?o:
— Alto, em nome de Axis!
Dois guardas abriram caminho entre os espectadores, firmes e imponentes. Em poucos segundos, agarraram o bêbado pelos bra?os, prendendo-lhe os pulsos com algemas de ferro escuro.
O loiro, com o semblante duro como pedra, declarou:
— Você está detido por viola??o da paz pública, dano a propriedade registrada e embriaguez em hora sacra. Pela Lei de Luther e pelo nome do Leviat?, será julgado conforme os preceitos do Reino.
O homem esperneou, gritou, exigindo ser solto — mas foi inútil. Sua resistência foi esmagada sem esfor?o, e logo ele foi arrastado para longe, enquanto os espectadores abriam caminho em silêncio.
Logo em seguida ouviu-se um apito, outro guarda gritava “Dispersem já! Est?o atrapalhando o fluxo. Ou gostariam de serem presos também?”. O alvoro?o logo se dissipou por completo, e o fluxo rotineiro da Estrada dos Gr?os voltou ao normal.
Enquanto caminhavam, depois de tudo que Micah presenciou, ele lentamente conectava os pontos.
“Os valores que eu conhe?o n?o se aplicam aqui… Eu pensei que tudo isso era algum tipo de crime organizado. Mas n?o… há um Estado por trás disso. S?o leis, costumes, uma estrutura inteira construída em cima de uma cultura que eu n?o conhe?o.”
Micah sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Por mais absurdo que tudo parecesse, n?o havia como negar a realidade diante de seus olhos. Ele n?o estava apenas preso; ele era propriedade. Legalizada e regulamentada.
A consciência desse fato pesou sobre seu peito como uma rocha. Ele olhou ao redor, para os guardas, os comerciantes, os cidad?os que caminhavam sem dar mais que um olhar rápido para os escravos.
Ninguém questionava.
Ninguém hesitava.
Ninguém o salvaria.
“E se ninguém questiona… é porque isso já faz parte do mundo deles. Isso é… normal.”
Micah apertou os punhos. Ele n?o sabia como, nem quando, mas uma certeza crescia dentro dele: ele n?o poderia aceitar aquilo.
Ele n?o podia viver como um escravo. N?o de novo.
Como se isso fosse acontecer.

