Faltava apenas um dia para o Torneio das Fac??es.
Eu havia acabado o meu treinamento intensivo. O suor escorria pelo meu rosto, mas, pela primeira vez em muito tempo, o meu corpo n?o estava colapsando de dor.
Há exatos três dias, eu havia passado pelo inferno. Quando a minha compreens?o sobre a água atingiu o ápice, a transi??o biológica dos meus Circuitos Mágicos foi finalizada. A cor Roxa e instável derreteu nas minhas veias em um processo de pura agonia celular, dando lugar a uma luz pálida, pura e constante.
Eu havia alcan?ado os Circuitos Brancos. A Perfei??o Absoluta.
Agora, a minha mana fluía sem desperdi?ar uma única gota. Eu n?o superaquecia mais.
De quebra, naquela mesma noite, o Sistema atualizou uma última vez antes do evento:
[Aviso de Atualiza??o Logística!]
[O Jogador desbloqueou: Inventário Dimensional.]
[Espa?o Inicial: 10 Slots. Itens idênticos possuem acúmulo infinito no mesmo slot.]
Essa novidade foi um alívio absurdo. Eu n?o precisava mais andar por aí carregando peso desnecessário.
Naquela última noite, eu sentei na minha cama e gerenciei o meu "Loadout" tático. Demorei horas para escolher as melhores 5 Habilidades de Combate (misturando cortes de água e mobilidade) e adicionei apenas 2 Habilidades de Suporte focadas em cura rápida e purifica??o, deixando um slot livre estrategicamente.
Mas a minha maior conquista foi refinar a minha técnica assassina. O Fogo exigia 13 movimentos para queimar o alvo; a água exigia menos. Eu enxuguei os excessos e transformei os 13 Passos em 11 Ondas. Uma técnica muito mais fluida, mortal e sem gasto inútil de vigor. Mas, por enquanto, essa técnica era uma surpresa. Os meus oponentes teriam que aguardar.
Aproveitei que já tinha treinado até o osso e fui dormir. Afinal, um estrategista sem descanso é um alvo fácil.
(O DIA DO TORNEIO)
O clima na Real Academia Próxia era de pura histeria. O colossal anfiteatro ao ar livre estava entupido de alunos, nobres engravatados, mercadores curiosos e olheiros das guildas. Bandeiras de Eldória e Sentostela tremulavam no vento.
Antes de irmos para as áreas separadas, encontrei Saphira no corredor.
Ela estava com o uniforme tático de combate, parecendo uma deusa da guerra. Dei um beijo rápido nela e sorri.
— Boa sorte lá fora. Vê se n?o destrói a arena antes da minha vez — brinquei.
— N?o prometo nada, Igris — ela piscou, os olhos púrpuras brilhando de competitividade. — Tente n?o ser desclassificado cedo demais. Quero você na final.
Fui para a sala de espera dos competidores. No centro do recinto, havia uma enorme Pedra Mágica de Proje??o que mostrava tudo o que acontecia na arena.
A voz do Locutor, magicamente amplificada, estremeceu as paredes:
— é ISSO Aí, GALERA! Hoje vamos avaliar as verdadeiras habilidades da nossa elite! Vamos ver qual estudante é o mais incrível da Academia! Esta prova vai ditar a hierarquia e o futuro do nosso reino!
A multid?o rugiu.
— Vamos iniciar com a Primeira Etapa: A Classificatória de Demonstra??o! — gritou o locutor. — Esta prova consiste em exibir controle, criatividade e for?a, como um grito de guerra prático! Apenas os melhores avan?ar?o para os duelos. E para abrir o evento, vamos chamar aquela que carrega o legado da nossa saudosa e lendária Vice-Comandante Sara Heisenberg! Ela... Flora Rodan! Pela pedra de proje??o, vi uma garota de cabelos curtos e postura firme entrar. Flora sacou a espada de madeira e iniciou uma sequência. Ela fez vários movimentos complexos, saltos graciosos e bloqueios precisos. Era a esgrima da minha m?e. O meu cora??o deu um leve aperto nostálgico. Porém, embora a técnica fosse bonita, aparentemente n?o havia nada muito destrutivo ou poderoso ali.
— ótimo desempenho! — comentou o Locutor. — O próximo é a supera??o em pessoa. Um nobre que saiu de um peso morto para um guerreiro formidável! Ele: Gorgius Corgino!
Gorgius entrou de peito estufado. E ele me surpreendeu. Ele n?o usou apenas a espada; ele fundiu socos, chutes e magia de endurecimento terrestre na lamina de forma muito fluida. Ele havia treinado como um condenado.
— CARAMBA! Esse foi o mais impressionante até agora! — berrou o Locutor. — E agora... preparem seus cora??es. Vamos chamar o quebrador de limites! Aquele que n?o conhece o impossível e que obliterou um Fantasma no Modo Extremo da Guilda! O lendário: Igris Wolford Heisenberg!
Meu nome ecoou. Levantei do banco, alonguei o pesco?o e caminhei pelo túnel escuro até a luz da arena.
Quando pisei no centro do mármore, as arquibancadas explodiram em gritos misturados com vaias e aplausos.
Mas logo o silêncio de confus?o tomou conta.
— Vamos, Igris! Pode... espera aí!! — o Locutor engasgou no microfone mágico. — Ele veio para a arena sem arma nenhuma? Ele vai fazer o que de m?os vazias? Desistiu?!
Alguns nobres riram. Os avaliadores se entreolharam, confusos.
Eu apenas sorri. Perfeito. Est?o olhando.
Comandei o Sistema mentalmente. Inventário: Slot 1.
Levantei a m?o direita e estalei os dedos. O ar na minha frente se distorceu numa fenda azul geométrica, e, para o resto do mundo, eu literalmente puxei a gigantesca Espada de Carvalho Negro do nada absoluto.
— Cê Tá MALUCO! — o Locutor surtou, quase derrubando o cristal de voz. A arquibancada inteira ofegou, espantada com a "magia espacial" absurda. — Eu nunca vi nada igual! E ent?o, Igris, o que mais você guardou para nós?!
Stolen from its rightful author, this tale is not meant to be on Amazon; report any sightings.
Um show, pensei.
Eu sabia que o Fogo n?o era mais minha base, mas com os Circuitos Brancos, o meu controle era absoluto. Eu n?o ia desmaiar. Decidi usar Fogo, água e Espada para criar um espetáculo teatral inesquecível.
Canalizei a mana pura.
— Tuf?o Místico de Fogo! — gritei.
Era a evolu??o do meu antigo "Céu Flamejante". Girei o próprio eixo em solo com a for?a absurda dos meus 240 pontos, usando a espada pesada como hélice. Uma lufada de vento cicl?nica banhada em chamas puras ergueu-se ao meu redor.
Para intensificar, estalei a m?o esquerda.
— Bridges de água!
Disparei arcos cortantes de água sob alta press?o direto contra o meu próprio furac?o de fogo. Quando os dois elementos antag?nicos colidiram sob o controle perfeito dos Circuitos Brancos, o fogo foi apagado violentamente, gerando uma nuvem de fuma?a e vapor denso que cobriu a arena inteira. Ninguém enxergava nada.
Mergulhado na fuma?a, dei um corte horizontal limpo com a espada. A press?o do ar dissipou a fuma?a de uma vez. A água residual que estava no ar obedeceu ao meu comando de Maestria, juntando-se numa única e gigantesca esfera d'água flutuante no centro da arena.
Joguei minha espada pesada alto para o céu.
Com a m?o livre, lancei um último Bridge de Fogo como uma bola incandescente.
Aproveitando a minha Agilidade, dei um salto brutal. A minha espada estava caindo em sincronia perfeita. Antes de voltar para o ch?o, chutei o cabo da própria espada no ar com um golpe de artes marciais.
A lamina girou como um bumerangue, colidiu com a bola de fogo e a empurrou como um meteoro de bilhar. A bola de fogo acertou em cheio a enorme esfera de água flutuante.
No mesmo instante, eu pousei no ch?o, estiquei a m?o e peguei a minha espada de volta no cabo. Nas minhas costas, uma explos?o s?nica, massiva, porém n?o-destrutiva (apenas fuma?a iluminada e vapor), iluminou todo o anfiteatro.
Fiz uma reverência. Fim da apresenta??o.
O estádio ficou em um silêncio absoluto e assombrado por dois segundos, até que as estruturas quase racharam com o som dos aplausos e berros frenéticos. Ninguém acreditava no que tinha acabado de ver. O controle termal, físico e de fluxo foi impecável.
— Tá MALUCO! ESSE CARA é BRABO DEMAIS! — o Locutor estava subindo na própria mesa. — Sinceramente, eu nunca vi uma apresenta??o mista t?o grandiosa na vida! Cê loco! Bom... depois dessa, eu acho quase impossível alguém superar esse nível. E assim, vamos para a próxima aluna! Aquela que é uma gracinha por fora, mas esconde um poder cabuloso por dentro! Será que a Princesa de Sentostela pode ofuscar a Lenda de Igris?! Com vocês: Saphira Silford!
Eu voltei para a sala de espera com um sorriso convencido. Achei que Saphira n?o ia me superar t?o facilmente.
Eu estava muito errado. Ela me humilhou.
Saphira caminhou até a arena. Ela nem usou o cajado. Fechou os olhos e recriou o feiti?o do exame de admiss?o, mas elevado ao extremo. Ela criou uma orbe colossal de magia de Luz (o elemento mais custoso e difícil que existe) e a usou como um prisma central. A partir dessa luz, ela conjurou raios de Fogo, água, Vento, Terra, Gelo e Raio (todos os elementos, exceto Trevas), criando uma flor de lótus gigantesca e ofuscante que cobriu os céus da Academia. Era puro poder divino bruto. Os magos avaliadores deixaram as pranchetas caírem.
— RAPAIZ!!! — o Locutor quase engasgou. — Tá MALUCO! ESSA MINA SIMPLESMENTE HUMILHOU ATé OS MAGOS DO PALáCIO REAL! NUNCA VI TANTA MANA NA MINHA VIDA!
Depois desse choque de realidade, foi a vez de Joshua Lionheart.
Ele n?o impressionou com magias espalhafatosas. O grandalh?o simplesmente correu em dire??o a três bonecos de metal maci?o e desferiu uma sequência de golpes usando puramente a for?a base e o peso de uma espada larga. Ele fatiou os bonecos de a?o antes mesmo do contador de exibi??o chegar a um segundo. Foi letal, assustador e prático.
— é, GALERA! Parece que este ano o nível da Academia está nas nuvens! — o Locutor falou, tentando recuperar o f?lego. — Com isso, a Classificatória está encerrada. Vamos fazer uma pausa de uma hora para o café e para os juízes filtrarem as pontua??es. Na volta, anunciaremos quem vai para as Batalhas Oficiais!
Na sala de espera, eu balancei a cabe?a e ri sozinho. A Saphira era absurda. Onde ela arranjava tanta mana para sustentar magia de Luz daquele jeito?! E o Joshua... ele tinha se tornado um trator. Eu me sentia orgulhoso da nossa equipe, mas, como guerreiro, eu estava fervendo de vontade de lutar.
(Uma hora depois)
A arena havia sido limpa e marcada com linhas mágicas.
— E ESTAMOS DE VOLTA! — a voz do Locutor trouxe a multid?o ao delírio. — Apenas os monstros sobreviveram ao corte! Vamos direto para as Quartas de Final! E para come?ar, temos ele: o ex-gordinho, o tanque obstinado... GORGIUS CORGINO! E do outro lado: O Estrategista Absoluto, IGRIS WOLFORD HEISENBERG!
Caminhei até a arena sob gritos. Gorgius estava do outro lado, suando frio, mas com um olhar focado e raivoso. Ele estava pronto.
— Dois tit?s prontos para o duelo! — explicou o Locutor. — Mas antes, as regras de ferro da Academia Próxia:
1. Para evitar baixas fatais, só é permitido o uso de armas de madeira. Sem encantamentos nas laminas! (Nossas armas já haviam sido revisadas).
2. Condi??es de derrota: Se você for tocado com clareza nas COSTAS, ou se qualquer parte do seu corpo além das solas dos pés tocar o ch?o, você perde. Golpes diretos no rosto s?o estritamente proibidos!
3. Regras Mágicas: é proibido o uso de magias de nível avan?ado/destrui??o em massa. Temos magos canceladores ao redor da arena; quem usar poder excessivo ou magia de voo será desclassificado na hora. Contudo, magia de Aprimoramento Físico está liberada para os guerreiros!
O juiz abaixou a m?o.
— Participantes! Postura! Come?a essa baga?a!
A batalha come?ou.
Com as limita??es de "toque no ch?o" e "magias médias", se eu dependesse apenas de rajadas elementais brutas, eu seria desclassificado. Mas magia destrutiva n?o era a minha for?a principal.
A minha for?a era a Tática.
Gorgius ativou a aura de endurecimento terrestre, deu um berro de guerra e saltou em minha dire??o com um corte descendente pesadíssimo. Ele queria resolver aquilo em um golpe só.
Foi o erro dele. Num duelo com regra de toque nas costas, quem salta perde o domínio do próprio peso.
Ele n?o ia me acertar.
Sistema: Habilidade Ativada.
Aproveitando o meu Nível de Maestria subindo e a fluidez da minha verdadeira afinidade, n?o precisei de Fogo. Canalizei a magia de água para condensar a umidade do ar ao meu redor em uma fra??o de segundo.
Usei o meu famoso 2o Passo. Falso Paraíso!
Dei um passo milimétrico para a lateral. A água condensada deixou um reflexo especular idêntico ao meu corpo na trajetória do golpe de Gorgius. Ele cravou a espada na minha ilus?o de água.
Antes que os pés dele tocassem o ch?o de volta, eu já havia deslizado como uma correnteza por debaixo do bra?o dele.
Girei o corpo calmamente atrás dele e, com a ponta da minha pesada espada de Carvalho Negro, dei um toque seco e audível bem no meio das costas de Gorgius.
TOC.
Gorgius congelou no mesmo instante, a espada dele estendida no vazio.
A batalha havia durado exatos dois segundos e meio. Eu nem cheguei a suar.
— ACABOOOOOOU! — o Locutor quase arrancou os próprios cabelos. — é SURREAL! IGRIS WOLFORD N?O USA FOR?A BRUTA, ELE USA HUMILHA??O TáTICA! A VITóRIA é DE IGRIS!
O estádio foi à loucura com a velocidade e o raciocínio clínico da vitória. Eu embainhei minha espada no Inventário de forma estilosa, bati continência para Gorgius (que caiu de joelhos resmungando palavr?es de frustra??o) e voltei para as sombras do túnel.
Enquanto os avaliadores curavam os competidores das lutas seguintes, eu acompanhei o placar brilhante projetado no céu.
— ATEN??O, ACADEMIA! OS CONFRONTOS DAS SEMIFINAIS EST?O DEFINIDOS! — berrou o Locutor, e as bandeiras se ergueram de entusiasmo. — Na primeira rodada, o duelo que vai tremer os céus: SAPHIRA SILFORD vs. JOSHUA LIONHEART! — E na segunda chave, um combate de legado e for?a: FLORA RODAN vs. IGRIS WOLFORD! As Semifinais come?am agora!
Eu apertei os punhos no escuro do túnel. O cora??o batia rápido.
A brincadeira tinha acabado. Enfrentar uma admiradora direta do legado da minha m?e n?o seria uma simples luta de espadas. Seria um duelo de ideologias. E lá no fundo, eu sabia... se eu vencesse a Flora, o meu destino inevitável seria lutar contra o maior amor (e monstro)
da minha vida: Saphira.
O verdadeiro Torneio estava apenas come?ando.
[FIM DO CAPíTULO 15]

