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Capítulo 10 — A Entrada na Academia!

  A carruagem refor?ada com o bras?o da estrela cadente de Sentostela avan?ava pelas estradas perfeitamente pavimentadas em dire??o à Capital de Eldória. O silêncio dentro da cabine luxuosa era quebrado apenas pelo som ritmado das rodas e pela respira??o calculada minha e de Saphira, enquanto revisávamos mentalmente as nossas táticas de infiltra??o na Academia.

  De repente, o meu peito deu um solavanco violento.

  Senti uma ardência esquisita e lancinante, como se uma agulha de a?o em brasa tivesse sido cravada direto no ventrículo do meu cora??o. Levei a m?o ao peito, dobrando o corpo para a frente, ofegante.

  Saphira me olhou, os olhos púrpuras arregalados de preocupa??o, e antes que ela pudesse ativar o Olho Avaliador dela para checar os meus status, a tela azul do Sistema piscou violentamente na minha frente.

  Mas n?o era a luz amigável de sempre. A interface inteira tingiu-se de um Roxo escuro, caótico e pulsante.

  [ALERTA DE SISTEMA: OVERRIDE BIOLóGICO!]

  [Atualiza??o Iniciada: Transi??o de Fase dos Circuitos Mágicos]

  Os Circuitos Mágicos Verdes do Jogador atingiram o limite de reten??o. Iniciando o estágio de purifica??o térmica e estrutural (Transmuta??o para Circuitos Roxos - O Caos Evolutivo) para alcan?ar uma categoria de poder inestimável.

  Aten??o Crítica: Este processo biológico levará um tempo indeterminado para ser concluído e cicatrizado. Até lá, a sua estabilidade de mana central e as suas habilidades de conjura??o mágica estar?o severamente limitadas ou completamente bloqueadas.

  A ardência infernal passou rápido, substituída pelo aviso da minha Super Recupera??o passiva lutando para aliviar a dor, deixando apenas um formigamento elétrico residual nas minhas veias.

  Mas o aviso na tela flutuante me deixou com um suor frio escorrendo pela nuca.

  Sem magia? Severamente bloqueada? Hoje? Bem no maldito dia do exame prático de admiss?o da Academia?!

  Respirei fundo, limpando a tela com um pensamento. Lembrei das noites em claro lendo os velhos grimórios de alquimia do meu pai. A anomalia dos Circuitos Roxos n?o era uma doen?a terminal; era a ponte de fogo para a evolu??o perfeita. Eu n?o seria o "lixo de Circuitos Verdes" para sempre. A minha magia ia afundar no po?o agora, apenas para retornar como uma for?a destrutiva absoluta no futuro. Eu só precisaria sobreviver a esse nerf (enfraquecimento) temporário do Sistema sem ser morto ou desclassificado.

  Saphira percebeu a minha careta.

  — Más notícias? — ela perguntou, cruzando os bra?os.

  — O Sistema acabou de desligar o meu Wi-Fi mágico — resmunguei, encostando a cabe?a no banco. — Vou ter que passar na base da porrada pura.

  Após mais algumas horas de viagem, a carruagem diminuiu a velocidade.

  Quando o cocheiro abriu a porta e eu desci, pisando nas pedras da rua, o ar nostálgico, engessado e puramente burocrático de Eldória bateu no meu rosto como um tapa invisível.

  Os enormes port?es de ferro forjado da Real Academia Próxia estavam escancarados. O lugar estava absurdamente lotado. Centenas de adolescentes prodígios de todas as partes do continente, acompanhados por nobres engravatados, guardas reais e pais orgulhosos, congestionavam a pra?a de entrada.

  Ao atravessar os muros maci?os, a estrutura se revelou: três prédios gigantescos e majestosos de pedra branca e telhados azuis, interligados por pontes suspensas de vidro refor?ado. O campus era cercado por dezenas de arenas de treinamento de ponta, forjas e bibliotecas. Fazia sentido. A Academia de Eldória n?o sobrevivia de dinheiro; ela operava por pura e estrita meritocracia, ent?o a estrutura precisava ser digna de abrigar e moer os melhores talentos de Leunders.

  Quando o sino da torre central tocou anunciando o meio-dia, o burburinho ensurdecedor cessou.

  Uma proje??o mágica colossal, nítida como cristal, se formou no céu claro acima do pátio principal. Era a imagem do Diretor da Academia, um arquimago idoso, de barba comprida e postura imponente chamado Lucius. A voz dele ecoou por todo o complexo, amplificada por runas de vento:

  — Caros candidatos, sejam bem-vindos à Real Academia Próxia! Uma institui??o forjada no sangue dos fortes e que aceita em seus sal?es somente aqueles movidos por esfor?o e dedica??o inabaláveis. Aqui dentro, os bras?es das vossas famílias n?o valem o peso da prata. Aqui, nós n?o vemos títulos de nobreza e n?o toleramos a arrogancia dos pregui?osos. Nesta Academia, vocês n?o devem falar; vocês devem AGIR!

  O diretor ergueu o cajado ilusório no ar.

  — Sendo assim, sob os olhos dos deuses e dos vossos próprios méritos... eu declaro que as Provas de Admiss?o Práticas da Academia... Come?am AGORA!

  Um "Uhuuuuu!" estrondoso, um urro animalesco que misturava nervosismo e euforia, irrompeu da multid?o de adolescentes. A determina??o estava no pico.

  Saphira parou ao meu lado, ajeitando a gola alta do uniforme tático de couro e tecido escuro de Sentostela que usávamos para n?o chamar muita aten??o.

  — Igris! — ela sorriu, o olhar púrpura faiscando de competitividade. — Vamos humilhar esses nobres de nariz empinado. Afinal, nós sangramos bastante na areia e no mato pra chegar aqui, n?o é?

  — Com certeza. Vamos mostrar o peso da Artilharia de Sentostela — concordei, um sorriso frio cortando o meu rosto.

  Fomos guiados por monitores veteranos até a vasta área de Avalia??o a céu aberto. Um instrutor careca, vestindo uma armadura pesada com o bras?o da Academia, subiu em um palanque de pedra para explicar as regras.

  Enquanto ele falava, o meu Sistema ativou a aba passiva de registro, traduzindo as informa??es em pequenas janelas visuais limpas no canto do meu olho.

  [DIRETRIZES DA ACADEMIA PRóXIA]

  Prova 1: Teste de Controle Mágico e Precis?o em Alvos Móveis.

  Prova 2: Duelo Físico em Arena. (Restri??o de Magia Ofensiva).

  Prova 3: Teste Escrito de Táticas de Guerra e Resolu??o Histórica.

  O instrutor pigarreou, silenciando os sussurros impacientes.

  — Agora, antes de come?arem a suar, uma palavra de incentivo do nosso avaliador convidado deste ano. O Comandante mais letal do Reino de Camelot: Cain Vasconcelos!

  Um homem robusto, moreno, com os bra?os completamente cobertos de cicatrizes de lamina, tomou a frente do palanque. A aura militar dele era intimidadora, quase asfixiante.

  — Futuros cadetes! — A voz de Cain era áspera como lixa. — Vejo aqui no pátio garotos que se acham guerreiros, meninas que se dizem magas e moleques que se dizem estrategistas. Mas isso é apenas a casca do que vocês s?o hoje. Ao pisarem nas arenas desta Academia, vocês decidem n?o se limitar ao óbvio. Vocês devem buscar o caminho do sofrimento. No final dos vossos anos aqui, vocês n?o ser?o apenas guerreiros ou magos; ser?o máquinas de sobrevivência universais, capazes de vencer as próprias fraquezas! Quebrem os próprios limites hoje, e comecem a forjar um caminho glorioso!

  Os alunos gritaram em uníssono, as espadas de treino e os cajados de madeira erguidos para o sol. A adrenalina no pátio era palpável.

  [1a Prova: Controle Mágico]

  Fomos enfileirados na Zona de Tiro. A prova exigia poder bruto e controle milimétrico para atingir dezenas de discos de argila que voavam erraticamente pelo ar. Vários alunos foram antes de mim; alguns de famílias ricas destruindo os bonecos com feiti?os medianos, outros de origem plebeia errando feio por nervosismo.

  Quando o instrutor gritou "Igris Wolford Heisenberg", eu senti o peso de dezenas de olhares desdenhosos dos jovens nobres de Eldória. O apelido "Lixo dos Circuitos Verdes" ainda sussurrava pelas costas deles.

  Caminhei até a linha de marca??o. Respirei fundo, estendi a m?o direita na dire??o do céu e tentei puxar a mana purificada do meu núcleo.

  A dor da agulha no meu cora??o voltou, aguda e paralisante. A faísca verde, que antes seria uma labareda controlada, engasgou na palma da minha m?o, tremulou como uma vela ao vento e se desfez em fuma?a estática e cinzenta.

  [Aviso do Sistema!]

  Interven??o: O Jogador n?o pode extrair mana externa! Evolu??o Caótica dos Circuitos em andamento. Saída de energia selada temporariamente.

  Trinquei os dentes, engolindo a frustra??o e a dor. Fiquei ali parado, de bra?o estendido e m?os vazias, encarando os discos no céu, enquanto a ampulheta do meu tempo de teste se esgotava gr?o por gr?o.

  O instrutor franziu a testa e anotou um zero redondo e humilhante na minha ficha prática de magia.

  Alguns nobres riram de forma audível na fila atrás de mim. "O inútil fugiu e continua inútil", ouvi um garoto loiro sussurrar para o amigo.

  Eu ignorei, o rosto impassível como pedra. A minha hora chegaria.

  Logo depois de mim, foi a vez dela.

  A Princesa de Sentostela caminhou até a linha de marca??o com a postura de quem era a dona do terreno. Saphira n?o sacou um cajado. Ela sequer assumiu uma base de conjura??o padr?o.

  Ela simplesmente levantou as duas m?os na dire??o dos alvos e... humilhou a escola inteira em um nível catastrófico.

  Saphira n?o conjurou três magias. Ela conjurou cinco magias elementais distintas de forma perfeitamente simultanea. Lan?as de gelo perfurantes, redemoinhos de vento cortante e esferas de chamas azuis dispararam das m?os dela como artilharia de guerra, ca?ando e aniquilando todos os cem alvos aéreos da arena em menos de oito segundos de destrui??o controlada.

  O silêncio engoliu a zona de tiro. O controle dela era t?o absurdamente perfeito que até os velhos Magos da Corte que supervisionavam o teste nas tendas deixaram as pranchetas caírem no ch?o de grama.

  Na minha vis?o de Nível 12, ativando o meu Olho Avaliador, eu percebi a verdade sombria: as janelas de conjura??o de Saphira já estavam encostando no mesmo patamar insano do sadismo mágico de Zack Wolford. Ela era um monstro lapidado.

  [2a Prova: Combate Físico em Arena]

  Com o meu zero humilhante e a vitória esmagadora e intimidadora de Saphira registrados, os alunos foram guiados para as dezenas de ringues de terra batida para a Prova de Combate.

  As lutas preliminares come?aram. Usando a minha Percep??o 80, vi vários alunos fisicamente fortes, mas, com os meus status baseados nas muta??es da classe Grande Herói, a velocidade deles de soco e esquiva parecia uma briga de bêbados em camera lenta. Nada muito gritante. Eu estava entediado.

  Até que o auto-falante mágico chamou o meu nome para o centro. A Arena Principal.

  Caminhei até o palco circular de terra batida, esperando encontrar o instrutor de armadura pesada padr?o para o meu duelo de avalia??o. Mas n?o foi um instrutor genérico que subiu as escadas de madeira do lado oposto do ringue.

  A banca avaliadora havia sido trocada por ordem superior.

  O Rei Aldric observava o ringue diretamente da varanda real, a express?o grave. E quem caminhava em minha dire??o, pisando pesado na areia, vestindo a armadura prateada impecável de Comandante da Cavalaria de Eldória, era ele.

  Zigles Heisenberg. O meu amado tio covarde.

  O estádio inteiro ficou em silêncio absoluto. O vento parecia ter parado. Um Comandante-Geral do Exército avaliando fisicamente um garoto plebeu de 12 anos em um exame de admiss?o de calouros? Era um evento inédito e cheirava a persegui??o pessoal.

  Eu n?o sorri. N?o fiquei nervoso ou com medo. Mas uma raiva vulcanica, fria e letal, que havia sido trancada a sete chaves por sete anos de luto e ossos quebrados na floresta, subiu queimando pela minha garganta.

  Ele queria ver o que eu tinha me tornado nas terras de Sentostela. Queria ver, na frente do Rei, se a minha escolha de cuspir na cara da justi?a lerda de Eldória e fugir havia sido um erro. Eu n?o tinha escolha: ou eu lutava a sério, ou eu n?o passava da porta da Academia.

  Assumimos nossas posturas no centro da arena. O juiz nos entregou as espadas de madeira de lei.

  Respirei profundamente, acalmando o Caos Evolutivo que formigava nos meus circuitos inúteis, e transferi absolutamente todo o meu foco de energia vital para os atributos de For?a, Agilidade e Percep??o.

  Clang! O sino de bronze tocou. O duelo oficial come?ou!

  Zigles n?o pegou leve. Ele foi com inten??o de humilhar. Ele detonou a bota na terra numa explos?o de velocidade absurda, muito superior a qualquer professor dali. A inten??o militar dele era clara: me desarmar e me derrubar no primeiro segundo de luta para provar a superioridade do treinamento de Eldória.

  Ele mirou o meu lado cego, a têmpora esquerda, com um corte descendente oblíquo que faria o vento rasgar e a minha clavícula quebrar.

  [Ativa??o de Risco: Instinto Superior]

  Minha barra de mana (mesmo bloqueada para magias externas) foi sugada rapidamente para abastecer o meu cérebro. O mundo ao redor perdeu as cores vibrantes e mergulhou em um hiper-foco em camera lenta.

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  Eu tenho que admitir: aquele ataque de Zigles foi incrivelmente rápido e tecnicamente limpo, difícil de esquivar de forma perfeita até para os meus atributos maximizados.

  Mas eu havia sido forjado na fornalha do Topázio, a Espada do Rei de Sentostela. Eu havia sido espancado até sangrar e depois o superado em sua própria arena. Eu n?o ia cair para a cavalaria burocrática e lenta do meu tio.

  No milissegundo final da lentid?o, n?o tentei bloquear. Eu apenas torci o pesco?o milímetros para a direita. Deixei o golpe brutal de Zigles passar varrendo a um único centímetro do meu nariz, o ar cortando a minha bochecha.

  Desativei o Instinto. O tempo voltou ao normal de soco.

  A surpresa patética que se formou no rosto de Zigles ao ver que a espada de madeira dele acertou apenas o ar foi impagável e selou o destino dele.

  Aproveitando o choque mental que travou os bra?os do Comandante, eu desci o meu centro de gravidade até o joelho quase raspar no ch?o e apliquei uma rasteira circular, limpa, carregada de pura energia cinética e devastadora no tornozelo dele.

  CRACK!

  O som da madeira batendo no metal da greva de Zigles ecoou. As pernas do Comandante de Eldória saíram do ch?o como se ele tivesse sido atropelado por uma carruagem. Ele caiu de costas com um estrondo violento que levantou uma nuvem de poeira pela arena inteira.

  A multid?o ofegou num arquejo coletivo. O pirralho de "circuitos lixo" que havia tirado zero em magia há dez minutos acabara de varrer o ch?o com o General do Reino.

  Mas a minha raiva acumulada n?o havia acabado. Eu n?o ia dar espa?o para o ego dele.

  Zigles, num reflexo puramente militar e desesperado, tentou apoiar as m?os na terra para se levantar rapidamente com a guarda aberta. Era o fim da linha.

  Antes que o joelho dele saísse do ch?o, eu avancei impulsionado pelas panturrilhas como um míssil teleguiado. Fechei o punho e desferi um soco limpo, direto, carregado com toda a monstruosidade biológica da minha For?a base 80, mirando a exata jun??o das placas peitorais, direto na boca do est?mago dele.

  BAM!

  O som do impacto foi abafado e oco, semelhante ao som de um grande tambor de couro estourando de dentro para fora.

  A press?o do soco empurrou a armadura contra as costelas dele. Zigles arregalou os olhos, cuspiu uma nuvem de saliva, as pupilas reviraram para o branco e o disjuntor do cérebro dele apagou completamente. Ele despencou de bru?os, o rosto afundando na terra batida da arena.

  Inconsciente.

  Fiquei de pé sobre o corpo desmaiado do cavaleiro mais temido do Reino de Eldória. O silêncio no estádio era t?o absoluto que eu podia ouvir a respira??o trêmula do juiz ao meu lado. Olhei lentamente para a varanda adornada onde o Rei Aldric estava branco e suando como um fantasma que viu a morte.

  A minha voz ecoou fria, baixa e cirúrgica, amplificada pela acústica da arena silenciosa:

  — Que a humilha??o sirva de li??o. Da próxima vez que tentar me testar... treine mais, Tio Zigles.

  O estádio inteiro explodiu em um frenesi ensurdecedor de choque, gritos de descren?a e panico. Eu n?o apenas passei na prova; eu acabei de chutar o pau da barraca geopolítica. Ao obliterar o pilar militar de Eldória em dois movimentos infantis, eu deixei claro para toda a nobreza que o balan?o de poder entre os reinos agora estava quebrado. O garoto exilado havia voltado, e ele n?o era um estudante. Ele era uma calamidade física.

  [3a Prova: Escrita Teórica e Estratégia]

  Depois do caos político absurdo que causei na arena, a última prova pareceu uma sess?o de relaxamento e massagem no cérebro. Fomos levados e confinados nas enormes salas de aula de mogno escuro da Academia.

  Os professores, me olhando com pavor disfar?ado, entregaram pergaminhos com dezenas de perguntas altamente complexas sobre cálculo de cerco, táticas de guerra de trincheiras, forma??es de falange elementar, história detalhada da magia e uma reda??o política.

  A minha Inteligência absurda, moldada por anos devorando os grimórios de Shin Wolford e upada pelo Sistema, decifrou e resolveu tudo em exatos trinta minutos. Foi tediosamente tranquilo.

  Algumas horas depois, quando o fim da tarde manchou o céu de laranja escuro, todos os centenas de alunos sobreviventes foram reunidos no grande pátio de pedra, em frente ao gigantesco Mural Mágico de Cristal.

  As notas gerais saíram com uma rapidez impressionante, gravadas em ouro pelo sistema avaliador da escola. A lista do Top 4 brilhou no muro, visível para todos os plebeus e nobres ansiosos:

  [RANKING DE ADMISS?O - REAL ACADEMIA PRóXIA]

  1o Lugar Geral: Saphira Silford (Sentostela).

  2o Lugar Geral: Igris Wolford Heisenberg (Independente).

  3o Lugar Geral: Gorgius Corgino (Eldória).

  4o Lugar Geral: Joshua Lionheart (Plebeu).

  Eu abri um sorriso genuíno e satisfeito! Mesmo sofrendo a humilha??o do zero absoluto na prova prática de magia na frente de todo mundo, a minha pontua??o máxima, perfeita e sem erros na prova escrita, somada à performance monstruosa e viral no combate físico (derrubar o próprio avaliador general na areia), garantiu o meu cobi?ado segundo lugar geral.

  Saphira me cutucou com o ombro e nós comemoramos batendo os punhos de forma discreta, rindo da cara de frustra??o dos nobres ao redor.

  Mas, enquanto eu lia o resto da lista de classifica??o, a minha mente hiperativa vagou para o futuro próximo. Eu precisava estabilizar o meu poder urgente.

  A minha principal carta na manga assassina agora era a minha recém-criada, porém inacabada, "Teoria dos 13 Passos". Eu vinha desenvolvendo essa anomalia marcial nas florestas de Sentostela: um ataque furtivo e fulminante que combinava treze movimentos de corte e perfura??o simultaneos. Mas o defeito dela era crítico. Sendo totalmente dependente do meu Título físico, despejar tantos movimentos pesados em sequência carregados de for?a bruta sugava o meu vigor aeróbico inteiro. A técnica drenava a minha estamina e me deixava exausto, ofegante e vulnerável quase na mesma hora.

  Talvez agora, com os recursos teóricos e a biblioteca infinita dessa Academia de almofadinhas, eu encontrasse uma fórmula alquímica ou marcial para estabilizar esse gasto suicida de energia.

  [Dormitório Masculino - Bloco Leste]

  Depois do longo e ma?ante discurso do Diretor na cerim?nia de encerramento, fomos dispersados e divididos em nossas Alas de vivência. O sol já havia se posto, e as tochas mágicas iluminavam os corredores de pedra e tapetes felpudos do alojamento.

  — Ahh! Finalmente achei o meu! — suspirei aliviado, parando no terceiro andar, em frente à pesada porta de madeira marcada com os números de lat?o 402. — Bom... vamos descobrir quem será o meu ilustre e azarado colega de quarto este ano.

  Eu girei a ma?aneta circular, empurrei a porta... e parei estático no batente.

  Havia um garoto da minha idade exata (12 anos) no meio do quarto luxuoso. Mas ele n?o estava arrumando as malas. Ele estava sem camisa, suando em bicas, treinando flex?es de ponta-cabe?a, encostado na parede de forma frenética e absurdamente rápida.

  O corpo do moleque, desprovido da gordura da nobreza, parecia esculpido violentamente em granito escuro. Os bra?os e as costas largas dele desenhavam músculos que n?o deveriam existir na nossa faixa etária.

  Quando o som da porta abriu e ele me viu pelo canto do olho, ele parou o movimento, deu impulso com os bra?os, desceu com uma cambalhota acrobática e perfeitamente estabilizada, e ficou de pé, me encarando.

  Nossos olhares se cruzaram no silêncio do quarto.

  Eu afiei a minha vis?o e ativei o Olho Avaliador. O sistema piscou rápido, retornando apenas: "Joshua Lionheart. Estado: Físico Anormal". A minha Percep??o apitou um bipe fino no meu cérebro: aquele garoto plebeu na minha frente n?o era de forma alguma uma crian?a normal. A aura pesada dele dizia que ele cresceu carregando pedras ou quebrando árvores na m?o.

  De repente, a tens?o desapareceu. O rosto sério dele se quebrou. Ele abriu um sorriso gigantesco, amigável e expansivo, caminhou a passos largos na minha dire??o e estendeu a m?o enorme.

  Eu apertei.

  CRACK. Os nós dos meus dedos estalaram. O aperto de m?o do maldito garoto fechou como um torno de ferreiro e quase esmagou os ossos da minha m?o direita. Caramba, esse cara é estúpido de forte pra um moleque!

  — Eu... EU SABIA! — ele gritou, a voz estrondosa e animada assustando até as corujas lá fora. — Você é um monstro absoluto, cara! Assim que eu te vi na areia daquela arena hoje à tarde, eu sabia que tu era anormal! Caramba, bicho, você afundou o est?mago do Comandante-Geral do Reino com um único soco e ainda mandou ele treinar mais! Foi a coisa mais insana que eu já vi na minha vida!

  — é o quê?! Dá pra soltar a minha m?o?! — resmunguei, puxando os dedos e tentando recuperar a circula??o sanguínea.

  — Ah, foi mal, mano! Foi mal! Exagerei na for?a! — Ele riu, co?ando a nuca, as bochechas coradas de constrangimento. — Relaxa o cora??o! Meu nome é Joshua! Joshua Lionheart. Sou um plebeu do sul, e o número Quatro da lista. E tu, o terror dos generais, é o...?

  — Ah, oi. Meu nome é Igris! Igris Wolford Heisenberg, mas pelo amor dos deuses, pode me chamar só de Igris.

  Joshua soltou uma risada grave e me deu um tapa no ombro que teria, sem exagero, rachado a clavícula de um aluno burguês comum (sorte da minha Super Recupera??o absorvendo o impacto da pata de urso dele).

  — N?o precisa de nenhuma formalidade aristocrática chata comigo n?o, Igris! Muito prazer! E aí, mano... bora descer e treinar?

  Eu pisquei, apontando para a minha pesada mochila de couro ainda no ombro.

  — Mas já?! Eu acabei de colocar as malas no ch?o do quarto! Eu t? fedendo a poeira de carruagem!

  — Relaxa com isso, a noite é uma crian?a e a Academia tá fervendo lá fora! O esfor?o físico aqui dentro vale muito mais do que aquelas notas teóricas no papel. Bora pra Arena Interna dos Dormitórios. O ch?o é especial! Deve tá rolando vários duelos clandestinos irados de primeiro dia!

  Olhei para a cara de louco animado do Joshua. Eu imediatamente gostei da energia caótica daquele cara. Ele n?o era um puxa-saco político; era um viciado em combate puro e simples. Era exatamente o meu tipo de amizade doente.

  Animado com a ideia e secretamente louco para testar os limites físicos daquele aperto de m?o absurdo dele, concordei com um sorriso de canto. Jogamos as malas nos cantos da cama e saímos.

  Fomos guiados pelo barulho de a?o batendo até a Arena de Treinamento Noturna da Academia, no pátio dos fundos. Joshua tinha raz?o: o local, iluminado por archotes, estava lotado de dezenas de alunos de várias alas querendo se exibir e mostrar servi?o físico no primeiro dia de aulas.

  Fomos até a parede de armaria para equipar a prote??o. Pegamos luvas, e enquanto o Joshua pegou uma espada longa e grossa de madeira da academia, eu sequer olhei para o suporte de parede. Tirei das costas da minha própria mochila a minha pesada, escura e surrada Espada de Carvalho Negro forjada em Sentostela.

  Alguns alunos mais velhos que treinavam ao nosso redor pararam os golpes e nos observaram, impressionados e curiosos com a densidade colossal daquela tora de madeira negra que eu girava no ar com apenas uma m?o enluvada.

  Caminhamos e subimos os dois degraus para a plataforma de duelo central.

  Ativei o meu Sistema de Percep??o e analisei o ambiente instantaneamente. A superfície do ringue n?o era feita de areia ou grama tracionada. Era perfeitamente plana, feita de um enorme e belíssimo bloco de mármore branco polido e encantado magicamente para ser propositalmente e perigosamente escorregadio, como uma pista de patina??o. Quem quer que tivesse projetado aquela arena noturna queria punir e testar o equilíbrio e o controle muscular fino dos cavaleiros em situa??es adversas.

  — Pode vir, Igris! Mostra por que tu foi o top dois! — Joshua gritou, abrindo os bra?os e me provocando com um sorriso desafiador, assumindo uma base pesada de pernas abertas.

  Dei um sorriso de canto, empurrei a bota contra a borda do mármore e dei um salto frontal explosivo em dire??o ao pesco?o dele.

  Joshua n?o arregalou os olhos. Ele n?o apenas desviou, como recolheu a postura, levantou a lamina grossa e defendeu o meu golpe descendente reverso com uma for?a cinética monumental, completamente absurda para um garoto de doze anos. O maluco absorveu a porrada da For?a 80 da classe Grande Herói!

  BAM! O estalo da madeira ecoou no pátio.

  O choque de impacto nos empurrou mutuamente para trás. Ao cravar a bota no ch?o para tentar estabilizar a minha coluna do recuo, a sola de couro escorregou brutalmente no mármore encantado, levando as minhas pernas para o ar.

  Se eu fosse lento, teria batido a nuca com for?a letal no ch?o de pedra. Mas, gra?as aos meus status maximizados de Agilidade e Reflexo, contorci o meu abd?men no meio da queda e joguei a m?o livre para baixo, quase raspando as costas na pedra, impulsionando o meu corpo de volta para a posi??o de pé no último milissegundo de estabilidade.

  Nesse momento de exibi??o pura de agilidade insana, dezenas de alunos ao redor pararam todos os outros duelos secundários e correram para formar uma roda barulhenta ao redor do nosso ringue de mármore para assistir.

  Do outro lado da plataforma escorregadia, o estilo do Joshua era outro.

  Ele n?o usava equilíbrio dinamico e gracioso como eu; ele usava a física de ancoras. Ele n?o temia o escorreg?o. Em vez disso, ele deu um pequeno salto vertical curto e desceu concentrando tanto peso biológico concentrado nas coxas que as botas grossas dele rasparam ruidosamente e cravaram fundo na superfície da arena polida, arranhando o encantamento, estabilizando sua postura na base da ignorancia e da brutalidade muscular.

  Usando apenas passos curtos, calculados e pesados para garantir o atrito, ele engatou a primeira marcha e avan?ou contra mim com uma fúria marcial de tanque de guerra, girando a espada longa numa velocidade invejável e sufocante.

  Ele vinha como um rolo compressor. Mas a minha Inteligência de combate adaptou a equa??o.

  Se eu n?o consigo empurrar a ancora... eu vou ser a onda.

  Em vez de lutar furiosamente contra a falta de atrito do ch?o de pedra e tentar travar as botas, eu me rendi e adotei a física do escorreg?o.

  Mergulhei os dois joelhos, afundei o meu centro de gravidade quase encostando na superfície fria e usei o atrito quase zero da arena mágica para deslizar velozmente pelo ch?o feito uma pedra no gelo, dobrando a minha velocidade angular, esquivando da pesada estocada dele e desferindo um furac?o de golpes diagonais rápidos de baixo para cima, de forma totalmente rasteira e imprevisível.

  Clack! Clack! Clack!

  A espada negra e a espada clara batiam freneticamente. Fagulhas de madeira seca saltavam no ar. Joshua recuava e defendia o furac?o com a lamina grossa dele perfeitamente alinhada, o suor pingando da testa, os dentes trincados numa careta de esfor?o heroico. Mas ele era absurdamente resistente. A guarda do garoto parecia feita de titanio.

  Vendo que a luta no mármore ia se prolongar estupidamente, me arrastar pelo gelo e drenar totalmente o meu vigor antes da exaust?o dele, decidi terminar a festa e ser cirúrgico.

  [Ativa??o Controlada: Instinto Superior]

  Em um piscar de olhos, as cores do pátio noturno sumiram e o mundo frenético travou. Acelerei o meu deslize pelo mármore frio a uma velocidade cegante, deslizei por entre as pernas grossas do Joshua, que ainda processava o espa?o vazio onde eu estava, cravando as unhas no ch?o. Girei sobre os meus calcanhares assim que surgi nas costas completamente expostas dele, e coloquei a lamina pesada de Carvalho Negro subindo até o pesco?o e a deixei encostada de forma letal, mas extremamente suave, na jugular direita dele, muito antes que o cérebro dele pudesse terminar de girar o pesco?o musculoso para me procurar.

  Desativei a habilidade na hora, sem sangrar a mana bloqueada. Fim de combate.

  A adrenalina vazou no ringue estático. Eu sorri.

  Os alunos novatos e os veteranos veteranos foram à loucura absoluta! Gritos, assobios de empolga??o esportiva estouraram na noite estrelada de Eldória. Os monitores veteranos, parados no canto mais escuro da arena, estavam boquiabertos e co?ando a cabe?a, atordoados ao testemunhar as minhas habilidades de movimenta??o angular, adapta??o de terreno e letalidade puramente corporais.

  Sentindo o peso rústico da madeira no gogó, Joshua levantou as duas m?os rendendo-se e abaixou a espada devagar. Ele olhou para trás, por cima do ombro, sorriu torto e come?ou a gargalhar, ofegante, limpando o suor dos olhos.

  — Caramba, rato! Tu é mais escorregadio que sab?o na chuva! Perdi. E perdi feio!

  Eu tirei a lamina do pesco?o dele e ri também, batendo a minha madeira negra na lamina grossa dele num toque de companheirismo militar. Aquela simples luta descontraída havia cimentado, na base de hematomas e suor frio, uma amizade que eu sabia que duraria até o túmulo.

  Enquanto a poeira e o frenesi da plateia abaixavam aos poucos, e nós descíamos os degraus de mármore enxugando o suor para ir jantar, uma voz arrogante, enojante e nostálgica, porém estranhamente mais profunda e encorpada do que eu me lembrava da minha infancia na capital, cortou o som eufórico da plateia, fazendo todo mundo parar e olhar.

  — Olha só a sujeira que eu piso. Se n?o é o covarde do Igris Wolford. O grande traidor de Eldória achou mesmo que ia voltar a brincar por aqui sem pagar pedágio?

  Parei no degrau. A minha paciência zerou. Virei o rosto devagar, a m?o já apertando novamente o cabo de carvalho negro com sede de bater em mais alguém.

  Eu honestamente esperava ver o mesmo rosto redondo, o narizinho empinado e esnobe, a barriga mole cheia de doces e a postura infantil e patética de Gorgius Corgino. O garotinho chor?o que eu havia rasteirado e humilhado há sete anos.

  Mas a figura que estava parada de bra?os cruzados na entrada da arena esfriou a minha vontade de rir.

  Ali estava um adolescente alto. Ele usava um luxuoso sobretudo de couro negro e forro carmesim, a marca da elite mais rica do reino. Os ombros dele eram incrivelmente largos e os músculos visíveis estavam bem definidos debaixo da roupa de combate ajustada. A espada larga e imponente que pendia na cintura dele n?o era de treino; era de a?o vivo. Uma aura de arrogancia absoluta, misturada a um peso físico real e respeito temível, exalava dele de forma opressora.

  Gorgius Corgino, o mimado ridículo, havia mudado de uma forma biológica absurdamente monstruosa naqueles sete anos de ausência. A humilha??o que eu causei nele havia forjado um guerreiro cego por vingan?a.

  Soltei um riso baixo, quase sussurrado e frio, desci o último degrau da arena de mármore e girei casualmente a espada de madeira pesada na m?o esquerda, encarando o peito do meu antigo "rival" de infancia, sem baixar os olhos.

  — Olha só. Se n?o é o menino do nariz empinado e da cara na terra. O que um filhinho de papai chor?o e burguês está fazendo perdendo o tempo precioso dele num lugar que cobra esfor?o real como a Academia? Tá perdido? A área do ber?ário fica pro lado de lá.

  A piada afiada rasgou o ego dele.

  A mandíbula quadrada de Gorgius travou de ódio. Ele cerrou o punho e apertou o cabo cravejado de joias da própria espada com tanta for?a que os nós dos dedos dele ficaram pálidos. Os olhos cinzentos dele faiscaram com o brilho assassino de uma confian?a doentia e inabalável que ele n?o possuía aos cinco anos.

  — Hump! Engra?adinho e suicida como sempre, n?o é, Igris? — a voz dele ressoou como um trov?o grave, cheia de veneno. — Que tal provar esse seu deboche escroto num duelo oficial de recep??o para matar as saudades? Se você n?o chorar e correr primeiro.

  A atmosfera do pátio noturno pesou uma tonelada. A divers?o esportiva morreu. Os alunos ao redor sentiram o cheiro de sangue no ar e recuaram rapidamente em instinto de autopreserva??o, formando, em silêncio sepulcral, um gigantesco círculo de tens?o sufocante ao nosso redor.

  Olhei para o sorriso de louco do Gorgius. Sem pestanejar, sem hesitar por meio segundo e sem tirar os olhos da garganta dele, eu afastei as pernas, flexionei os joelhos e assumi perfeitamente a minha postura agressiva de combate marcial de Sentostela. A coisa tinha escalado de um treino entre novatos para um acerto de contas colossal e inevitável de quase uma década de espera.

  O passado

  queria brincar.

  Vamos para a batalha.

  [FIM DO CAPíTULO 10]

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