O corpo estava ali, sendo arrastado pelo bosque, mas a mente parecia deslocada alguns metros acima da própria existência. Ele vibrava por dentro, n?o como energia elétrica comum, mas como algo que havia sido for?ado a se expandir além do limite e agora lutava para caber novamente em si mesmo.
Cristopher e Pedro o carregavam pelos bra?os, desviando de raízes expostas e galhos quebrados enquanto avan?avam entre a fuma?a ainda espalhada pelo bosque. O cheiro de madeira queimada misturava-se ao de oz?nio no ar, consequência direta da explos?o que ele mesmo provocara.
Os olhos de Evan estavam abertos, fixos no ch?o que passava sob ele, mas era como se n?o enxergasse nada. A realidade havia se afastado, como antes — só que agora n?o havia silêncio branco. Havia ruído.
Ruído demais.
Respostas demais.
Imagens desconexas surgiam na mente dele: o dourado no centro da cratera, as correntes vibrando, a voz interna ordenando que corresse, a explos?o roxa envolvendo Anne. Tudo se sobrepunha em fragmentos que n?o se encaixavam, mas insistiam em existir.
— Evan! — Grace gritava, a voz embargada pelo desespero. — Evan, olha pra mim!
Ela corria ao lado deles, tentando acompanhar o ritmo enquanto segurava o rosto dele sempre que conseguia aproximar-se o suficiente. — Você precisa voltar. Você tá ouvindo?
Pedro ajustou o peso do corpo do amigo nos ombros e murmurou, tentando manter o tom firme apesar do caos ao redor: — Ele tá ouvindo. Só n?o tá aqui.
Cristopher n?o respondeu. Concentrava-se em manter uma fina camada de umidade sob os pés para evitar que escorregassem na terra solta e nas folhas queimadas.
à frente, Ruth avan?ava com Luiz, analisando rapidamente o terreno. Ela observava a inclina??o do solo, o vento, a dire??o da fuma?a e o padr?o de avan?o dos soldados que vinham logo atrás.
— Se cortarmos pelo desnível à esquerda, ganhamos cobertura — disse ela, quase ofegante, mas ainda racional. — Eles v?o evitar área instável com visibilidade reduzida.
Luiz mal respondeu. O rosto dele ainda estava pálido demais. O olhar n?o se afastava completamente do ponto onde Anne desaparecera, mesmo enquanto corria. Algo em sua express?o parecia mais do que choque, havia tens?o ali, contida.
Beth e Maisa vinham logo atrás de Grace, mantendo a retaguarda protegida. Beth sustentava pequenos campos intermitentes sempre que ouvia disparos distantes ecoando entre as árvores, enquanto Maisa manipulava rajadas curtas de vento para empurrar a fuma?a para trás, dificultando a visibilidade de quem os seguisse.
Mas Evan n?o reagia.
Dentro dele, o calor havia se transformado em press?o.
Ele sentia algo tentando se organizar.
N?o era só raiva.
N?o era só dor.
Era compreens?o se formando à for?a.
A voz interna ainda estava lá, mas agora n?o falava. Apenas observava. Como se esperasse que ele chegasse sozinho à conclus?o que precisava.
Ele sentiu, pela primeira vez com clareza desconfortável, que o que havia feito no bosque n?o era defesa instintiva. Havia inten??o ali. Algo dentro dele sabia exatamente como moldar aquela energia.
E ent?o a voz voltou.
Diferente do sussurro áspero que vinha de fora. Diferente da press?o invasiva que os Sussurros exerciam sobre sua mente. Essa era suave. Estável. Masculina. N?o autoritária — confiante.
— Controle a energia, Evan. Ela é sua. N?o você dela.
— Seus amigos precisam de você agora.
As palavras n?o ecoaram. N?o vibraram. Apenas se acomodaram dentro dele, como uma verdade que sempre estivera ali, esperando ser lembrada.
Evan inspirou profundamente.
O caos interno n?o desapareceu, mas se organizou. A press?o no peito deixou de ser expans?o descontrolada e se transformou em fluxo direcionado. Ele ainda sentia a energia percorrendo cada fibra do corpo, mas agora conseguia distingui-la da própria consciência.
Era for?a.
N?o identidade.
Num movimento abrupto, seus músculos responderam.
Pedro quase perdeu o equilíbrio quando sentiu o peso mudar nos ombros.
— Ei! Ele tá...
Evan se soltou dos dois e caiu de joelhos no ch?o, respirando forte. A palma da m?o tocou a terra úmida, e um estalo elétrico intenso percorreu o solo, espalhando pequenas descargas azuladas que crepitaram entre folhas secas.
Cristopher recuou meio passo.
— Tá... isso foi novo.
Evan fechou os olhos por um segundo, concentrou-se e levou a própria m?o ao antebra?o. Pequenos arcos de eletricidade dan?avam entre seus dedos. Ele os conteve. Os estalos diminuíram até se tornarem apenas pulsos controlados.
Grace soltou um suspiro que parecia estar preso havia minutos.
— Você voltou.
Ele ergueu o olhar para ela.
Havia algo diferente ali.
A juventude despreocupada que ainda tentava equilibrar treinos, piadas e romance parecia ter ficado para trás no bosque em chamas. O que se levantava agora era alguém mais silencioso, mais centrado.
Mais decidido.
— Eu nunca fui embora — respondeu, mas a voz tinha peso diferente.
Pedro trocou um olhar rápido com Cristopher.
— Tá bom. Eu vou fingir que isso foi reconfortante.
Evan se levantou por completo, passando a m?o pelo rosto sujo de fuligem. O olhar se fixou à frente, n?o perdido, mas alinhado.
— Eles levaram minha irm? — disse, firme. — E eu vou trazer ela de volta.
Ruth se aproximou, observando-o com aten??o calculada.
— O nível de rastreio deles foi coordenado demais. Se atravessaram para cá, a estrutura de conten??o local n?o é suficiente. Telúria é grande, tem zonas industriais, áreas subterraneas, fluxo constante de energia. Podemos desaparecer lá enquanto pensamos num plano.
Evan assentiu sem hesitar.
— Ent?o vamos.
Sem mais discuss?o, seguiram pelo bosque ainda enevoado pela fuma?a. O cheiro de queimado persistia, misturado à umidade da noite que come?ava a cair. As sombras entre as árvores pareciam mais densas, mas agora Evan n?o sentia apenas amea?a ali.
Sentia dire??o.
Mais atrás, ainda dentro do bosque, Raul coordenava a retirada dos agentes feridos. Dois homens eram carregados em macas improvisadas. Outros tentavam conter focos de incêndio antes que o fogo se espalhasse para além do perímetro.
Gehard observava o ponto exato onde a explos?o roxa ocorrera.
— Eles vieram por ela — murmurou, mais para si do que para Raul.
Raul limpou o suor da testa com o antebra?o, irritado.
— Isso n?o faz sentido. Por que atravessar mundos para capturar uma garota?
— Porque ela n?o é só uma garota — respondeu Gehard, a mandíbula rígida.
Raul lan?ou-lhe um olhar rápido.
— Você sabe de algo que eu n?o sei?
Gehard demorou a responder.
— Sei que essas criaturas n?o s?o daqui. E n?o s?o simples invoca??es. A magia que senti... é de Azura. Mais intensa do que qualquer coisa que atravessou antes.
Um agente se aproximou, visivelmente abalado.
— Senhor, alguns homens relataram que o garoto... Evan... foi responsável pela explos?o que nos lan?ou para trás. Ele pode ser uma amea?a.
Raul virou-se bruscamente.
— Ele reagiu depois que vocês atiraram perto demais.
— Ele ergueu uma tempestade — insistiu o agente. — Isso n?o é rea??o comum.
Gehard interveio antes que Raul respondesse.
— é exatamente por isso que estávamos atrás deles. Para evitar que algo maior aconte?a. Se n?o aprendermos a controlar isso... alguém vai.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Ao longe, o bosque ainda fumegava.
— Agora temos dois problemas — Raul disse, por fim. — Criaturas sombrias atravessando e um garoto com poder suficiente para derrubar uma linha inteira de soldados.
Gehard manteve os olhos na escurid?o entre as árvores.
— N?o. Temos três.
Raul franziu o cenho.
— Qual é o terceiro?
Gehard respirou fundo.
— Eles n?o vieram atacar.
Vieram buscar.
E, se conseguiram levar o que queriam, isso significa que estamos atrasados.
A noite se adensava sobre o bosque, e algo muito maior do que uma persegui??o come?ava a se desenhar nas sombras.
Enquanto o bosque ainda fumegava ao longe, Aster vivia uma tens?o diferente.
A batalha no gramad?o havia sido vista por muitos. As rajadas de energia, as sombras correndo entre as árvores, o clar?o que iluminou o céu antes de a tempestade se formar sobre a cabe?a de Evan — tudo aquilo ficara gravado na memória coletiva da comunidade.
O que antes era um refúgio agora parecia vulnerável.
Grupos se reuniam nos pátios improvisados, falando alto demais, gesticulando, especulando. Alguns defendiam que a presen?a dos jovens atraíra o perigo. Outros afirmavam que, sem eles, o desastre teria sido pior.
Mas o medo estava ali.
E medo corrói confian?a.
Victor Dellamuta caminhava entre as pessoas tentando manter a ordem, organizando turnos de vigilancia, redistribuindo tarefas, garantindo que ninguém ficasse sem abrigo ou alimento. Ele mantinha a postura firme, mas o peso nos ombros era visível.
Aquela comunidade havia sido construída sobre promessa de seguran?a.
E naquele dia, essa promessa falhara.
Bella estava ao lado dele, equilibrando sua presen?a como sempre fizera. Diferente de Victor, que organizava com estrutura e estratégia, Bella organizava com proximidade. Ela tocava bra?os, segurava m?os, olhava nos olhos.
— Nós ainda estamos aqui — dizia a quem precisasse ouvir. — Ainda temos uns aos outros. Isso n?o muda.
Alguns assentiam.
Outros apenas respiravam melhor por um instante.
Nina, a irm? mais nova de Bella, movia-se com agilidade entre as pessoas. Ela era mais jovem, mais leve no sorriso, mas n?o menos firme. Ajudava a organizar crian?as em um dos sal?es internos, improvisando histórias para distraí-las do barulho distante das explos?es que ainda ecoavam na memória.
— Vai ficar tudo bem — dizia a um menino que n?o parava de perguntar se os "monstros de máscara" voltariam. — A gente é mais forte junto, lembra?
If you come across this story on Amazon, be aware that it has been stolen from Royal Road. Please report it.
Havia algo naturalmente acolhedor nela. Diferente da serenidade estratégica de Bella, Nina transmitia coragem pela forma simples com que permanecia ali, ajudando, sem hesitar.
Victor parou na varanda principal do prédio central e observou o gramad?o ao longe. A terra ainda estava marcada pelas descargas elétricas. Algumas árvores permaneciam tombadas na borda do bosque.
Ele fechou os olhos por um momento.
— Eu devia ter confiado mais neles — disse, quase em tom de confiss?o.
Bella aproximou-se devagar.
— Você tentou proteger a comunidade.
— Eu os pressionei — Victor respondeu. — Depois daquela reuni?o... depois daquela pergunta... tudo desandou.
Ele passou a m?o pelo rosto, cansado.
— Talvez se eu tivesse sido mais firme antes. Ou mais compreensivo. Eu n?o sei.
Bella colocou a m?o no ombro dele.
— Você n?o controla tudo, Victor. Nem eles controlam tudo.
Ele a encarou.
— E se eu tiver empurrado eles direto para isso?
Bella sustentou o olhar sem vacilar.
— Eles já estavam no meio disso muito antes de você perceber.
O silêncio entre os dois n?o era desconfortável. Era pesado.
— Eles v?o ficar bem — ela continuou, com convic??o. — Você conhece aqueles jovens. Eles n?o fogem. Eles se reorganizam.
Victor soltou um suspiro longo.
— E se n?o voltarem?
Bella apertou levemente o ombro dele.
— Ent?o nós vamos estar aqui quando decidirem voltar. E quando puderem voltar.
Nina surgiu ao lado deles, limpando as m?os sujas de poeira em um pano improvisado.
— As crian?as já est?o mais calmas — disse, com um sorriso leve que contrastava com o cenário. — E eu organizei alguns voluntários para refor?ar as entradas laterais. Só por precau??o.
Victor a observou por um instante.
— Você devia estar descansando.
Ela deu de ombros.
— Eu descanso quando o mundo estiver tranquilo de novo.
Bella riu de leve.
— Herdou isso de mim.
— N?o — Nina respondeu, piscando. — Eu só fa?o melhor.
Mesmo em meio à tens?o, aquele pequeno momento trouxe um respiro.
Mas, no fundo, todos sabiam que Aster n?o era mais a mesma.
O lugar que antes exalava seguran?a agora carregava uma camada de desconfian?a e expectativa constante. Cada som distante fazia alguém virar a cabe?a. Cada movimento no horizonte era analisado.
Victor voltou a olhar para o bosque.
— Quando voltarem — disse, mais para si mesmo do que para as duas — eu vou fazer diferente.
Bella n?o contestou.
Porque no fundo, ela também sabia.
Nada mais seria como antes.
A noite já havia tomado o céu quando as primeiras estruturas de Telúria surgiram além do bosque. A fuma?a ficara para trás, e o ar ali parecia mais limpo, mais frio, como se a própria cidade respirasse diferente.
Ruth conduziu o grupo até um dos acessos laterais. N?o havia guardas visíveis, nem port?es tradicionais. O sistema de entrada era integrado à própria estrutura da cidade. Ela tocou discretamente um painel embutido em uma das colunas de pedra e raiz entrela?adas, digitou uma sequência rápida e aguardou alguns segundos.
Nada fez barulho.
Nada se moveu.
Mas a barreira invisível que protegia o perímetro deixou de vibrar.
— Entrem — disse ela, firme.
Eles atravessaram sem dificuldade.
Telúria erguia-se sobre o que um dia fora Tatuí. N?o era uma cidade vertical como as antigas metrópoles, mas também n?o era rural. Era uma reconstru??o consciente. Havia poucos prédios altos, mas os que existiam tinham o topo iluminado por uma luz azul incandescente que pulsava suavemente, como faróis energéticos.
As casas eram feitas de pedra refor?ada e raízes estruturais que cresciam moldadas ao redor das paredes, integrando natureza e arquitetura. As ruas eram limpas, organizadas, e pequenas linhas luminosas percorriam o solo e as fachadas, como veias de energia viva correndo sob a superfície.
A ilumina??o n?o vinha de postes tradicionais.
Ela emanava.
Dos detalhes das constru??es.
Das frestas das portas.
Das jun??es entre pedra e madeira.
Como se a energia realmente habitasse Telúria.
Pedro diminuiu o passo, olhando ao redor.
— Ok... eu odeio admitir, mas isso aqui é bonito.
Cristopher concordou em silêncio, observando os circuitos organicos integrados às paredes.
Grace respirou mais fundo pela primeira vez desde o bosque.
Mas Evan n?o relaxou.
Ruth apontou na dire??o de um prédio de três andares ao fim de uma rua mais reservada.
— Eu trabalhava ali. é onde desenvolvi boa parte do núcleo energético da cidade. Como eu nunca gostei de interrup??es, o acesso é isolado. Serve bem para nos escondermos por enquanto.
O prédio era discreto, fechado, com portas e janelas trancadas. Ainda assim, n?o parecia abandonado no sentido de abandono descuidado. Estava limpo. Organizado. Como se apenas aguardasse uso.
Enquanto avan?avam pela rua iluminada por linhas azuladas que percorriam as fachadas, Evan sentiu antes de perceber conscientemente o que estava acontecendo. N?o foi algo que viu de imediato, mas uma altera??o sutil na própria percep??o. Um arrepio percorreu sua espinha, lento e preciso, como se alguém tivesse passado os dedos frios pela base de seu pesco?o. O som veio depois — n?o externo, mas interno — um arranhar distante, semelhante a correntes sendo puxadas sobre pedra úmida, constante e baixo demais para ser ignorado.
Os Sussurros haviam voltado.
Mas n?o da mesma forma que no bosque. N?o houve invas?o brusca nem press?o esmagadora contra sua mente. Era uma presen?a contínua, como vibra??o sustentada no fundo da consciência, persistente e calculada.
Ele reduziu o passo.
— Eles est?o aqui — murmurou, sem desviar o olhar da rua à frente.
Ruth virou o rosto rapidamente, pronta para descartar a hipótese.
— Impossível. Telúria está blindada contra—
A frase morreu antes de terminar.
Evan havia erguido o olhar.
A rua seguia reta, organizada, com casas alinhadas de maneira quase perfeita. A ilumina??o azul pulsava suavemente nos detalhes arquitet?nicos, estável, viva. Tudo parecia normal.
Até que n?o estava.
Nas janelas das casas à frente, sombras come?aram a se definir.
Uma em cada abertura.
N?o surgiram de repente; tornaram-se visíveis gradualmente, como se estivessem sendo reveladas por trás da própria luz. Figuras encapuzadas, imóveis, ocupando o espa?o interno das residências. As máscaras de bode apareciam apenas como contornos escuros contra o brilho azul das constru??es. Nenhum vidro se partiu. Nenhuma porta se moveu. N?o havia presen?a física concreta.
Mas estavam ali.
Como proje??es sobrepostas à realidade.
Como se observassem de outra camada, usando as janelas como pontos de ancoragem visual.
Pedro parou ao lado de Evan, o humor habitual ausente da express?o.
— Me diz que isso é trauma coletivo compartilhado.
Cristopher n?o tirava os olhos das fachadas.
— Eu também estou vendo.
As figuras n?o avan?avam, n?o amea?avam diretamente. Permaneciam estáticas, distribuídas com precis?o quase matemática — uma por casa, ocupando cada janela como se a rua inteira tivesse sido reclamada silenciosamente.
Evan sentiu a press?o aumentar dentro do peito, mas dessa vez n?o era energia prestes a explodir. Era consciência de proximidade. Eles estavam ali, mas n?o totalmente presentes. N?o naquele plano físico. Era como se duas camadas de realidade estivessem sobrepostas por instantes, e a deles estivesse apenas levemente deslocada.
Entre camadas.
Entre mundos.
A voz interna permaneceu em silêncio, mas a sensa??o que restou era inequívoca: aquilo n?o era ataque. Era aviso. Era marca??o.
Uma das sombras inclinou lentamente a cabe?a na dire??o de Evan, e mesmo à distancia o gesto foi claro demais para ser coincidência.
O ar pareceu se mover sem vento algum. Um deslocamento sutil atravessou a rua, quase imperceptível, e as figuras come?aram a se dissolver nas próprias sombras das casas. N?o evaporaram; recuaram, como se fossem puxadas de volta para um plano adjacente.
Uma após a outra desapareceram.
Restou apenas a arquitetura iluminada e o pulsar azul constante de Telúria.
O silêncio que ficou n?o trouxe alívio.
Trouxe antecipa??o.
Ruth permaneceu imóvel por alguns segundos, os olhos avaliando a rua como se recalculasse todos os sistemas de prote??o da cidade.
— Isso n?o foi invas?o física — disse finalmente, a mente claramente trabalhando além do que expressava. — Foi interferência entre planos. Eles n?o atravessaram... mas tocaram.
Evan manteve o olhar fixo na última janela que voltara ao normal.
— Eles sabem onde eu estou.
Dessa vez, ninguém tentou contestar.
Telúria era bela.
Organizada.
Viva.
Mas naquela noite, mesmo ali, a sensa??o era de que algo havia atravessado junto com eles.
E estava apenas come?ando a se aproximar.
O grupo chegou ao prédio pouco depois que as sombras desapareceram das janelas. Ruth destrancou a entrada com facilidade, desativando manualmente os sistemas internos de monitoramento para evitar qualquer registro externo de presen?a. Assim que atravessaram a porta, o silêncio do interior pareceu mais denso do que o da rua.
Eles entraram rápido e fecharam tudo atrás de si.
As janelas foram trancadas, as luzes internas mantidas no mínimo necessário. O prédio estava limpo, organizado, mas vazio há tempo suficiente para que o ar tivesse aquele cheiro neutro de espa?o pouco utilizado.
Devido à amea?a dos Sussurros, concordaram em se revezar na vigilancia. Ninguém estava disposto a confiar completamente na aparente seguran?a de Telúria.
Ruth n?o hesitou. Assim que definiram a divis?o de turnos, ela anunciou que precisava ficar sozinha por um tempo. Disse que estava com dor de cabe?a, que precisava realinhar os pensamentos e revisar algumas variáveis. Trancou-se em um dos c?modos isolados do andar térreo antes que alguém pudesse insistir.
Os demais subiram para o terceiro andar. Ali se sentiam mais protegidos, mais distantes da rua. Improvisaram camas no ch?o com colch?es e almofadas trazidos do primeiro andar. O cansa?o pesava em todos. A batalha, a fuga pelo bosque, a tens?o em Telúria — tudo havia drenado energia física e mental.
Evan escolheu deitar próximo à janela trancada. N?o por paranoia, mas por instinto. Queria manter o exterior ao alcance do olhar caso acordasse no meio da noite.
Grace deitou-se ao lado dele. N?o disseram muito. N?o precisavam. O olhar trocado entre os dois carregava entendimento e empatia silenciosa.
Luiz escolheu um canto mais afastado. O corpo estava ali, mas a postura denunciava isolamento. Ele parecia absorvido demais pelos próprios pensamentos.
Maisa e Beth deitaram juntas, buscando conforto mútuo. Cristopher e Pedro dividiram os turnos de vigia, um permanecendo no primeiro andar e o outro no segundo, alternando em silêncio disciplinado.
Exaustos, adormeceram.
Na manh? seguinte — ou o que deveria ser manh? — Evan estava terminando seu turno no primeiro andar quando ouviu passos na escada. Maisa e Beth desciam conversando baixo, mas havia algo estranho na energia delas.
Estavam animadas.
Leves demais.
— O que está havendo? Onde vocês v?o? — perguntou Evan, ainda atento à porta.
Beth esfregou os bra?os.
— Nossa, como está frio aqui.
Maisa assentiu, ajustando o casaco.
— Vamos buscar algo para comer no centro de mantimentos. A gente precisa de energia de verdade.
Evan franziu levemente a testa.
— Tomem cuidado. N?o se exponham.
— Vamos tomar cuidado — respondeu Beth, sorrindo. — Mas sério... está muito frio aqui.
Elas saíram.
Evan ficou parado por alguns segundos, sentindo o ar ao redor.
Estava mesmo mais frio.
N?o o tipo de frio que vem de madrugada prolongada. Era diferente. Seco. Cortante. Como se o prédio estivesse perdendo calor de dentro para fora.
Ele subiu para o segundo andar, onde Luiz já o aguardava para trocar o turno.
— Pronto? — perguntou Luiz.
— Sim. Está come?ando a ficar frio aqui dentro — comentou Evan.
Luiz deu um meio sorriso, mas n?o parecia achar gra?a.
— Eu também senti.
No terceiro andar, os outros já estavam acordados, sentados próximos uns dos outros, conversando baixo enquanto se acomodavam com cobertores trazidos de outros c?modos. A tens?o da noite anterior havia se transformado em necessidade de estratégia.
Discutiam os Sussurros.
Teorizavam.
— Eles n?o vieram matar — disse Cristopher. — Vieram buscar Anne.
— Ent?o o objetivo n?o era confronto aberto — completou Grace. — Era captura.
Pedro cruzou os bra?os.
— ótimo. Ent?o estamos lidando com sequestradores interdimensionais com senso de organiza??o.
Evan se aproximou e sentou-se junto ao grupo. Luiz fez o mesmo.
— Eles atravessam camadas — disse Evan, pensativo. — N?o precisam estar totalmente aqui para nos afetar.
— Ent?o como derrotamos algo que n?o está inteiro no nosso plano? — perguntou Grace, ajustando o cobertor ao redor dos ombros.
— Talvez a gente n?o precise derrotar — respondeu Luiz, com olhar distante. — Talvez precise impedir que ancorem.
O grupo o encarou por um segundo.
A observa??o era técnica demais.
Evan registrou, mas n?o comentou.
Todos come?aram a se agasalhar melhor. O frio parecia aumentar gradualmente, n?o de forma abrupta, mas constante.
Grace esfregou as m?os.
— Desde ontem eu notei a queda de temperatura.
Pedro olhou ao redor.
— Isso aqui tem sistema térmico integrado. N?o devia variar assim.
Evan ficou em silêncio por um instante.
Ent?o algo o atingiu.
— Gente... cadê a Ruth?
O grupo trocou olhares.
Beth respondeu primeiro.
— Desde que chegamos ela se trancou lá embaixo.
O silêncio que se seguiu foi diferente dos anteriores.
N?o era medo direto.
Era percep??o.
O frio aumentou mais um grau.
Evan levantou-se lentamente.
— Eu vou ver como ela está.
E, enquanto descia as escadas em dire??o ao andar térreo, a sensa??o de que algo estava sendo drenado do ambiente — n?o apenas calor, mas energia — come?ou a se tornar impossível de ignorar.
O prédio parecia... mais vazio do que deveria.
E o ar, cada vez mais frio.
Evan foi o primeiro a chegar ao corredor do andar térreo onde Ruth havia se trancado. Antes mesmo de alcan?ar a porta, sentiu a mudan?a brusca na temperatura. O ar ali n?o estava apenas frio — estava denso, cortante, como se cada respira??o atravessasse gelo.
Ele chamou antes de bater.
— Ruth?
Nenhuma resposta.
O frio parecia emanar da própria madeira da porta, infiltrando-se pelo corredor. Os outros logo chegaram atrás dele, Pedro já esfregando os bra?os.
— Isso aqui n?o é normal. Nem para Telúria.
Grace aproximou-se devagar, a respira??o visível no ar.
Cristopher tomou a frente.
— Vou abrir.
Ele girou a ma?aneta.
No instante em que seus dedos tocaram o metal, o frio se intensificou violentamente. A pele dele congelou ali mesmo, aderindo à superfície como se a ma?aneta fosse feita de gelo absoluto.
— AAH! — ele gritou, tentando puxar a m?o.
O grupo reagiu imediatamente, tentando segurá-lo pela cintura e pelo ombro. O metal parecia sugá-lo.
Grace agiu rápido. Uma pequena onda de chamas roxas escapou de sua m?o e envolveu a ma?aneta. O gelo estalou com um som seco e a m?o de Cristopher se soltou abruptamente, deixando a pele avermelhada e marcada.
Ele caiu para trás, ofegante.
— Aquilo... n?o é só frio.
O corredor parecia agora envolto em uma névoa leve que escapava pelas frestas da porta.
— Ruth! —Grace gritou. — Responde!
Silêncio.
Luiz olhou para Evan.
— A gente n?o pode esperar.
Pedro deu um passo para trás, os antebra?os endurecendo enquanto ele os cruzava diante do rosto e do peito. A estrutura da pele adquiriu textura mineral, compacta. Ele impulsionou o pé contra o ch?o e avan?ou com for?a total.
A porta explodiu para dentro.
O quarto estava tomado por uma névoa gélida que raspava o ch?o como fuma?a pesada. O frio ali dentro era absurdo, quase impossível de suportar. As paredes estavam cobertas por uma fina camada de gelo que crescia lentamente, estalando com ruídos discretos.
No centro do quarto, envolta por uma aura azulada intensa, estava Ruth.
Ela flutuava alguns centímetros acima do ch?o.
Os cabelos, antes presos em coque, estavam soltos e erguidos como se submersos em água invisível, agora presos apenas por um rabo alto que balan?ava lentamente. Seus olhos brilhavam — um azul claro aceso, quase elétrico, e o outro vermelho profundo, pulsante.
Ela n?o piscava.
N?o falava.
N?o reagia.
Estava em transe.
— Ruth... — Evan murmurou, dando um passo à frente.
O frio aumentou.
Pedro, ainda mais próximo, estendeu a m?o e tocou os dedos dela.
O mundo explodiu em luz.
Um clar?o azul intenso se expandiu do corpo de Ruth, como uma explos?o feita de LED e gelo ao mesmo tempo. O impacto lan?ou todos para trás, atravessando o corredor e espalhando fragmentos congelados pelas paredes.
N?o houve ferimento.
Mas a for?a foi brutal.
Ruth gritou.
Um grito que n?o parecia totalmente humano.
E, num movimento súbito, disparou em dire??o à porta de saída do prédio. A madeira foi arremessada para fora como se n?o tivesse peso algum. Ela atravessou o espa?o deslizando no ar, deixando um rastro de gelo que se espalhava pelo ch?o por onde passava.
— Atrás dela! — Evan gritou.
Eles correram.
Ruth já alcan?ava o meio da rua quando o segundo grito ecoou. N?o era de ataque. Era de dor.
Ela abriu os bra?os.
Um feixe de energia azul se lan?ou para o céu, formando um cilindro perfeito de luz que atravessou as nuvens. Mas aquilo n?o era apenas energia sendo projetada. O ar ao redor come?ou a cristalizar. O céu parecia endurecer sob o feixe, como se estivesse sendo congelado de dentro para fora.
Ruth continuava flutuando, os bra?os abertos, como se estivesse oferecendo algo invisível ao alto.
A alguns metros dali, Beth e Maisa surgiam correndo pela rua, retornando do centro de mantimentos. Pararam abruptamente ao ver a cena.
O grupo se aproximou, mas manteve distancia.
O ar já queimava de frio.
De repente, quatro cristais de gelo surgiram ao redor de Ruth.
N?o foram formados lentamente.
Eles simplesmente apareceram.
Dois à esquerda.
Dois à direita.
Grandes, irregulares, translúcidos, pulsando com energia interna azulada. O gelo ao redor deles come?ou a se expandir pelo asfalto, formando rachaduras congeladas que se espalhavam pela rua.
Os cristais acumulavam poder.
Era visível.
A energia dentro deles vibrava como se estivesse prestes a ser liberada.
Se fossem ativados, lan?ariam mais quatro feixes para o céu.
E se aquilo continuasse, Telúria inteira poderia congelar.
Evan observava.
O vento havia parado.
O mundo parecia suspenso entre o calor do dia anterior e o gelo absoluto daquela noite.
O que mais ainda poderia despertar?
Como eles poderiam continuar fugindo de for?as que pareciam crescer a cada tentativa de sobreviver?
Ele sentiu novamente a energia dentro de si.
E, pela primeira vez desde que tudo come?ara, uma pergunta diferente surgiu.
N?o era "como derrotar".
Era "o que mais está acordando?"
O cilindro azul continuava congelando o céu.
Os cristais pulsavam.
E, no centro da rua iluminada por Telúria, Ruth flutuava como um presságio.

