O frio da manh? n?o veio de fora.
Ribeiro percebeu isso ao inspirar. O ar estava comum; o corpo, n?o. Havia uma tens?o leve nos ombros, como se tivesse passado a noite sustentando algo que nunca chegou a tocar.
Desmontou o abrigo sem pressa. Os movimentos eram automáticos, mas carregavam inten??o: cada gesto confirmava uma decis?o tomada antes do despertar. O eixo no peito manteve-se firme, mais definido do que na noite anterior. Aquilo chamou sua aten??o, n?o como surpresa, mas como constata??o.
"Você sonhou."
A voz de noxyt n?o se encaixou inteiramente dentro dele; ocupou o intervalo entre pensamento e gesto.
Ribeiro ajustou a mochila antes de responder, apertando as tiras com precis?o excessiva.
— Estava na casa. Na oficina.
“N?o.”
A resposta veio ponderada.
“N?o foi sobre o que havia lá.”
A trilha seguia em curvas que nada prometiam. A montanha continuava distante, mas o caminho perdera peso: n?o havia expectativa, apenas avan?o.
— Aquela sala… meu pai sempre a manteve fechada.
“Ele n?o a manteve por si mesmo.”
Ribeiro desacelerou o passo.
— Ent?o por quem?
Houve uma pausa mais longa.
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“Por algo que precisava de espa?o para n?o deformar.”
O vento atravessou as copas e trouxe um ruído que lembrou madeira antiga cedendo. A associa??o foi imediata demais para ser coincidência.
— Prote??o, ent?o?
“Prote??o e sustenta??o.”
A palavra sustenta??o n?o ecoou; assentou.
Eles caminharam alguns metros em silêncio, até que Ribeiro franziu levemente o cenho, como quem percebe algo fora de alinhamento.
— Névoa.
A resposta veio atrasada, n?o por ausência, mas por foco.
— “Oi.”
A voz dela parecia mais dispersa que o normal, como se estivesse em vários lugares ao mesmo tempo.
— Você tá… viva?
Uma breve pausa. Algo se reorganizou no ar.
— “Sim. Estudando pa garai.”
Havia concentra??o ali, n?o ironia.
“Esse profeta tem registros estranhos. Conhecimento comprimido demais para n?o ter custo.”
Ribeiro soltou o ar pelo nariz, quase um meio sorriso.
— Só queria saber se você ainda estava aí.
— “Estou.”
A resposta veio firme.
— “Só n?o olhando.”
O silêncio que seguiu foi confortável. Diferente do silêncio da oficina. Diferente do silêncio de antes.
Ribeiro retomou o passo.
— Você ficou sozinha por muito tempo.
Disse, sem olhar para dentro.
— “Tempo n?o funcionava direito.”
A voz mudou de textura.
— “Ficar n?o foi o problema.”
Ele n?o perguntou mais. Algumas respostas exigem matura??o, n?o insistência.
A trilha inclinou. Pedras soltas pediam aten??o. Ribeiro escorregou uma vez e se recomp?s sem artifício, sem compasso, sem buscar movimento externo. O eixo permaneceu estável.
— Se aquela porta tivesse sido aberta…
“Você n?o estaria aqui.”
A resposta foi neutra.
“Nem inteiro.”
O sol rompeu as copas mais altas. A noite ficou definitivamente para trás.
Ribeiro compreendeu, sem necessidade de nomear, que certas portas n?o guardam monstros. Guardam intervalos. Guardam o tempo necessário para que algo exista sem se quebrar ao nascer.
“N?o confunda ausência com inexistência,”
disse a voz, mais baixa agora.
A Névoa n?o comentou. Estava ocupada demais aprendendo.
Ribeiro seguiu. O passo encontrou a própria medida, nem contido, nem apressado. A montanha permanecia à frente, exigente, mas agora ele sabia: algumas estruturas só funcionam porque nunca foram abertas cedo demais.
E isso, pela primeira vez, n?o soava como perda.

