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62. O Erro que Cai do Céu

  O céu n?o estava acima.

  Ele era o Leviathan.

  As nuvens n?o se acumulavam; organizavam-se. Giravam como escamas lentas, sobrepostas em camadas que respiravam. Correntes de ar desciam em espiral, contraindo-se e relaxando como músculos que n?o precisavam de ossos. Cada movimento rearranjava o clima, n?o como consequência, mas como inten??o. O mundo, abaixo, era apenas superfície de apoio.

  Ribeiro estava em terra.

  O solo cedia alguns centímetros a cada passo. N?o por peso, mas por reconhecimento. A lama saturada lembrava-se de água antiga e aceitava sua presen?a como se aceitasse um nome antigo demais para ser dito em voz alta. N?o havia trov?o. O silêncio, ali, era mais denso do que qualquer ruído.

  — “Você insiste em permanecer onde a fun??o n?o alcan?a.”

  A voz n?o veio do alto.

  Veio de dentro.

  Como se o ar tivesse aprendido a falar usando o corpo dele como caixa de ressonancia.

  Ribeiro fechou a m?o.

  — Eu cresci aqui.

  Acima, o Leviathan girou.

  Uma massa de nuvens condensou-se e desceu. N?o como queda, mas como decis?o. Uma pata colossal feita de vapor comprimido, com relampagos contidos entre as dobras, tocou o mundo sem cerim?nia.

  N?o houve aviso.

  N?o houve julgamento.

  Houve for?a.

  O impacto atravessou a planície como um erro de cálculo. O ch?o rachou em silêncio, e o corpo de Ribeiro foi lan?ado para trás, rolando entre pedra, lama e lembran?a. O mundo virou um borr?o de seco e úmido, de agora e antes.

  Ele só parou ao colidir contra o que restava de uma forma??o antiga: rochas polidas por uma água que já n?o existia.

  O ar deixou seus pulm?es.

  Por um instante, apenas um, Ribeiro ficou de joelhos. Algo dentro dele tentou desligar. Um pilar vibrou e quase cedeu.

  O Leviathan n?o desceu.

  Observou.

  — “Resposta registrada: resistência persistente.”

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  — “Resultado provável: dilui??o.”

  As correntes acima come?aram a convergir. N?o era um segundo ataque. Era encerramento. O céu se organizava para fechar uma equa??o.

  A voz de Aqua cortou o campo, precisa, sem emo??o:

  — “Chega.”

  Ribeiro cuspiu algo que seria sangue na terra.

  Riu. N?o houve humor.

  — é… chega.

  Ele se levantou antes que o corpo concordasse. O ch?o n?o endureceu para sustentá-lo. Aceitou-o como estava, mole, imperfeito, fiel. Como se lembrasse quem ele era.

  — Você fala demais.

  O Leviathan n?o reagiu. N?o havia vaidade suficiente ali para ser tocada por palavras.

  Ribeiro respirou fundo.

  E desligou o resto.

  N?o os pilares.

  Ainda n?o.

  Ele simplificou a inten??o.

  O céu dobrou-se quando ele deixou de ocupar uma posi??o válida. N?o foi velocidade. N?o foi oculta??o. Foi ausência. Um intervalo onde coordenadas recusaram existir.

  O Leviathan recalculou.

  Tarde demais.

  Ribeiro reapareceu dentro.

  N?o havia carne.

  N?o havia órg?os.

  Havia fluxo.

  Veias de nuvem viva conduziam energia, memória e fun??o em circula??o contínua. O interior do Leviathan n?o parava para existir. Era um sistema que se mantinha em movimento para n?o precisar se definir.

  No centro, pulsando como uma afronta à própria vastid?o, estava o cora??o.

  N?o era grande.

  Era denso.

  Cada batida fazia o céu inteiro responder, como se o mundo respirasse por empréstimo.

  — “Intrus?o detectada.”

  Sombra surgiu ao lado de Ribeiro, a fuma?a se enrolando com riso curto, afiado.

  — Vai demorar ou vai ser bonito?

  Ribeiro estendeu a m?o.

  A fuma?a condensou-se. N?o virou metal. Virou decis?o. Um corte limpo atravessou camadas de conten??o que n?o conheciam laminas. O cora??o tentou redistribuir fun??o, chamar o todo, justificar-se.

  N?o houve tempo.

  Ribeiro o agarrou.

  O Leviathan sentiu.

  N?o como dor.

  Como ausência.

  Acima da terra, o céu perdeu coerência. Nuvens passaram a cair para dire??es erradas. Correntes se chocaram, confundidas. O mundo tentou entender como algo ainda voava sem aquilo que o mantinha inteiro.

  — “Estado crítico.”

  — “Fun??o central ausente.”

  — “Reavalia??o impossível.”

  Aqua falou como quem fecha uma porta:

  — “Agora.”

  Ribeiro teleportou.

  Reapareceu em terra, o cora??o ainda pulsando na m?o. Pesado. N?o pelo peso físico, mas pelo que custava existir fora de onde deveria.

  Atrás dele, o céu n?o caiu.

  Ele enlouqueceu.

  O Leviathan girava sem eixo, tentando voar sem centro, existir sem raz?o. N?o morreu. N?o precisava. A derrota era estrutural.

  Ribeiro caiu de joelhos. O corpo, enfim, cobrou o pre?o.

  Aqua aproximou-se.

  — "Você quase tentou conversar de novo."

  Ele sorriu, exausto.

  — Eu sei.

  Ela olhou para o céu desorganizado.

  — "Da próxima vez, n?o hesite."

  Ribeiro fechou a m?o em torno do cora??o do mar.

  — Da próxima vez… eu n?o vou precisar do pux?o de orelha :/.

  O vento passou.

  N?o empurrou.

  N?o amea?ou.

  Desviou-se.

  Como algo que, pela primeira vez, soube que a terra também observa.

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