A Sala das Bandeiras
Ribeiro n?o sentiu o teleporte.
Um segundo estava no anel, com a respira??o pesada e a névoa se retraindo aos poucos. No seguinte, o ch?o sob seus pés era sólido demais, pedra polida, fria, precisa.
Ele trope?ou um passo à frente.
Parou.
A sala era grande. N?o colossal. Solene.
Como se tivesse sido construída para pessoas que ainda n?o tinham chegado.
O teto alto sustentava-se por colunas esculpidas à m?o, cada uma marcada por rachaduras antigas, como se o próprio tempo tivesse tentado corrigi-las… e desistido. à frente, um trono de pedra clara dominava o centro, simples, sem ornamentos, feito para durar mais do que qualquer um que ousasse sentar.
Atrás do trono, em semicírculo, erguiam-se vinte estandartes.
Ribeiro engoliu seco.
— …que porra é essa?
O primeiro carregava um pentagrama invertido, cru, direto.
O segundo, uma árvore dourada cujos frutos refletiam cores que n?o se repetiam.
O terceiro ostentava um triskel celta, perfeito demais para ter sido esquecido.
O quarto era um triangulo ardente, t?o simples que parecia anterior à linguagem.
Ribeiro teve a sensa??o estranha de que n?o estava vendo símbolos, estava vendo resultados.
O quinto o fez franzir a testa.
— Isso é… uma bomba?
O símbolo da explos?o at?mica estava ali, agressivo, como algo que n?o se arrepende.
Mais adiante, dois flocos de gelo: um cristalino, outro opaco. N?o vers?es diferentes, consequências diferentes.
— Estranho…
Murmurou, sem saber por quê.
O oitavo tinha um raio sinuoso, vivo demais.
O nono mostrava a terra rachada por dentro.
O décimo, uma serpente morta, mordendo o próprio corpo.
Ribeiro desviou o olhar rápido demais.
Percebeu tarde demais.
O décimo primeiro destacava-se: um ankh dourado, com detalhes em roxo profundo. O único que aceitava cor, como se n?o tivesse terminado de morrer.
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O décimo segundo parecia errado, o símbolo da radia??o escorria, corroendo o próprio estandarte.
O décimo terceiro mostrava uma ma?? caindo dentro de um vazio negro.
O décimo quarto fez algo dentro dele travar.
O símbolo estava rasgado.
Onde algo deveria existir, havia marcas de remo??o.
— Ei…
Ele apontou.
— Esse aqu—
O décimo quinto quebrou a tens?o.
— …isso é um bloco de LEGO?
O silêncio que respondeu n?o foi constrangido. Foi atento.
O décimo sexto mostrava cubos com pequenas patas, interligados como um organismo.
O décimo sétimo trazia algo quase humano, abra?ando um cubo, como quem tenta n?o desaparecer.
O décimo oitavo n?o existia.
N?o estava quebrado.
N?o estava rasgado.
Nunca esteve ali.
O décimo nono era um sol intenso demais para ser conforto.
O vigésimo, uma lua fria demais para ser consolo.
Ribeiro percebeu que respirava raso.
Virou-se devagar.
O Patr?o estava encostado numa coluna, m?os nos bolsos, cachimbo de madeira escura soltando fuma?a sem chama.
— "Sala de premia??es."
Disse, casual.
— Isso tudo… s?o ra?as?
— "As mais fortes que já pisaram neste mundo."
O peso veio depois.
— E os que t?o… faltando?
— "Extintos."
Uma palavra. Nenhuma explica??o.
Ribeiro olhou de novo para o estandarte rasgado.
Teve a impress?o inc?moda de que o mundo n?o remove símbolos à toa.
— E quem fez isso?
O Patr?o sorriu de canto.
— "O mundo."
A névoa se moveu atrás dele.
— “Eles n?o est?o mentindo.”
— Eu sei.
O homem deu dois passos até o trono.
— "Você percebeu algo curioso, n?o percebeu?"
Ribeiro hesitou.
Percebeu tarde demais.
— Que eu n?o perten?o a nenhum desses.
— "Exato"
Uma pausa mínima.
— "Ainda."
Ele estendeu a m?o.
O ar se dobrou.
As correntes caíram no ch?o com um peso que n?o combinava com o tamanho. As runas pulsavam, n?o como luz, como expectativa.
Ribeiro deu um passo atrás.
Seu cora??o perdeu um batimento.
A interface se abriu antes que ele perguntasse qualquer coisa.
Ele leu.
E, enquanto lia, teve a certeza desconfortável de que o teste já estava acontecendo.
— Isso vai me matar se eu errar.
— "Vai"
Confirmou o Patr?o.
Ribeiro fechou a interface devagar.
Por impulso, talvez para provar que ainda escolhia alguma coisa, estendeu a m?o e tocou uma das correntes.
O silêncio o atravessou.
N?o houve dor comum. Houve ausência.
Quando puxou a m?o de volta, havia uma marca na palma: fina, roxa, com um tra?o dourado na extremidade. N?o sangrava. N?o ardia.
N?o pedia permiss?o para existir.
O Patr?o observou a marca, sem surpresa.
— "Alguns símbolos servem para lembrar quem manda. Outros, para garantir que alguém n?o vá embora."
— Por quê?
Ribeiro perguntou, mais baixo.
— "Porque você faz coisas interessantes quando está prestes a morrer."
Ribeiro riu. A risada saiu fora de ordem.
— Ent?o… a gente é o quê?
— "Amigos? N?o."
— "Conhecidos? Talvez."
O Patr?o já se afastava.
— "Mas você é legal."
O mundo dobrou.
Ribeiro reapareceu no centro do Coliseu.
Era noite.
As arquibancadas estavam vazias. O anel rachado. O ar pesado demais para ser o mesmo.
Ele levou a m?o ao peito. O cora??o batia num compasso estranho.
— …quanto tempo…?
A névoa demorou mais do que o normal.
— “O suficiente.”
Ela n?o disse quanto.
Ribeiro fechou os dedos sobre a marca na palma da m?o.
Percebeu tarde demais que n?o estava sendo preparado para escolher.
Estava sendo preparado para existir depois.
Fim do capítulo.

