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55. 0 dias para o apocalipse... Hohoho...

  A Sala das Bandeiras

  Ribeiro n?o sentiu o teleporte.

  Um segundo estava no anel, com a respira??o pesada e a névoa se retraindo aos poucos. No seguinte, o ch?o sob seus pés era sólido demais, pedra polida, fria, precisa.

  Ele trope?ou um passo à frente.

  Parou.

  A sala era grande. N?o colossal. Solene.

  Como se tivesse sido construída para pessoas que ainda n?o tinham chegado.

  O teto alto sustentava-se por colunas esculpidas à m?o, cada uma marcada por rachaduras antigas, como se o próprio tempo tivesse tentado corrigi-las… e desistido. à frente, um trono de pedra clara dominava o centro, simples, sem ornamentos, feito para durar mais do que qualquer um que ousasse sentar.

  Atrás do trono, em semicírculo, erguiam-se vinte estandartes.

  Ribeiro engoliu seco.

  — …que porra é essa?

  O primeiro carregava um pentagrama invertido, cru, direto.

  O segundo, uma árvore dourada cujos frutos refletiam cores que n?o se repetiam.

  O terceiro ostentava um triskel celta, perfeito demais para ter sido esquecido.

  O quarto era um triangulo ardente, t?o simples que parecia anterior à linguagem.

  Ribeiro teve a sensa??o estranha de que n?o estava vendo símbolos, estava vendo resultados.

  O quinto o fez franzir a testa.

  — Isso é… uma bomba?

  O símbolo da explos?o at?mica estava ali, agressivo, como algo que n?o se arrepende.

  Mais adiante, dois flocos de gelo: um cristalino, outro opaco. N?o vers?es diferentes, consequências diferentes.

  — Estranho…

  Murmurou, sem saber por quê.

  O oitavo tinha um raio sinuoso, vivo demais.

  O nono mostrava a terra rachada por dentro.

  O décimo, uma serpente morta, mordendo o próprio corpo.

  Ribeiro desviou o olhar rápido demais.

  Percebeu tarde demais.

  O décimo primeiro destacava-se: um ankh dourado, com detalhes em roxo profundo. O único que aceitava cor, como se n?o tivesse terminado de morrer.

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  O décimo segundo parecia errado, o símbolo da radia??o escorria, corroendo o próprio estandarte.

  O décimo terceiro mostrava uma ma?? caindo dentro de um vazio negro.

  O décimo quarto fez algo dentro dele travar.

  O símbolo estava rasgado.

  Onde algo deveria existir, havia marcas de remo??o.

  — Ei…

  Ele apontou.

  — Esse aqu—

  O décimo quinto quebrou a tens?o.

  — …isso é um bloco de LEGO?

  O silêncio que respondeu n?o foi constrangido. Foi atento.

  O décimo sexto mostrava cubos com pequenas patas, interligados como um organismo.

  O décimo sétimo trazia algo quase humano, abra?ando um cubo, como quem tenta n?o desaparecer.

  O décimo oitavo n?o existia.

  N?o estava quebrado.

  N?o estava rasgado.

  Nunca esteve ali.

  O décimo nono era um sol intenso demais para ser conforto.

  O vigésimo, uma lua fria demais para ser consolo.

  Ribeiro percebeu que respirava raso.

  Virou-se devagar.

  O Patr?o estava encostado numa coluna, m?os nos bolsos, cachimbo de madeira escura soltando fuma?a sem chama.

  — "Sala de premia??es."

  Disse, casual.

  — Isso tudo… s?o ra?as?

  — "As mais fortes que já pisaram neste mundo."

  O peso veio depois.

  — E os que t?o… faltando?

  — "Extintos."

  Uma palavra. Nenhuma explica??o.

  Ribeiro olhou de novo para o estandarte rasgado.

  Teve a impress?o inc?moda de que o mundo n?o remove símbolos à toa.

  — E quem fez isso?

  O Patr?o sorriu de canto.

  — "O mundo."

  A névoa se moveu atrás dele.

  — “Eles n?o est?o mentindo.”

  — Eu sei.

  O homem deu dois passos até o trono.

  — "Você percebeu algo curioso, n?o percebeu?"

  Ribeiro hesitou.

  Percebeu tarde demais.

  — Que eu n?o perten?o a nenhum desses.

  — "Exato"

  Uma pausa mínima.

  — "Ainda."

  Ele estendeu a m?o.

  O ar se dobrou.

  As correntes caíram no ch?o com um peso que n?o combinava com o tamanho. As runas pulsavam, n?o como luz, como expectativa.

  Ribeiro deu um passo atrás.

  Seu cora??o perdeu um batimento.

  A interface se abriu antes que ele perguntasse qualquer coisa.

  Ele leu.

  E, enquanto lia, teve a certeza desconfortável de que o teste já estava acontecendo.

  — Isso vai me matar se eu errar.

  — "Vai"

  Confirmou o Patr?o.

  Ribeiro fechou a interface devagar.

  Por impulso, talvez para provar que ainda escolhia alguma coisa, estendeu a m?o e tocou uma das correntes.

  O silêncio o atravessou.

  N?o houve dor comum. Houve ausência.

  Quando puxou a m?o de volta, havia uma marca na palma: fina, roxa, com um tra?o dourado na extremidade. N?o sangrava. N?o ardia.

  N?o pedia permiss?o para existir.

  O Patr?o observou a marca, sem surpresa.

  — "Alguns símbolos servem para lembrar quem manda. Outros, para garantir que alguém n?o vá embora."

  — Por quê?

  Ribeiro perguntou, mais baixo.

  — "Porque você faz coisas interessantes quando está prestes a morrer."

  Ribeiro riu. A risada saiu fora de ordem.

  — Ent?o… a gente é o quê?

  — "Amigos? N?o."

  — "Conhecidos? Talvez."

  O Patr?o já se afastava.

  — "Mas você é legal."

  O mundo dobrou.

  Ribeiro reapareceu no centro do Coliseu.

  Era noite.

  As arquibancadas estavam vazias. O anel rachado. O ar pesado demais para ser o mesmo.

  Ele levou a m?o ao peito. O cora??o batia num compasso estranho.

  — …quanto tempo…?

  A névoa demorou mais do que o normal.

  — “O suficiente.”

  Ela n?o disse quanto.

  Ribeiro fechou os dedos sobre a marca na palma da m?o.

  Percebeu tarde demais que n?o estava sendo preparado para escolher.

  Estava sendo preparado para existir depois.

  Fim do capítulo.

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