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oitavo andar

  14/09/2020 -- México | Prédio Central

  Eu estava parado na frente do prédio central da Cidade do México, observando aquela aberra??o

  arquitet?nica de vidro e concreto refletindo o sol da manh?. Bonito. Limpo. Rico.

  Ajustei o moletom do First Piece, puxando o capuz um pouco mais para frente. N?o era

  exatamente um disfarce mas também n?o era como se alguém esperasse que um australiano

  estiloso fosse come?ar um massacre às sete da manh?.

  Respirei fundo.

  " Tá, Jake só mais um dia comum no trabalho " murmurei para mim mesmo.

  Entrei pelas portas giratórias com o mesmo entusiasmo de alguém indo comprar p?o.

  O interior era ridiculamente luxuoso. Piso de mármore, lustres enormes, recepcionistas com

  sorriso treinado e cheiro de perfume caro tentando esconder o cheiro de dinheiro sujo.

  Me aproximei da atendente.

  Ela levantou o olhar, simpática e profissional.

  " Bom dia, senhor. Em que posso ajudar?"

  Abri meu melhor sorriso.

  " Bom dia. Eu queria ir pro cassino no oitavo andar. Dizem que vocês têm uma roleta que destrói

  sonhos e casamentos."

  Ela piscou duas vezes, claramente tentando decidir se eu era rico ou só idiota.

  " O cassino é apenas para convidados VIP, senhor. O senhor possui reserva?"

  " Reserva n?o." respondi.

  Ela soltou uma risadinha nervosa.

  " Posso verificar sua---"

  Eu deslizei um papelzinho pelo balc?o.

  " Aqui meu número. Caso o cassino n?o funcione, talvez a gente possa tomar um café depois."

  Ela corou levemente.

  " Senhor..."

  " Jake. Pode me chamar de Jake. Ou de 'o cara que perdeu todo o dinheiro apostando em

  vermelho'."

  Sem esperar resposta, me virei e caminhei até o elevador. Ouvi ela chamar algo atrás de mim,

  mas honestamente eu já estava comprometido com o caos.

  Apertei o bot?o do oitavo andar e encostei na parede metálica do elevador.

  Puxei o celular.

  7:14

  " Eu devia ter tomado café antes disso " resmunguei.

  Coloquei os fones de ouvido. A música come?ou.

  Lonely Day.

  Perfeito. Dramático. Levemente deprimente. Exatamente o clima certo para estragar o dia de

  criminosos organizados.

  As portas do elevador se abriram com um ding suave.

  Eu saí caminhando normalmente como se n?o houvesse três seguran?as armados olhando

  diretamente para mim.

  Um deles franziu o cenho.

  " Senhor, esse andar está---"

  Atirei.

  O disparo cortou a frase dele junto com a artéria do pesco?o. O sangue espirrou no carpete

  bege, transformando a decora??o elegante em arte moderna.

  Os outros dois reagiram imediatamente, puxando as armas.

  " EI! "

  Tiros come?aram a ecoar pelo corredor.

  E ent?o come?ou a parte divertida.

  As balas vinham na minha dire??o mas desaceleravam. Como se atravessassem água invisível.

  Elas tremiam no ar ao meu redor, girando lentamente, presas em um campo que só eu

  controlava.

  Sorri.

  " Gente, vocês t?o atirando muito mal."

  Avancei enquanto disparava. Um tiro. Dois. Três.

  Alarmes come?aram a soar. Portas abriram. Mais guardas surgiram agora com rifles.

  " AH, agora sim! " gritei, animado. " Trouxeram brinquedos maiores!"

  Uma rajada inteira veio na minha dire??o. Dezenas de projéteis. Mortais. Rápidos.

  Eles pararam.

  Flutuando ao meu redor como um enxame metálico.

  O tempo parecia congelar naquele instante. Eu podia ver meu reflexo em cada bala. Podia ver o

  medo nos olhos dos guardas.

  Levantei a m?o lentamente.

  " Bang."

  Com um simples movimento dos dedos, as balas inverteram a dire??o e dispararam de volta. O

  som foi grotesco. Carne rasgando. Ossos quebrando. Gritos interrompidos no meio.

  Quando o eco morreu, só restou silêncio e o cheiro de pólvora misturado com ferro do sangue.

  Eu estava no meio da sala. Respirando calmamente. O piso branco agora era um mosaico

  carmesim.

  Tirei um dos fones do ouvido.

  " Hm... devia ter trazido outro moletom, esse aqui vai manchar."

  Ent?o ouvi o som do elevador atrás de mim.

  Ding.

  Ah... refor?os. Adoro refor?os.

  Me virei girando a pistola no dedo, esperando mais homens armados.

  Mas n?o foi isso que saiu.

  Era uma garota.

  Jovem. Provavelmente pouco mais de vinte anos. Cabelos pretos longos que desciam pelas

  costas. Olhos castanhos escondidos atrás de óculos redondos que davam um ar absurdamente

  intelectual.

  Mas nada disso era o mais estranho.

  Ela usava um chapéu de bruxa.

  Um vestido longo, escuro, cortado nas laterais que balan?ava com o movimento. E ela segurava

  uma vassoura. Uma vassoura literal.

  Eu fiquei em silêncio por três segundos.

  " ...ok... Ou eu bati a cabe?a ou Ernesto come?ou a contratar cosplay."

  Ela olhou ao redor.

  Observou os corpos.

  O sangue espalhado pelo ch?o.

  Os buracos nas paredes.

  Depois voltou o olhar para mim.

  Sem emo??o alguma.

  " Você é o australiano."

  Inclinei a cabe?a, desconfiado.

  " Depende. Você tá querendo me matar ou sair comigo?"

  Ela ignorou completamente a piada.

  " Jake Walker. Rank 2."

  Assoviei, impressionado.

  " Uau. Alguém fez a li??o de casa."

  Ela deu alguns passos para fora do elevador, passando pelos corpos sem demonstrar nojo,

  pressa ou surpresa. Como se aquilo fosse apenas um cenário inconveniente.

  " Você causou um atraso " disse. " Eu queria ter estudado mais o AUB antes disso."

  " Ah, desculpa " respondi, girando a arma no dedo. " Vou tentar matar pessoas mais rápido da

  próxima vez."

  Ela apoiou a vassoura no ombro, relaxada demais para alguém cercada por cadáveres.

  " N?o estou aqui por você."

  "Que pena. Achei que era amor à primeira chacina."

  Ela suspirou, como uma professora cansada de um aluno problemático.

  " Meu nome é Francesca " disse, finalmente. " E você está interferindo em algo muito maior do que entende."

  Unauthorized reproduction: this story has been taken without approval. Report sightings.

  Sorri.

  " Normalmente é assim que minhas melhores histórias come?am."

  Ela ergueu levemente a m?o.

  O ar ao redor ondulou, como se a realidade tivesse respirado fundo.

  Meu sorriso só aumentou.

  " Ah ent?o você n?o é só uma fashionista estranha."

  Ela inclinou a cabe?a, me avaliando.

  Ficamos nos encarando por alguns segundos. A música ainda tocava em um dos meus fones,

  criando uma trilha sonora absurdamente melancólica para dois estranhos decidindo quem ia

  matar quem primeiro.

  Girei a arma de novo.

  " Ent?o você vai tentar me parar?"

  Ela segurou a vassoura com as duas m?os.

  " Vou tentar atrasar você."

  " Atrasar? " ri. " Que falta de ambi??o."

  Ela deu um passo à frente.

  O ch?o rachou levemente sob o salto do sapato.

  Ok.

  Agora eu estava oficialmente interessado.

  " última chance " ela disse. " Vá embora. Isso n?o é sua guerra."

  Inclinei a cabe?a, sorrindo.

  " Amor, eu literalmente atravessei um oceano pra essa guerra."

  O ar ficou pesado.

  Ela moveu a vassoura.

  Eu senti algo deslocar, como se o espa?o tivesse sido empurrado à for?a.

  As balas flutuando ao meu redor come?aram a vibrar.

  " OH... " ri. " Você mexe com espa?o?"

  Ela n?o respondeu.

  O vestido dela balan?ava como se houvesse vento, mesmo sem haver.

  Coloquei o fone de volta no ouvido.

  " Certo, Francesca da vassoura, vamos ver quem dan?a melhor."

  Levantei a m?o.

  As balas ao meu redor come?aram a girar, cada vez mais rápido, formando um redemoinho

  metálico mortal.

  Ela fincou a vassoura no ch?o.

  O impacto fez o ar explodir numa onda invisível.

  Minhas balas dispararam.

  O espa?o diante dela se distorceu, como um espelho quebrado, e os projéteis desviaram

  atravessando paredes, teto, móveis tudo menos ela.

  Eu comecei a rir.

  "EU AMO QUANDO O TRABALHO FICA INTERESSANTE!"

  Ela avan?ou num movimento rápido demais para parecer humano.

  Rolei para o lado enquanto ela varria o ar com a vassoura.

  A parede atrás de mim simplesmente dobrou, como papel sendo amassado por uma m?o

  invisível.

  " Caralho" murmurei, animado. " Você é perigosa."

  Ela girou a vassoura de novo, criando outra distor??o.

  N?o perdi tempo.

  Apontei direto para a arma dela.

  " Bang."

  O disparo ecoou seco.

  A vassoura explodiu em peda?os, madeira e estilha?os voando pelo corredor.

  Sorri, sentindo a adrenalina subir.

  " Agora " disse, levantando o dedo outra vez " é a minha vez de atacar. "

  Ela n?o hesitou.

  No instante seguinte à explos?o da vassoura, Francesca sumiu do meu campo de vis?o.

  Senti o impacto antes de entender.

  O primeiro soco acertou meu rosto com for?a suficiente para apagar o som do mundo. O

  segundo veio nas costelas. O terceiro no est?mago. O ar fugiu dos meus pulm?es como se

  alguém tivesse arrancado ele à for?a.

  Rolei pelo ch?o.

  Nem tive tempo de levantar.

  Ela caiu sobre mim, joelho cravado no meu peito, e come?ou.

  Punho.

  Cotovelo.

  Punho de novo.

  Cada golpe vinha com uma precis?o absurda, como se ela já soubesse exatamente onde

  quebrar.

  " Fica quieto " ela disse, calma demais. " Isso vai acabar rápido."

  Tentei rir. Só saiu sangue.

  Ela me puxou pela gola e me jogou contra uma coluna. Meu corpo bateu, deslizou, caiu.

  Antes que eu tocasse o ch?o, ela já estava ali.

  Chute ascendente.

  Minha cabe?a estalou contra o teto. Vi luzes. Vi nada.

  Ela me agarrou pelo bra?o, girou meu corpo e me lan?ou contra o ch?o outra vez. O piso rachou

  sob mim.

  A sequência continuou linda, precisa, quase dan?ada.

  Cada movimento dela fluía no próximo. Nenhum desperdício. Nenhuma pressa.

  No fim do combo, ela colocou a m?o aberta no meu peito.

  Runas surgiram sob a pele, símbolos antigos, girando lentamente.

  " fuoco " murmurou.

  O calor veio primeiro.

  Depois, a dor.

  O fogo n?o queimava por fora. Ele consumia por dentro, atravessando músculos, órg?os,

  pensamento. Minha vis?o se fragmentou. Meus sentidos falharam.

  Caí de costas, imóvel.

  O mundo ficou escuro.

  Francesca se levantou.

  Olhou meu corpo por um segundo a mais do que o necessário.

  Depois se virou e come?ou a caminhar em dire??o ao elevador.

  " Caótico demais " disse para si mesma. " Previsível no fim."

  Ela apertou o bot?o.

  Silêncio.

  Ent?o

  "BANG."

  O disparo ecoou atrás dela.

  O ombro esquerdo de Francesca explodiu para trás, o impacto jogando-a contra a parede.

  Ela gritou, pela primeira vez.

  Atrás dela, eu estava de pé.

  Ou melhor me refazendo.

  Minha pele se fechava em ondas irregulares. Músculos se reconstruíam como se alguém

  estivesse rebobinando meu corpo. O cheiro de queimado desaparecia, substituído por uma nova

  pele intacta.

  " Eu odeio quando acham que acabou " murmurei.

  Ela girou, erguendo a m?o com dificuldade.

  Um círculo mágico se formou à frente dela, translúcido, cheio de símbolos giratórios.

  " BANG. "

  O disparo acertou o escudo.

  A energia se espalhou pelo círculo como uma gota em água.

  Sangue escorreu do meu nariz.

  " BANG."

  Outro impacto.

  O escudo absorveu, mas rachou levemente.

  Agora sangue saía da boca.

  " BANG. "

  O círculo tremia. Francesca for?ava a magia, os dentes cerrados. Sangue escorria do canto dos

  olhos dela.

  " BANG."

  O escudo come?ou a girar descontrolado.

  Meus ouvidos zuniam. Sangue pingava no ch?o.

  "Bang."

  O quinto disparo atravessou o escudo como vidro.

  Francesca foi lan?ada contra a parede com violência. O impacto rachou o concreto. Ela caiu de

  joelhos, a magia se dissipando ao redor.

  Silêncio.

  Eu dei alguns passos cambaleantes na dire??o dela.

  Cada movimento parecia pesado demais.

  " Sabe... " falei, respirando mal " acho que isso aqui dá pra chamar de empate."

  Ela tentou se mover. N?o conseguiu.

  Sorri, fraco.

  " Fica viva. Histórias boas merecem continua??o. "

  Minhas pernas falharam.

  O mundo girou.

  E eu caí de lado, enquanto o som distante de alarmes come?ava a preencher o prédio.

  "Agora é com vocês" minha mente desligou logo após isso.

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