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  10/09/2020 -- México

  Ontem conheci Samuel Norton.

  Um assassino.

  Um homem que destruiu centenas, talvez milhares de vidas com as próprias m?os ou pior, com

  a própria mente.

  E ainda assim foi ele quem colocou a última pe?a no tabuleiro.

  As informa??es que me deu n?o encerram a investiga??o.

  Elas empurram tudo para o ponto sem retorno.

  Levanto da cama com o corpo pesado. Dormi mal. De novo.

  O rosto de Andres insiste em aparecer sempre que fecho os olhos.

  Visto a roupa padr?o de investigador quase no automático. Camisa, coldre, baralho no bolso

  interno. Cada pe?a parece mais pesada hoje.

  Quando saio do quarto, encontro Mateus sentado à mesa da cozinha do apartamento,

  mastigando tranquilamente uma pizza de quatro queijos esquecida na geladeira. Ele acompanha

  tudo com um copo de Sgrite já sem gás.

  " Bom dia, Alex."

  "Uaaaaaah... " bocejo, passando a m?o no rosto. " Bom dia." olho para a caixa aberta " Essa pizza

  tá na geladeira há uns seis dias."

  " Tá bem boa."

  " Isso aí vai te dar uma caganeira mutante."

  Mateus dá de ombros.

  " Meu est?mago é refor?ado."

  " Claro que é " resmungo. " Come aí. A gente tem que sair."

  " Vamos onde? " ele pergunta, antes de enfiar duas fatias na boca de uma vez.

  " Investigar uma informa??o que eu ganhei."

  Ele para de mastigar por meio segundo.

  " Ganhou... como assim ganhou?"

  Pego um copo, sirvo café e fico olhando o líquido escuro como se ele tivesse alguma resposta.

  " Um contato resolveu falar."

  " Contato tipo informante? " Mateus pergunta, com a boca cheia.

  " Contato tipo cientista maluco arrependido envolvido num projeto que matou gente demais."

  Ele engole.

  " Ah."

  Silêncio.

  Mateus me encara com mais aten??o agora.

  " Isso tem a ver com aquela casa? " pergunta. " A de Monterrey?"

  Levanto os olhos devagar.

  " Tem a ver com tudo."

  Ele se recosta na cadeira.

  " Você confia nele?"

  A pergunta fica no ar.

  Penso no Três de Ouros. No silêncio da carta. Na ausência de mentira.

  " Eu confio nas informa??es dele" respondo. " N?o nele."

  Mateus assente, sério.

  " Ent?o é hoje?"

  Aperto o copo com for?a demais.

  " Alex?"

  " Hm?"

  " Você tá bem?"

  Penso em Andres.

  Penso na m?e dele, segurando uma foto que n?o vai mais envelhecer.

  Penso em Rachel. Em Kelly. No que foi feito com elas.

  " N?o " respondo, honesto. " Mas isso n?o importa."

  Mateus se levanta, pega a jaqueta.

  " Ent?o vamos logo antes que essa pizza resolva se vingar de mim."

  Um meio sorriso escapa de mim. Pequeno. Frágil.

  Dura pouco.

  Tranco a porta atrás de nós.

  Seguimos conversando pelo caminho.

  O taxi corta as ruas de Monterrey enquanto o sol bate fraco entre prédios velhos e postes tortos.

  A cidade parece normal demais para o que estamos prestes a fazer. Sempre é assim. O horror

  nunca anuncia a própria porta.

  Mateus está inquieto no banco. Ele tamborila os dedos na perna, olha pela janela, depois pra

  mim, depois de novo pra rua.

  " Ent?o " ele quebra o silêncio. " Esse lugar n?o aparece em registro nenhum, né?"

  " N?o " respondo. " Empresa fantasma, dono morto há três anos, impostos pagos em dinheiro

  vivo. O tipo de casa que n?o existe até alguém desaparecer lá dentro."

  " ótimo adoro lugares que 'n?o existem'."

  " Pelo menos você n?o vai poder reclamar depois " digo, seco. " Se algo der errado, ninguém vai

  saber onde morremos."

  " Isso n?o ajuda em nada, Alex."

  " Eu sei."

  Viramos a esquina.

  E ent?o eu vejo.

  A casa.

  Ela é grande demais para aquela rua. Cinza, sem qualquer detalhe nem jardim, nem placa, nem

  camera visível. As janelas s?o estreitas, altas, todas fechadas. Parece mais um prédio

  administrativo disfar?ado de residência.

  O taxi para.

  " Merda " Mateus murmura.

  Conto mentalmente.

  Na cal?ada.

  Na porta.

  No muro lateral.

  No fundo.

  " No mínimo trinta pessoas " digo. " Provavelmente mais lá dentro."

  " Seguran?a armada?"

  " Sim. E organizada. parece que Ernesto sabia de nossa visita.

  Mateus engole seco.

  " Ent?o o que faremos, Alex?"

  N?o respondo de imediato.

  Encosto em uma arvore a uma quadra de distancia.

  Come?o a embaralhar o baralho.

  O som das cartas se chocando é baixo, ritmado. Familiar. Um hábito que sempre acalma.

  Mateus observa minhas m?os.

  Uma carta salta sozinha entre meus dedos.

  Eu a seguro.

  Quatro de Espadas.

  " Esta carta " digo, encarando a lamina desenhada na carta " permite transferir dano. Dor,

  impacto, ferimento."

  Mateus franze o cenho.

  " Transferir pra onde?"

  " Pra um alvo definido " respondo. " Quanto mais específico eu for, mais preciso o dano

  transferido será."

  Levanto os olhos para ele.

  Dou um leve sorriso.

  " Pega minha arma."

  " O quê?! " ele arregala os olhos. " Alex, você enlouqueceu?"

  " Confia em mim " digo, já ativando. A carta esquenta entre meus dedos. " Só faz exatamente o

  que eu mandar."

  Mateus hesita. Muito pouco. Depois alcan?a o coldre na minha cintura e puxa a pistola.

  " Isso n?o tá me cheirando bem"

  " Nunca cheira " respondo. " Agora escuta com aten??o."

  Apoio a m?o no ombro dele, respiro fundo.

  " Daqui a pouco, alguém vai perceber que estamos observando demais."

  " E aí?"

  " E aí v?o atirar em mim."

  Mateus fica pálido.

  " Alex, n?o---"

  O turno da manh? sempre era o pior.

  N?o pelo perigo, ele já tinha aprendido a engolir isso, mas pelo tédio. A Casa Cinza n?o parecia um

  lugar onde coisas importantes aconteciam. Por fora, era só concreto, silêncio e janelas

  fechadas. Nenhum vizinho curioso, nenhuma crian?a brincando na rua. Era como se aquele

  peda?o da cidade tivesse sido esquecido de propósito.

  O guarda ajeitou o fuzil no ombro e suspirou.

  " Cara quando esse turno acabar, eu juro que nunca mais reclamo da minha sogra."

  O homem ao lado dele, encostado no muro, riu baixo. Chamava-se Luis, mais novo, recém transferido.

  " Você sempre fala isso " disse Luis. " E na semana seguinte tá reclamando de novo."

  " Reclamar da sogra é direito humano " o guarda respondeu. " Agora ficar aqui parado olhando essa

  parede cinza, isso sim é tortura."

  Luis olhou em volta, instintivamente baixando o tom.

  " Falando nisso é verdade o que dizem do por?o?"

  O guarda travou por meio segundo.

  Depois deu de ombros.

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  " Depende do que você ouviu."

  " Ouvi que" Luis hesitou " que tem coisa lá que nem os chefes gostam de ver."

  O guarda soltou um riso curto, sem humor.

  " Garoto, se você come?a a perguntar demais, n?o dura muito aqui."

  " Mas você já desceu lá, né?"

  Silêncio.

  O vento passou entre os dois, trazendo o cheiro distante da cidade. Vida normal. Gente indo

  trabalhar. Crian?as indo pra escola. Tudo t?o fora de lugar em compara??o com aquela casa.

  " Já " o guarda respondeu por fim. " Uma vez."

  " E?"

  Ele apertou mais forte a empunhadura da arma.

  " E eu sonhei com isso por semanas. " Fez uma pausa. " N?o s?o só gritos. é o jeito que eles

  olham pra você. Como se você fosse parte daquilo."

  Luis engoliu seco.

  " Eu pensei que isso aqui fosse só prote??o de laboratório."

  " é isso que dizem pra quem precisa dormir à noite."

  O guarda ia continuar quando algo chamou sua aten??o.

  Um taxi parado há tempo demais, uma quadra abaixo.

  " Tá vendo aquilo? " ele murmurou.

  " Por que tem sangue na janela? " Luis seguiu o olhar.

  O guarda levou a m?o ao rádio.

  " Base, aqui port?o frontal. aconteceu algo ai dentro."

  Silêncio no rádio. Estático.

  " Base?"

  Nada.

  O guarda franziu o cenho.

  "Estranho" murmurou.

  Foi ent?o que um homem do apareceu.

  Sozinho.

  Sem pressa.

  " Quem diabos... " Luis come?ou.

  O guarda levantou a arma.

  " Ei! " gritou. " área restrita! Afaste-se agora!"

  O homem n?o correu.

  N?o se escondeu.

  Apenas continuou andando.

  " Ele tá maluco " Luis sussurrou.

  O guarda sentiu um arrepio estranho, uma press?o no peito, como se o ar tivesse ficado mais

  pesado.

  " último aviso! " gritou, dedo no gatilho.

  E ent?o---

  BANG.

  O tiro veio de dentro da casa.

  N?o da rua.

  De dentro.

  O guarda sentiu o impacto no peito.

  N?o dor primeiro.

  Choque.

  O ar fugindo dos pulm?es.

  Ele olhou para baixo, incrédulo.

  Sangue.

  " Q-que... " tentou falar.

  Luis caiu logo em seguida.

  Outro impacto seco no peito.

  " MERDA!"

  Mais tiros.

  Todos no mesmo lugar.

  Peitos sendo perfurados, costelas quebrando, corpos sendo jogados para trás como bonecos.

  O guarda caiu de joelhos.

  N?o entendia.

  N?o havia atirador ali fora.

  "Ent?o por que---"

  O rádio chiou no ch?o.

  O guarda sentiu o corpo ficando pesado, o mundo perdendo cor.

  No último segundo de consciência, algo passou pela mente dele.

  O por?o.

  O silêncio estranho.

  A sensa??o de que aquela casa cobrava.

  Ele caiu de lado.

  E, pela primeira vez desde que come?ou a trabalhar ali, teve certeza absoluta de uma coisa:

  A Casa Cinza era um esconderijo.

  Era uma tumba.

  E alguém, finalmente, tinha vindo cobrar as dívidas.

  "Pode vir, Mateus, acabou."

  Mateus hesitou por meio segundo antes de correr até mim.

  " Nossa" ele olhou ao redor, olhos arregalados. " N?o é que funcionou mesmo?"

  Funcionou.

  A palavra soou errada dentro da minha cabe?a.

  Empurrei a porta com cuidado. A Casa Cinza, por dentro, era pior do que parecia por fora. Os

  móveis estavam revirados, paredes manchadas, marcas de tiros e respingos escuros

  espalhados como uma pintura grotesca. O cheiro metálico do sangue era t?o forte que parecia

  grudar na garganta.

  " Vamos entrar, procura no segundo andar. Eu fico com o primeiro."

  Mateus assentiu e subiu as escadas correndo, desviando de corpos como se ainda tivesse

  medo de que algum deles se levantasse.

  Fiquei sozinho.

  O silêncio depois do tiroteio era sempre o pior. Ele fazia os pensamentos gritarem.

  Caminhei devagar pelo primeiro andar, abrindo portas, checando cantos, mantendo a m?o perto

  do baralho. Cozinha vazia. Sala vazia. Um corredor estreito demais, iluminado por uma lampada

  fraca demais.

  Foi quando notei algo fora do lugar.

  Um tapete.

  Velho, gasto, mas mal posicionado. Como se tivesse sido puxado e colocado de volta rápido

  demais.

  Ajoelhei.

  Levantei o tapete.

  Ali estava.

  Uma porta no ch?o.

  Meu est?mago afundou.

  " Claro" murmurei. " Sempre tem um por?o."

  Segurei o corrim?o da escada estreita e comecei a descer.

  A cada degrau, a sensa??o ficava pior. O ar mudava. Mais pesado. Mais frio.

  E ent?o percebi.

  Eu já tinha visto aquele lugar antes.

  N?o pessoalmente.

  Nas fitas.

  Na Casa Verde.

  Quando cheguei ao fundo da escada, a luz fraca revelou o que restava do por?o.

  A primeira coisa que vi foi ela.

  Kelly Windsor.

  Presa a uma cadeira metálica, amarrada por cintas enferrujadas. O corpo rígido, inclinado para

  frente de forma antinatural. A pele pálida demais. Os olhos fechados.

  Morta.

  Há muito tempo.

  E eles nem sequer se deram ao trabalho de tirá-la dali.

  Meu corpo travou.

  Por um segundo, pensei que ia vomitar.

  Por outro, pensei que ia gritar.

  Mas n?o fiz nenhum dos dois.

  Me aproximei devagar, como se pudesse acordá-la. Como se ainda houvesse algo a salvar.

  N?o havia.

  " Desculpa " sussurrei, sem saber exatamente pra quem.

  Desviei o olhar e comecei a vasculhar o lugar. Gavetas metálicas, caixas, pastas jogadas sem

  cuidado. Meus dedos tremiam quando puxei uma delas.

  Documentos.

  Relatórios.

  Nomes.

  Samuel Norton

  Projeto AUB

  Li rápido. Depois devagar. Depois de novo, tentando negar.

  Projeto AUB: Signa -- Aprimorador de Usuários de Bên??o.

  Uma droga sintética criada para for?ar, ampliar e estabilizar usuários de bên??os.

  Meu peito apertou.

  Ent?o era isso.

  Rachel.

  Kelly.

  Andres.

  As crian?as.

  Cobaias.

  Os papéis mencionavam testes, colapsos, falhas, 'descartes'. Falavam de sofrimento como se

  fosse erro de cálculo.

  Outro detalhe gelou minha espinha.

  Financiamento externo confirmado: Máfia Oscura.

  " Ent?o é por isso... "murmurei.

  Henry.

  Ele n?o estava ali por acaso.

  Um chamado ecoou lá de cima.

  " Alex! " a voz do Mateus veio urgente. "Aqui em cima! Agora!"

  Fechei a pasta com for?a e subi as escadas correndo.

  No segundo andar, Mateus estava parado na porta de um quarto, pálido.

  " Ela tá... " ele engoliu seco. " Viva."

  Entrei.

  Rachel Windsor estava deitada na cama.

  Ou o que restava dela.

  Muito magra. Pele frágil, quase translúcida. Bra?os marcados por agulhas antigas. O peito subia

  e descia de forma fraca, irregular.

  Mas subia.

  Ela estava viva.

  Meu corpo cedeu por um instante. Tive que apoiar a m?o na parede para n?o cair.

  Depois de tudo

  Depois do por?o

  Ela ainda respirava.

  " Mateus " falei baixo " chama refor?o. Agora."

  Ele assentiu, olhos marejados, e saiu correndo.

  Fiquei ali, olhando para Rachel.

  O horror daquela casa n?o tinha terminado.

  Mas, pela primeira vez em muito tempo

  ele n?o tinha levado tudo.

  E agora minha miss?o enfim estava terminada

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