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Capítulo 16: O Peso do Segredo

  Já era noite quando os três caminharam em silêncio pelos corredores iluminados da academia em dire??o aos dormitórios. A agita??o do dia tinha dado lugar a uma calma serena, mas a tens?o entre eles era palpável, uma nuvem espessa que nenhum ousava perfurar com palavras. Moisés ia à frente, os seus ombros largos a parecerem carregar um peso invisível. Maria seguia-o de perto, a sua energia habitual contida, substituída por uma ansiedade expectante. E, um pouco mais atrás, vinha Rick, de bra?os cruzados sobre o peito e com uma express?o carrancuda que mal escondia a sua própria e confusa curiosidade.

  Ao chegarem à porta do seu quarto, Moisés parou, abriu-a e, com um gesto de cabe?a, gesticulou para que entrassem. Ele foi o último a entrar, fechando a porta atrás de si com um clique suave que pareceu ter o som de um cofre a ser selado, isolando-os do resto do universo. O seu quarto era espa?oso, mas simples, quase espartano. Nas paredes, alguns posters de heróis da Terra, uma lembran?a agridoce de uma vida passada, de um rapaz que sonhava com o poder sem conhecer o seu pre?o.

  Maria e Rick acomodaram-se onde puderam, ela numa cadeira, ele encostado à parede, os seus olhos fixos em Moisés, que permaneceu de pé no centro do quarto. Ele respirou fundo, reunindo os seus pensamentos, preparando-se para partilhar um fardo que carregara sozinho durante demasiado tempo.

  "Bem... por onde eu come?o?", disse ele finalmente, a sua voz baixa e um pouco rouca.

  "Come?a pelo princípio do princípio. Para entendermos tudo", respondeu Maria, a sua voz, normalmente borbulhante, agora séria e focada. Rick apenas concordou com um aceno brusco, a sua express?o indecifrável.

  "Está bem", disse Moisés. Ele olhou de um para o outro, um último momento de hesita??o antes de mergulhar. "A verdade é que... eu sou um Magic Dourado."

  A sala ficou em silêncio. Um silêncio t?o profundo que se podia ouvir o zumbido das luzes da academia. Maria ofegou, a sua m?o a voar para a boca, os seus olhos a arregalarem-se. Rick, por outro lado, soltou um bufo de desdém. "Magic Dourados s?o lendas. Contos de fadas para assustar os vil?es nos seus ber?os."

  "Eles eram reais", corrigiu Moisés, a sua voz firme, sem deixar espa?o para dúvidas. "E a nossa história n?o é um conto de fadas. é uma tragédia. Há centenas de anos, a nossa Ordem travou uma guerra contra os nossos inimigos, os Magic Negros. E nós estávamos a perder. A Liga das Trevas, a sua organiza??o, tinha vantagem sobre nós em todos os aspetos."

  Ele olhou para as suas próprias m?os, como se estivesse a ver a história nelas. "Num último ato desesperado, o nosso líder, o Primeiro Magic Dourado, criou uma arma que era também uma semente. Uma esfera de poder puro. Ele programou-a com uma miss?o final: encontrar alguém digno de carregar o nosso legado e cumprir um propósito: preservar a paz do universo. Essa esfera encontrou-me."

  Ele levantou o olhar e encarou-os diretamente. "Mas eu n?o sou um Magic Dourado qualquer. Sou uma nova vers?o. Um protótipo. A Esfera, ao fundir-se comigo, iniciou uma evolu??o. A minha miss?o é ter sucesso onde todos os outros falharam. Quanto ao nosso Primeiro, e ao líder dos Magic Negros... o seu paradeiro é desconhecido desde a sua última e cataclísmica batalha. Ninguém sabe o que lhes aconteceu."

  Stolen story; please report.

  "é por isso que estou aqui", continuou Moisés, a sua voz a ganhar um tom de urgência. "Para treinar. E é por isso que n?o posso usar o meu poder completo. A Liga das Trevas está a ca?ar-nos, ou o que resta de nós. Uma demonstra??o de poder como a que fiz hoje é como acender um farol no meio de uma noite escura e cheia de predadores."

  Ele fez uma pausa, o seu olhar a tornar-se mais sombrio, mais assombrado. "Eu n?o sei ao certo o alcance deles, mas sei que eles podem ter-me sentido. Foi um risco enorme. Um risco estúpido. E eu n?o sei se tive sorte ou se eles simplesmente n?o me conseguiram localizar a tempo. é um risco que n?o posso voltar a correr."

  Ele terminou, a sua história a pairar no ar, pesada, perigosa e incrivelmente real. O silêncio voltou a instalar-se, desta vez quebrado pela voz rouca de Rick, que parecia ter dificuldade em formular as palavras.

  "Ent?o... a raz?o pela qual me derrotaste...", disse ele, com os olhos fixos em Moisés. "é porque tu és, literalmente, uma lenda viva?"

  Moisés n?o respondeu. O seu silêncio foi a única confirma??o de que Rick precisava.

  Maria, por outro lado, levantou-se de um salto. Os seus olhos n?o brilhavam com medo, mas com uma determina??o feroz e inabalável. "Isto é... a coisa mais perigosa e mais incrível que eu já ouvi." Ela olhou de Moisés para Rick, a sua decis?o já tomada. "E se tu tens inimigos, ent?o eles agora também s?o nossos inimigos. Nós estamos dentro, Moisés. Nós vamos ajudar-te."

  Pela primeira vez em muito tempo, Moisés sentiu uma onda de calor a espalhar-se pelo seu peito, a sensa??o de n?o estar completamente sozinho nesta luta. Ele adorou a coragem deles, a lealdade instantanea nos olhos de Maria e até mesmo no olhar relutante, mas resoluto, de Rick. Mas essa onda de calor foi imediatamente seguida por um arrepio de panico gelado.

  A imagem da sua casa em ruínas, do baloi?o retorcido da sua irm?, do cheiro a fumo e a perda, brilhou na sua mente com uma clareza brutal. A mesma promessa que o impulsionava para a frente agora o puxava para trás com uma for?a desesperada.

  "N?o", disse ele, a sua voz subitamente baixa e frágil, cortando o entusiasmo de Maria como uma lamina de gelo.

  Ela olhou para ele, confusa. "N?o? Moisés, tu ouviste o que eu disse?"

  "Eu ouvi", respondeu ele, olhando para o ch?o, incapaz de encarar a lealdade nos seus olhos. "E eu agrade?o. Mais do que vocês imaginam. Mas vocês n?o percebem. Um confronto direto contra um Magic Negro... vocês n?o teriam a menor hipótese."

  Ele levantou a cabe?a, e nos seus olhos havia uma dor t?o profunda, um medo t?o cru, que os fez recuar um passo. "Vocês podem ajudar-me, sim. Ajudem-me no treino. Empurrem-me para além dos meus limites. Tornem-me mais forte. Mas na batalha real... n?o."

  A sua voz falhou por um instante, um vislumbre da sua dor, antes de se tornar dura como a?o.

  "Eu n?o vou perder mais ninguém."

  A declara??o final pairou no ar, um muro invisível e inabalável que ele acabara de construir entre eles. Era uma promessa e um aviso. Maria e Rick ficaram em silêncio, compreendendo finalmente que o fardo de Moisés n?o era apenas o seu poder, mas também o peso esmagador das suas perdas. E esse era um fardo que ele, por medo de o reviver, se recusava a partilhar.

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