O final do ano letivo aproximava-se como uma tempestade no horizonte e, com ele, o peso esmagador do mundo real. A vida de Moisés era uma dicotomia esquizofrénica. Durante as horas roubadas ao amanhecer e ao crepúsculo, sob a tutela do Guardi?o, ele era um guerreiro cósmico a empurrar os limites do seu poder, aprendendo a dan?ar com um instinto de batalha que transcendia o pensamento. Mas durante o dia, e principalmente durante as longas noites, a sua escola profissional exigia algo completamente diferente.
A sua Prova de Aptid?o Profissional era um monstro de uma natureza distinta. Uma ambiciosa API para uma biblioteca digital, desenvolvida em Django e Angular, consumia as suas noites, os seus olhos a arderem diante do brilho do monitor. O relatório detalhado, com dezenas de páginas de documenta??o técnica, era um adversário t?o formidável quanto qualquer exercício do Guardi?o. Moisés sentia-se perigosamente dividido entre estes dois mundos, ambos a exigir a sua total e absoluta dedica??o.
A tragédia tinha-o mudado de formas que os seus colegas n?o conseguiam entender. O rapaz nerd e hesitante, que outrora se encolhia nos cantos, dera lugar a um jovem focado e sério. Havia uma presen?a silenciosa nele, um peso na sua postura e no seu olhar que os outros n?o conseguiam explicar, e que a maioria preferia evitar.
Certo dia, no caos barulhento do corredor da escola, o seu passado, mesquinho e cruel, veio cobrá-lo. O mesmo grupo de bullies de sempre, um satélite de inseguran?as a orbitar em torno de um rapaz chamado Rui, cercou-o junto aos cacifos metálicos. Mas desta vez, havia um brilho diferente nos olhos de Rui, um sorriso mais cruel, mais confiante, o sorriso de quem sabe que encontrou um novo ponto fraco para explorar.
"Olhem só quem é", disse Rui, a sua voz projetada para que todos no corredor pudessem ouvir. "O órf?o. Ouvi dizer que ficaste sem casa. Que pena. Deves estar a gostar de viver de favores."
A provoca??o foi como um murro no est?mago, tirando-lhe o ar. A raiva, aquela velha conhecida que ele tentava suprimir, borbulhou no seu peito, quente e perigosa. Uma imagem vívida da cratera fumegante, do fumo negro a subir para o céu, brilhou na sua mente. Ele sentiu o poder a querer libertar-se, a ansiar por transformar aquela provoca??o verbal em dor física e palpável.
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Mas ent?o, como um eco de calma no meio da tempestade, ouviu a voz do Guardi?o na sua cabe?a: Controlo. Lembra-te da li??o. Sê subestimado.
Rui, exultante por ver que a sua provoca??o tinha atingido o alvo, deu um passo em frente e empurrou Moisés com for?a contra a porta de metal dos cacifos, que retiniu com o impacto. "O que foi? O gato comeu-te a língua? Ou a tua família levou-a com eles quando se foram?"
Foi o segundo empurr?o que ativou o instinto. Mas n?o o instinto de um guerreiro a atacar. Foi o instinto de um mestre a controlar.
Quando a m?o de Rui veio na sua dire??o novamente, o corpo de Moisés cedeu ligeiramente, absorvendo o ímpeto do empurr?o. Com um movimento quase impercetível do pulso, uma tor??o fluida que era mais arte marcial do que defesa de recreio, ele redirecionou toda a for?a do agressor. N?o foi um bloqueio de for?a bruta; foi um desvio elegante, como a água a contornar uma rocha. Rui, que esperava encontrar a resistência sólida de um corpo, foi lan?ado para a frente pela sua própria for?a descontrolada, trope?ando nos seus próprios pés e caindo de forma desajeitada e ruidosa no ch?o do corredor.
Os seus amigos ficaram parados, de queixo caído. O barulho do corredor diminuiu, transformando-se num silêncio chocado.
Rui levantou-se rapidamente, o seu rosto vermelho de humilha??o e uma raiva impotente. "Tu...!"
Moisés n?o se moveu. Ele n?o assumiu uma pose de luta, n?o disse uma palavra. Apenas olhou para ele, os seus olhos calmos, mas com uma intensidade fria e inabalável que Rui nunca antes vira. N?o havia medo ali. N?o havia hesita??o. Havia apenas um aviso silencioso, uma promessa de que as velhas regras já n?o se aplicavam.
Sem dizer mais nada, Moisés ajustou a al?a da sua mochila, deu um passo para o lado para contornar o bully caído e continuou o seu caminho pelo corredor. A multid?o de alunos, como se sentisse a mudan?a na dinamica do poder, abriu-se instintivamente à sua passagem.
Naquele dia, ele n?o usou mais do que uma fra??o ínfima, talvez cinco por cento, do seu poder. Ninguém viu uma aura dourada. Ninguém viu super-for?a. Eles apenas viram um rapaz que se recusou a continuar a ser uma vítima, defendendo-se com uma calma e uma eficiência que eram, para eles, completamente desconcertantes.
O verdadeiro teste n?o fora no bosque, contra um mestre de luz. Fora ali, naquele corredor, contra a banalidade da crueldade humana. E ele tinha passado.

