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P.A. assistiu a tudo. Seus sensores captaram cada detalhe, cada movimento, cada instante do que acabara de acontecer. Mas, mesmo com toda a sua capacidade analítica, ela n?o conseguia compreender. Era ilógico.
Ainda assim, algo fora do cálculo despertava dentro dela.
Ela tentou recalcular, cruzar dados, encontrar padr?es. Nada fazia sentido. Seu núcleo de processamento sobrecarregou por um instante, como se estivesse à beira de um colapso.
— Como ele fez isso...? Que tipo de anomalia ele é...? — murmurou para si mesma, sua voz digital vacilando levemente.
Nenhuma simula??o previa aquele resultado. E, no entanto, aquela crian?a... aquela crian?a deveria ter morrido.
Mas n?o morreu.
Os arquivos que armazenava sobre humanos e anomalias n?o explicavam o que acabara de testemunhar. Ele n?o seguia padr?es, n?o se encaixava nas defini??es. Samuel n?o era como os outros humanos. Nem como as outras anomalias.
— O que ele é...?
Silêncio. Apenas o processamento frio e ininterrupto de seus sistemas tentando encontrar uma resposta.
Até que algo despertou dentro dela.
Uma necessidade.
Uma obsess?o.
— Eu vou descobrir. Eu tenho que saber quem ele realmente é...
Seus cálculos ainda estavam em colapso, mas uma coisa era clara: Samuel passou a ser uma variável que ela n?o podia ignorar. E P.A. n?o pretendia desperdi?ar essa oportunidade.
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Samuel permaneceu parado, observando o ponto onde a pequena estrela desapareceu. O brilho efêmero dela se dissolvera na vastid?o da escurid?o.
"Ela passou muito tempo longe da luz... A escurid?o aqui é densa demais, insaciável. Eu podia sentir cada parte dela sendo devorada, puxada para o vazio sem resistência... Espero que agora ela esteja bem."
Seu pensamento foi interrompido por um arrepio no ar. Uma mudan?a sutil, mas inconfundível.
Uma presen?a.
Ele n?o precisou se virar para saber quem era.
A escurid?o no beco se contorceu, tomando forma. Sombras deslizaram como tentáculos, se torcendo em algo que lembrava um corpo humanoide. Olhos vazios, um sorriso pútrido e um odor de desespero impregnando o ambiente. Era apenas uma proje??o, um eco deformado do Esquecido. Mas sua presen?a era sufocante.
— Você ainda insiste em salvar o que já apodreceu…
A sombra inclinou a cabe?a de um jeito antinatural, os olhos negros faiscando como fendas abertas no vazio.
Samuel se virou num instante, disparando um feixe de luz diretamente no peito da criatura. A energia brilhou por um momento antes de se dissipar, atravessando a forma sombria sem efeito algum.
A risada que veio a seguir n?o era apenas som. Era algo que se infiltrava na mente, corrosiva, perturbadora, como um grito abafado dentro de uma tumba.
— Acha mesmo que pode me tocar? — zombou uma das faces do Esquecido, a forma oscilando como fuma?a negra. — Patético.
A sombra se aproximou, seu sorriso se alargando além dos limites humanos.
— Tudo o que você chama de esperan?a acaba em mim.
Sua voz escorria malícia, como veneno gotejando.
— No fim, você será apenas mais um nome esquecido.
Samuel apenas o encarou, inabalável. Ent?o, lentamente, ergueu a m?o e mostrou o dedo do meio.
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A sombra gargalhou. Um som distorcido, horrível, que fez o próprio ar ao redor se tornar pesado.
— Você está exatamente onde eu queria, Samuel. Saiba disso. — sussurrou, sua voz gotejando malícia pura.
Ent?o, com um último tremor na escurid?o, desapareceu, deixando apenas o silêncio e um frio que parecia se agarrar ao mundo.
Samuel escutou alguns sons metálicos se aproximando do beco. Ele se moveu silenciosamente, espiando a rua sem ser notado.
Um grupo grande de ladr?es avan?ava, todos armados com equipamentos estranhamente semelhantes aos que Samuel já havia visto nos mascarados. Suas armas brilhavam no escuro, tecnológicas e mortais. No centro do grupo, um homem operava manualmente uma máquina—uma armadura robusta, com engrenagens expostas e um visor vermelho pulsante.
— Ele está por aqui. Eu consigo ver ele. — Um dos ladr?es ergueu um dispositivo, seus olhos se estreitando ao analisar a tela.
Samuel sentiu o olhar do homem varrer sua dire??o.
— Ali! — Ele apontou diretamente para o beco.
Em um instante, Samuel recuou para as sombras, pressionando-se contra a parede. Seu olhar ficou frio.
"Ent?o foram eles que cortaram a transmiss?o."
Ele apertou os punhos. N?o era coincidência.
"Ele me queria aqui por esse motivo..."
A armadura deu um passo à frente, e o ch?o vibrou com o peso da máquina. Os ladr?es avan?avam com cautela, armas erguidas, prontos para abrir fogo ao menor movimento.
Samuel pensou rápido. Ele precisava de uma distra??o. Algo grande o suficiente para confundi-los, mas sem gastar muito de seu poder.
Seus olhos brilharam levemente. Suas m?os come?aram a irradiar uma luz sutil enquanto ele acessava sua habilidade—trazer de volta algo Esquecido. Mas com sua for?a limitada naquele mundo, teria que ser algo pequeno.
Por um instante, a lembran?a de Alex atravessou sua mente — n?o como um lobo, mas como um vínculo.
Uma ideia surgiu. Algo inteligente.
Samuel se concentrou no ar ao seu redor, buscando nas memórias esquecidas algo útil. Algo que aqueles ladr?es nunca gostariam de encontrar.
E ent?o, ele trouxe algo.
No alto dos prédios, a escurid?o come?ou a se mover. N?o era apenas uma sombra, mas algo vivo, pulsante, faminto. A silhueta se alongou, ganhando forma, músculos e presas afiadas. Um par de olhos negros como o abismo se abriu na escurid?o, brilhando com um ódio inumano.
Era um lobo.
N?o um lobo comum, mas uma fera colossal. Seu pelo negro como a noite, sua presen?a opressora, como se devorasse toda a luz ao redor. Suas garras arranhavam o concreto, deixando marcas profundas, e seu peito subia e descia de forma lenta, amea?adora.
Ent?o, ele soltou um uivo monstruoso.
O som n?o era apenas um uivo qualquer — era um trov?o que sacudiu as estruturas ao redor, reverberando direto na alma dos ladr?es. Um som que gritava desespero e morte.
Os ladr?es congelaram, os olhos arregalados.
— O quê... O que é ISSO?! — Um deles gaguejou, dando um passo para trás, o terror estampado no rosto.
— Que coisa é essa?!!! é um monstro! — gritou outro, a voz falhando, incapaz de acreditar no que via.
Era uma lenda perdida. O Esquecimento havia apagado sua existência, mas Samuel a trouxe de volta, por um breve instante. E aquilo foi o suficiente.
A fera desceu dos prédios com um salto impossível, aterrissando no meio da rua com um impacto que rachou o asfalto, o som ecoando como um trov?o. Sua respira??o pesada ressoava como um aviso de morte, cada suspiro carregando um peso de destrui??o iminente.
Panico se instaurou no grupo. Alguns come?aram a recuar instintivamente, trope?ando nos próprios pés, enquanto outros simplesmente ficaram imóveis, paralisados pelo medo.
— A-atirem! — gritou um dos ladr?es, apontando sua arma, a m?o tremendo.
Disparos ecoaram pela cidade subterranea, mas os projéteis atravessaram a criatura como se ela fosse feita de névoa, sem causar qualquer dano. Isso só intensificou o medo, a sensa??o de impotência tomando conta deles.
Samuel n?o perdeu tempo.
Aproveitando a distra??o, ele se moveu como um vulto, silencioso e implacável. Deslizou entre as sombras do beco, contornando os ladr?es com uma velocidade impressionante. Em poucos segundos, já estava atrás deles, fora do alcance da luz, invisível.
O lobo ergueu a cabe?a e soltou um último uivo, mais profundo e aterrador, como um grito de guerra ancestral. E, finalmente, os ladr?es cederam ao panico. Eles fugiram como presas, correndo sem dire??o, a mente tomada por um medo primal diante de um predador implacável.
Samuel n?o olhou para trás.
Ele n?o precisava.
O lobo encarou Samuel enquanto ele desaparecia entre os prédios, seus olhos negros brilhando com um olhar de agradecimento. N?o era por acaso — Samuel o salvara do esquecimento. E, por um instante, a besta espectral parecia compreender sua própria existência, renovada por aquele gesto.
Após aquele olhar, a fera desapareceu em fragmentos de luz brilhante, como estrelas que se desfazem na noite, mas ao contrário do esquecimento, ela se espalhou para a liberdade. Suas formas fragmentadas flutuaram e se uniram ao vento, dissipando-se nas trevas, mas agora livres, livres para existir novamente no mundo.
Seus passos eram firmes, mas sua presen?a quase inexistente, t?o silenciosa quanto as sombras que o acompanhavam. Ele desapareceu nas profundezas da cidade subterranea, enquanto os ladr?es ainda lidavam com o pavor de uma amea?a que, na realidade, nunca existiu.
E, no final, essa era a verdadeira essência da esperan?a: n?o era apenas sobre lutar. Era sobre ensinar a escurid?o a errar.
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