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Capítulo 0 — O início

  29 de outubro de 2068, Calendário Etherius — Dia 569 da Guerra da Liberta??o

  O cheiro de ferrugem, as cinzas grudando na pele, o barulho de uma multid?o rebelde sobrep?e-se ao que, em outra época, poderia ser uma noite tranquila para qualquer pessoa comum. De repente, tudo come?a a ficar mais silencioso. Um homem elegantemente vestido sai da sede da Organiza??o Mundial das Na??es Unificadas, pega um microfone e diz, arrogantemente:

  — Quem é o líder de vocês? Apresente-se agora.

  Da massa disforme ergue-se um moreno alto, olhos castanho-escuros faiscando, músculos talhados à lamina. Ele avan?a até o homem elegante com a calma de quem detém o próprio tempo, postura intacta, surda ao clamor da pra?a.

  THUMP. THUMP. THUMP.

  Três passos. Três choques. Três cora??es suspensos. A um metro, fitou-o de cima, pés firmes, queixo erguido — os lábios arqueados num desprezo que dispensava apresenta??es.

  — Sou ícaro Dantas, unificador do Plano Libertador de Alter?. Zarokk Kenier, você, como propagador do controle mundial e um dos principais alvos do nosso plano, pe?o que se renda imediatamente ou sofra a ira do povo que você menosprezou e humilhou por décadas. N?o existe outra op??o. A defesa de Brosmonth já caiu e as comunica??es já foram cortadas.

  Zarokk olha, surpreso, antes de o rosto se tornar sombrio e um sorriso de desdém se formar em seu rosto.

  — Você quer justi?a? Igualdade? Pois bem. Estar?o todos igualmente mortos!

  — Soldados… E-R-G-A-M-S-E.

  Uma silhueta esquelética salta os cinquenta metros da muralha da OMNU. N?o é um homem — é um Mx5t , modelo expurgador: bra?os que catapultam cinco toneladas, servomotores capazes de correr a 50 km/h, armas ocultas sob a carca?a de titanio negro. Ele aterrissa; outro vem atrás.

  Depois, cinco.

  Dez.

  Cinquenta.

  Em segundos, centenas despencam como chuva de a?o. A massa de dois milh?es de rebeldes recua num só arfar: nem mil humanos desarmados determinaram um único expurgador — e a tempestade mecanica só aumentou.

  — Tolos! Vocês deveriam ter continuado a viver como sempre viveram: rastejando nas favelas, implorando por migalhas, achando que poderiam escolher o próprio destino quando nunca foram mais que escravos enchendo nossos bolsos de dinheiro!

  Zarokk ri, histérico, deixando toda e qualquer postura ou dignidade de lado, enquanto saboreia a vitória aparente sobre esses vermes que tantos problemas lhe causaram.

  ícaro, ent?o, encara-o e rompe a gargalhada selvagem com uma pergunta:

  — Esses peda?os de ferro s?o inúteis. Essa é a resposta do “ditador supremo” que escravizou meu povo nas sombras? Que piada… esses brinquedos de lata n?o entretêm nem uma crian?a.

  ícaro retira do bolso o Cristal Metaestável, um controle roxo com um único bot?o de cristal ciano, e fita os compatriotas, ainda chocados com a chegada dos rob?s. Fecha os olhos por um instante e, em tom inspirador, declara:

  — Irm?os e irm?s, empunhem suas armas! N?o nos prender?o novamente. Essa é a ciência dos carrascos — e nós a rejeitamos. N?o somos mais gado nem marionetes de um Estado nas sombras. Uma nova era desponta, na qual filhos, filhas e gera??es por vir enfim respirar?o liberdade. N?o se curvem! N?o temam! N?o fraquejem! O presente ainda lhes pertence, mas o futuro é nosso!

  THOOM

  Um eco metálico ressoa quando o bot?o é pressionado. Todos os androides caem; os humanos, at?nitos, acompanham o desfecho. Nos segundos entre o toque e o colapso das máquinas, a matéria exótica do Cristal Metaestável recebe um pulso elétrico que libera micro-singularidades, criando “bolhas” que deformam o espa?o local e colocam todos os circuitos elétricos num raio de 1 Mm (1 000 km) em estado metaestável. O ar se distorce; círculos de pó e detritos sobem e caem.

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  ***

  — Impossível! Isso era apenas um protótipo há alguns anos, longe de ser minimamente usável. Conseguir desenvolver algo assim t?o depressa? Esse é o poder de um gênio milenar?

  Um jovem homem entre a multid?o estava em êxtase. Ele sabia do poder daquilo que ícaro possuía em m?os. Talvez, o curso da batalha pudesse mudar.

  ***

  TIC

  O cristal racha e, com a fissura, vem a melancolia do ícaro. Ele se lembrou da jovem Aline, onde viu de relance o brilho ambar dos seus olhos; lágrimas de despedida escorrem nessa memória.

  TIC

  Outra rachadura aparece, e com muita dor em seu cora??o ele resolve apertar o bot?o mais uma vez. Ele sabia que, com a tecnologia utilizada nesse rob?s, era apenas quest?o de tempo para eles voltarem a ativa. Caso isso acontecesse, as vidas perdidas seriam incontáveis. O pulso de micro-singularidades ataca novamente. A área de efeito parece retroceder a avan?ar em um breve instante. O ar come?a a se distorcer ainda mais violentamente, as máquinas come?am a tremer, seus circuitos come?am a colapsar, seus pinos se desalinham e por fim, colapsam por inteiro, óleo come?a a vazar e a energia elétrica proveniente inicia um incêndio nas centenas de rob?s próximos um dos outros.

  TRAC

  O cristal se quebra. E ao mesmo tempo, ícaro joga os destro?os em um Zarokk incrédulo, que, ao sentir o perigo, recua o mais rápido possível ativando sua Murada de Fótons. Um poder de atra??o irresistível explode dos fragmentos do cristal criando uma espécie de distor??o espacial por 3 segundos.

  ***

  Um segundo.

  Zarokk for?a sua barreira ao limite, ignorando qualquer rebote futuro. Seu corpo come?a a suar friamente enquanto ele come?a a gritar histericamente.

  Dois segundos.

  Ele come?a a ser atraído com o dobro da for?a do primeiro segundo, fazendo os fótons se distorcerem e colapsarem aos poucos enquanto o ar ao seu redor se torna menos respirável.

  Três segundos.

  Já quase engolido pela interrup??o, ele rapidamente toca seu bra?o esquerdo, quando os fótons ao redor ficam de algumas vezes mais concentrados por um instante, até explodir repentinamente e afastá-lo da acidente com um bra?o e duas costelas quebradas. Com o poder de atra??o já cessado, Zarokk Kenier caiu com a cara no ch?o coberto de sangue, o lado esquerdo de sua caixa torácica funda e o bra?o esquerdo torcido em um angulo estranho. Desconhecido se estava vivo ou morto.

  — Ele morreu?

  Ninguém disse quem falou isso primeiro.

  Nesse instante, o homem estendeu-se no ch?o — de costas para a multid?o — ergue-se lentamente. O bra?o quebrado se encaixa de volta com um estalo metálico; em seguida ele ri e encara o público. Os cranios parcialmente expostos, o globo ocular balan?ando, faiscando, preso a um cabo elétrico.

  Uma onda de vozes fervorosas: “herege”, “demoníaco”, “escória humana”. ícaro sente o ar esquentar e registrar o aviso de Aline: S e a tecnologia ciborgue se espalha, a elite tomará o controle absoluto — firmware nas veias, vida e morte programáveis, estímulos mentais à mercê de um toque. E ninguém, além de Zarokk Kenier, detém todas as especifica??es do sistema.

  — Calem-se!

  O ciborgue aponta o dedo para a multid?o e um ponto de luz aparentemente inofensivo saiu de dentro, mas por algum motivo sentiram um arrepio na espinha e se prepararam para recuar. ícaro aprendeu aquela luz e rapidamente tirou sua cápsula compressora de partículas para absorvê-la. Apressado, ele colocou a cápsula em expans?o na parte superior de sua pistola — onde havia um pequeno buraco retangular — e atirou para o céu. Mas, logo após atirar, ele olha para Zarokk, que apontava novamente, mas dessa vez para ele.

  Os olhos de ícaro se arregalaram e com um brilho escarlate, seu peito foi perfurado por um laser de calor concentrado.

  BOOM

  Houve um barulho gigante com a explos?o da cápsula, distorcendo e mudando o cor do céu para

  um amarelo avermelhado e engolindo todos os filhos do mundo e quase estourando os tímpanos dos ouvintes apesar da distancia de pouco mais de 100 milhas. Os rebeldes se jogaram no ch?o, cobriram seus ouvidos e o ciborgue perverso tinha um largo sorriso. Isso até que… ícaro brilhou com desdém.

  — Obrigado por esperarem, agora, o momento é meu!

  Em um lampejo de clareza brutal, o tabuleiro inteiro se revela: as rotas, os armamentos, os pactos subterraneos — tudo emerge como variáveis de uma equa??o resolvida. A guerra, antes difusa, agora tem estratégia. E dono.

  Zarokk, de repente, percebe algo e olha para o horizonte, sentindo um frio na espinha como nunca antes. Seus olhos ficam mais desesperan?osos à medida que as pupilas de ícaro se tornam mais intensas. O mundo tremeu, o solo vibrou sob as botas, espinhas estalaram em uníssono.

  Era o come?o.

  O come?o da VERDADEIRA REVOLU??O .

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